Lembra-se de: Pedro Pauleta, o “ciclone dos Açores”

 Das ruas de Ponta Delgada para os maiores palcos da Europa. Na rubrica “Lembra-se de” desta semana recordamos o “ciclone dos Açores”. Lembra-se de Pauleta?

 

Pedro Miguel Carreiro Resendes, conhecido no mundo de futebol como “Pauleta” (alcunha que vem desde o bisavô e que tem passado de geração em geração), nasceu a 28 de abril de 1973 nos Açores, mais propriamente na ilha de São Miguel, e desde tenra idade demonstrou ter jeito para o desporto rei. Fez grande parte da sua formação no Santa Clara, passando apenas duas épocas fora da sua ilha; primeiramente no Sport Lisboa e Benfica aos 14 anos de idade e posteriormente no Futebol Clube do Porto com 17; no clube da Luz, o jovem açoriano ao fim de poucas semanas não aguentava as saudades de casa e sobretudo da mãe, o que fez com que acabasse por regressar aos Açores, por sua vez, quando representou o emblema azul e branco o jogador era pouco utilizado, o que levou os representantes do Porto a pensarem numa possível saída de Pauleta para clubes como o Varzim ou o Maia, algo que foi contrariado pelo jovem jogador, que referiu que se tivesse que sair do Futebol Clube do Porto então que fosse para o clube da sua ilha, o Santa Clara.

Após o fim da formação, Pauleta passou por vários clubes açorianos (Santa Clara, Operário da Lagoa, Angrense e União Micaelense) que atuavam em escalões menos prestigiados do futebol português. Foi neste último clube, o Clube União Micaelense, que Pedro Pauleta ganhou maior destaque, fazendo 11 golos em 23 jogos na Serie E do Campeonato de Portugal, conhecida popularmente por III divisão.

Esta boa época valeu-lhe uma transferência no final da temporada para o Estoril Praia. Esta transferência só foi realizada após Pauleta cumprir uma condição imposta pelo seu pai; Manuel Resendes afirmou que o filho apenas iria para os estorilistas se casasse com a namorada de sempre, Sandra. E assim foi, Pauleta casou a 8 de julho de 1995 e ingressou no Estoril dia 9.

Pauleta. Terceiro jogador na fila de cima da esquerda para a direita.

 

Na época feita pelos canarinhos, Pauleta foi aposta em 31 ocasiões e agitou as redes da baliza adversária 19 vezes. Os seus números e as suas prestações em campo encheram o olho a João Alves, o então treinador do Belenenses, que ficou com o desejo de contar com Pauleta na sua equipa.

A transferência não foi concretizada pois no fim dessa época João Alves sai do comando técnico da formação de Belém e entra para o seu lugar Quinito; como o clube atravessava uma crise financeira alguns dos negócios começados por João Alves caíram por terra, sendo o de Pauleta um deles.

Contudo, o treinador português João Alves viaja para o país vizinho e assina pelo Salamanca, clube da segunda divisão espanhola; a admiração do técnico já não era segredo e o próprio volta novamente à carga pelo avançado açoriano acabando desta vez por conseguir efetivamente contratar o jovem jogador.

Em terras espanholas, a época não começou da melhor forma para o micaelense, era o quarto avançado da formação espanhola e a equipa na terceira jornada ainda não tinha ganho um jogo, até que com um atacante lesionado e outro castigado, José Alves viu-se “obrigado” a apostar no ex-Estoril Praia, que nessa partida apontou 2 golos numa vitória em casa por 2-0 frente ao Toledo.

Após esse jogo o açoriano foi presença constante no 11 inicial e não perdeu a sua veia goleadora, acabando por marcar19 golos na temporada, o que lhe valeu o prémio de melhor marcador da segunda liga espanhola e a subida ao primeiro escalão do futebol espanhol. Na segunda temporada a representar o Salamanca, o atacante português registou 15 golos em 34 partidas na primeira liga espanhola e garantiu à formação espanhola um tranquilo décimo quarto lugar e consequentemente a permanência na divisão mais importante do futebol espanhol.

O registo positivo ao serviço do Salamanca valeu a Pedro Pauleta a transferência para o Deportivo da Corunha. Uma vez mais, a mudança não foi fácil para o ponta de lança que teve uma lesão grave no início dos tempos em Corunha, contudo, o avançado açoriano ainda foi a tempo de realizar 34 partidas e marcar 10 golos. No entanto, a sua segunda época ao serviço do Depor trouxe a Pauleta o seu primeiro título coletivo, foi campeão da primeira liga espanhola, algo que muitos acreditavam que era impensável devido à grande competitividade do campeonato e ao maior poder de compra de outros clubes como o Barcelona e o Real Madrid.

