Sair do Cinzento

O futebol português atravessa neste momento um período de falta de qualidade que não parece ter uma solução fácil.

Arriscaria dizer que cerca de 90% dos adeptos das equipas grandes em Portugal não estarão satisfeitos com o futebol apresentado pela sua equipa. O grande problema é a mentalidade que se instalou nos grandes clubes portugueses e o barómetro de sucesso: para a esmagadora maioria dos adeptos do Benfica e do Porto, uma época de sucesso é uma época em que no mês de maio podem estar no Marquês ou nos Aliados.

Desta forma, um dos dois crónicos campeões portugueses poderá sempre usar a justificação e argumento: “Ganhámos, está tudo bem, não interessa o resto!”. Esta mentalidade instalada permite e legitima que os dirigentes desinvistam sucessivamente nas equipas e se arrisquem a ganhar o campeonato na mesma.

Como consequência disto surge a constatação de que nenhuma equipa grande em Portugal joga um futebol minimamente apelativo, com uma identidade bem definida e princípios bem trabalhados. Por não existir um campeonato forte e equilibrado (outro desafio ainda maior, que mais à frente abordarei) Benfica e Porto vão ganhando os jogos internos contra adversários substancialmente mais fracos.

Façamos um exercício simples: Olhar para as equipas de Benfica e Porto que, em 2012/13 disputaram um dos mais memoráveis campeonatos dos últimos anos, que foi decidido apenas na última jornada. Quantos jogadores de Benfica e Porto atuais entram nessas equipas? Cada um tem a sua opinião e a minha é: no Benfica, apenas Grimaldo e talvez Odysseas. No Porto, entre os dois Alex’s da lateral esquerda (Sandro e Telles) é uma questão difícil, mas de resto dificilmente outro jogador pode ser considerado.

Olhemos para grande parte das figuras destas duas equipas nas últimas épocas: Marega, Pizzi, Danilo, Corona, Gabriel, Seferovic, Marcano, André Almeida… Vamos mesmo comparar este lote com Hulk, Matic, James, Jackson, Gaitán, Otamendi, Enzo, Garay entre outros? Esta diferença de qualidade absurda explica-se numa só palavra: desinvestimento.

É possível refletir ainda sobre as diferenças entre Sérgio Conceição, Bruno Lage, Vítor Pereira e Jorge Jesus. Mais uma vez cada um tirará as suas conclusões, mas os factos não mentem: na época referida o Porto ultrapassou a fase de grupos da Champions com quatro vitórias (uma delas frente ao PSG) e foi eliminado por um forte Málaga. O Benfica caiu na Champions, mas marcou presença na final da Liga Europa, que perdeu com o Chelsea aos 93 minutos.

Hoje muito se fala das fracas campanhas portuguesas na Europa – o Benfica tem três vitórias nos 17 jogos das últimas três épocas e o Porto este ano nem para a fase de grupos se apurou. É notório o reality check que Benfica e Porto apanham na Europa, contra adversários de segunda linha europeia. Essa é, no entanto, apenas a ponta mais visível e gritante do iceberg e é consequência do crescente desinvestimento e da falta de competitividade interna que, como já referi, se encontram fortemente relacionados.

A solução para isto? É fácil de explicar e difícil de pôr em prática: ter mais equipas fortes. O principal exemplo disto é o Sporting – excluído destas contas porque neste momento se encontra num patamar abaixo dos dois rivais e com uma crise bem maior do que qualquer um deles. No entanto, é óbvio e factual: mais equipas fortes e competitivas obrigariam a que Benfica e Porto tivessem e fazer um esforço maior mais para serem campeões.

O grande problema é que não foi só no topo que o nível tem vindo a descer: a tendência dos últimos anos é que as equipas médias da Liga Portuguesa também se enfraqueçam e, em última análise, é isso que faz com que Portugal tenha neste momento o campeonato mais desinteressante e com menos qualidade dos últimos largos anos. Este desinteresse gera menos receitas, que por sua vez geram menos investimento e aqui temos uma “pescadinha de rabo na boca” que deteriora o campeonato português.

Faz falta uma Liga forte e credível que aproxime as pessoas dos clubes. A questão é que, por todos os motivos já referidos, isso não interessa aos clubes grandes que a curto prazo beneficiam de um campeonato o mais partido e o menos competitivo possível. Só que isto apenas revela vistas curtas e falta de planeamento e visão. Quem (para além dos seus adeptos) é que liga aos campeonatos do Olympiakos, do Celtic ou do Dínamo Zagreb?

É para aí que o futebol português caminha. E Benfica e Porto, por inerência, serão vítimas da sua própria estratégia, caso não exista uma mudança radical de rumo e de paradigma pela qual o futebol português desespera.

Francisco Madureira

Nascido em Lisboa, sou louco por futebol desde que me lembro. Tenho mais jeito para ver e escrever do que para jogar. Cedo aprendi que é um jogo cruel, mas é também isso que o torna belo. Atualmente a licenciar-me em Ciências da Comunicação.