Históricos: Rio Ave e o golo que “veio das estrelas”

Este domingo, na rúbrica “Históricos”, recordamos um jogo de um passado recente e que, apesar de pouco conhecido, certamente merece o seu lugar nesta categoria, principalmente para os adeptos de Vila do Conde. Falamos do dia em que o Rio Ave carimbou, pela primeira vez, a passagem à fase de grupos da Liga Europa.

Estávamos então no Verão de 2014. Após uma época já de si memorável, em que, apesar do 11º lugar na liga, conseguiram atingir a final da Taça de Portugal pela segunda vez na sua história (jogo que viriam a perder por 1-0 para o Benfica), os “vila-condenses” garantiam, assim, o direito de jogar as pré-eliminatórias de uma competição europeia, a primeira aventura além-fronteiras do emblema nortenho.

Ditou o sorteio da UEFA que o primeiro adversário, na 3ª pré-eliminatória, seria o IFK Göteborg. Com isto, após uma vitória na Suécia pela margem mínima (0-1) e um empate a zeros em Vila do Conde, o Rio Ave avançava para o play-off, ficando assim a dois jogos da tão ambicionada fase de grupos.

Novo sorteio veio e, com ele, nova equipa sueca, desta feita o IF Eflsborg. O primeiro jogo, no entanto, não correu tão bem quanto o da eliminatória anterior, acabando os “rio-avistas” por perder em Borås, por 2-1. O resultado, no entanto, deixava tudo em aberto para a segunda mão em Portugal. Tal foi que os adeptos não foram com meias medidas, enchendo o Estádio dos Arcos para a segunda mão daquela que seria a última oportunidade para o Rio Ave de realizar, nesse ano, um feito inédito.

Com sensivelmente 9000 pessoas a assistir à partida e um ainda desconhecido Ederson no banco de suplentes da equipa da casa, a expectativa era muita e a ansiedade era certamente ainda maior. Os comandados do então técnico rio-avista Pedro Martins, com um futebol muito ofensivo (como seria, aliás, esperado), mal deixaram o adversário respirar, criando perigo junto da baliza nórdica logo a partir do segundo minuto, com Ahmed Hassan quase a desviar para o fundo das redes um corte por parte da defesa Sueca a um cruzamento do lado direito do ataque vila-condense.

Aos 17 minutos foi a vez de Prince Guoano fazer tremer os escandinavos, respondendo quase de forma perfeita a um centro de bola parada, mas permitindo uma enorme defesa a Kevin Ellegaard, guardião norueguês do Elfsborg. Dois minutos depois da meia hora de jogo foi a vez de Renan Bressan desperdiçar uma oportunidade soberba de inaugurar o marcador, após ser servido de bandeja perto da marca de penalti. Bastava encostar para inverter a vantagem na eliminatória, mas o que parecia um golo feito acabou por se tornar num falhanço incrível, com a baliza nórdica praticamente desgovernada.

Mantinha-se assim o nulo ao intervalo, com as equipas a recolherem às cabines ainda com 45 minutos de muita luta pela frente, sendo que o Rio Ave levava já estes três remates enquadrados contra nenhum por parte do Elfsborg.

Findo o intervalo, continuou o massacre vila-condense e com novo susto para os suecos, novamente aos dois minutos, com Diego Lopes a ficar a escassos centímetros de desviar um cruzamento de Ukra. O Elfsborg, que praticamente só via os portugueses jogar, teve a sua única situação de perigo cerca de 10 minutos depois, com um livre frontal à entrada da área a embater no poste esquerdo das redes defendidas por Cássio. Os ferros tremiam, mas não os jogadores, com Diego Lopes, aos 64 minutos, a responder, mas a desperdiçar novo cruzamento, desta vez de Tiago Pinto do lado esquerdo. Entretanto, decorrido o minuto 79, o defesa Lionn dava lugar ao ponta de lança Guineense Esmael Gonçalves e mal sabia este o que lhe esperava. O caudal ofensivo do Rio Ave não dava, por isso, sinais de querer abrandar e as oportunidades acumulavam-se. Renan Bressan esteve muito perto de finalizar de cabeça um cruzamento de Ukra, mas valeu novamente a atenção do guardião norueguês que, com mais uma intervenção de excelência, manteve o nulo no Estádio dos Arcos. Decorria, então, o 87º minuto de jogo e o desespero começava a apoderar-se, tanto dos adeptos como dos atletas.

Atingiu-se finalmente o minuto 90. Quatro minutos é o tempo extra indicado pelo 4º árbitro. No estádio ninguém arreda pé, mas o nervosismo é geral. Estamos praticamente a meio da compensação quando uma bola pontapeada por Cássio, aparentemente inofensiva, acaba por desviar num jogador sueco, deixando o suplente Esmael Gonçalves na cara do golo, sem ninguém pela frente, a não ser Ellegaard. Já em desequilíbrio, o ponta de lança consegue um desvio milimétrico, fazendo com que a bola passe o guarda-redes, encaminhando-se numa lentidão desesperante para a baliza, mas acabando mesmo por encontrar o fundo da mesma. É golo. É o golo, o golo que “veio das estrelas, para aterrar na história do Rio Ave”, como diz Nuno Presume. Uma frase que certamente ficará para sempre gravada na memória de todos os vila-condenses. O árbitro apita para o fim da partida e é um autêntico pandemónio dentro do estádio. O golo mais importante na história do clube, e os adeptos sabem-no bem.

O momento…

Foi neste histórico encontro que esta equipa, que nem seis anos antes estava apenas a regressar ao principal escalão do futebol português, conseguiu dar o salto para o convívio dos grandes a nível europeu, inscrevendo assim o seu nome na Liga Europa e pondo Vila do Conde no mapa do continente. No mesmo ano em que o clube contava 75 anos de existência, haverá melhor maneira de celebrar um aniversário?

 

Fonte das Imagens: zerozero.pt – Catarina Morais

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.