Depois de quatro anos em Espanha, seguiram-se três fantásticos anos para Pedro Pauleta em Bordeaux, apelidados pelo próprio como os melhores anos da sua carreira. Entre a época de 00/01 e a de 02/03 o avançado marcou 90 golos em 130 jogos, foi 2 vezes considerado o melhor jogador da liga, ganhou uma vez a taça da liga e foi uma vez o melhor marcador da liga.

As temporadas estonteantes a representar o Football Club des Girondins de Bordeaux não acalmaram o açoriano que foi em busca de mais, desta vez em Paris, para representar o Paris Saint-Germain. A mudança para a capital francesa consagrou o avançado português como um dos melhores de sempre e levou-o a ser considerado como uma lenda do clube. Em 5 temporadas na formação francesa, Pauleta marcou 109 golos, capitaneou diversas vezes a equipa, foi o melhor marcador da liga por duas ocasiões, venceu a taça de França duas vezes e a taça da liga francesa; para além de todas estas conquistas, Pedro Pauleta foi também considerado, em 2010, como o melhor jogador da história do PSG.

Pela seleção nacional, o açoriano estreou-se a 20 de agosto de 1997 num jogo frente a Arménia (partida que acabou 3-1 a favor dos portugueses) a contar para a qualificação do mundial de 1998; decorria o minuto 78 no estádio do Bonfim quando Domingos Paciência deu lugar a Pauleta para este se estrear com a camisola das Quinas. Esta foi a primeira de 88 exibições por Portugal que culminaram em 47 golos, número que foi durante muito tempo recorde nacional, até o suspeito do costume, Cristiano Ronaldo, ultrapassar esta marca. Com a seleção, Pauleta esteve presente nos Europeus de 2000 e de 2004 e nos mundiais de 2002 e de 2006. Durante o tempo que representou Portugal o avançado lutou pela titularidade com jogadores como Nuno Gomes e Hélder Postiga.

 

Após terminar a carreira em 2008 quando estava ao serviço do PSG, Pauleta regressou aos relvados em 2010 para representar o Grupo Desportivo de São Roque, clube da sua freguesia. Este regresso teve como base uma conversa entre o antigo avançado e os dirigentes do clube, que consistiu no facto de constatarem que o clube apenas tinha escalões de formação e não tinha uma equipa sénior. Pedro Pauleta dispôs-se a fazer uns jogos pela equipa principal se os dirigentes criassem a equipa sénior. E desta forma, o “ciclone dos açores” voltou a fazer aquilo que faz melhor durante 4 jogos, sendo que um deles foi uma final de uma taça; nesse jogo Pauleta acabaria por marcar 7 golos e o São Roque por ganhar a taça.

Atualmente, o ex-jogador tem na ilha de São Miguel uma escola de futebol, uma fundação e um clube em seu nome. “Foi um pouco para dar oportunidade aos miúdos dos Açores de terem um sítio para jogar futebol com qualidade.” afirmou Pauleta. Para além de ser um símbolo importante da região autónoma dos Açores e de ser fundamental para o turismo da região, desempenha também funções como diretor na Federação Portuguesa de Futebol.

O seu típico festejo (uma corrida desenfreada, de braços abertos (para representar o açor, da sua tão querida região autónoma) e com a evidente felicidade estampada no rosto) é algo que virá sempre à memoria quando pensarmos num dos melhores avançados do século XXI. De uma família humilde para milhares de adeptos desde Espanha a França aos seus pés. Um matador que assombrava os adversários com um sorriso na cara. Um artista que se refugiava na sua simplicidade para criar autênticas obras de arte. Um mágico que se limitava a ser feliz fazendo o que mais gostava. Simplesmente, Pedro Pauleta.

Alexandre Ribeiro

Nascido e criado na ilha Terceira, nascido e criado para o futebol. Desde cedo aprendi, vivi e vibrei com o desporto rei. A licenciar-me em Ciências da Comunicação na FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Com o futebol e a escrita espero proporcionar um espectáculo fora das 4 linhas para todos aqueles que partilhem o gosto pela bola e pelos seus artistas.