Opinião: Como reerguer o Manchester United

Nunca se viveram tempos tão negros em Old Trafford nos últimos 30 anos, com o pior arranque de sempre no campeonato nesse período, prestações lastimáveis na Liga Europa (onde o colosso inglês claramente não deveria estar) e um clima de tensão constante no clube entre adeptos, treinador, jogadores e a direção do clube.

Vários treinadores com portefólios muito interessantes tentaram pegar nas rédeas deste Manchester United após a saída do lendário Alex Fergunson, desde treinadores com provas de sucesso internacionalmente, Van Gaal e Mourinho (em Inglaterra também no caso do português), conhecedores do campeonato inglês, Moyes, e conhecedores da casa do clube como poucos o fizeram ao longo dos anos, Solskjaer. Alguns momentos de sucesso na era de Mourinho e de Van Gaal, mas soube sempre a pouco e de resto nada se assemelhou ao domínio que o treinador escocês trouxera ao clube.

Olhando para a tabela classificativa neste momento, o United encontra-se no 12º lugar da tabela, dois pontos acima da zona de despromoção, após uma derrota quase catastrófica diante do Newcastle United por 1-0. O cenário é efectivamente aterrador.

Há vários problemas no seio deste grande clube, aqui estão algumas das áreas mais problemáticas que exigem uma renovação, reestruturação, como lhe quiserem chamar:

  • O treinador: Solskjaer não pode continuar a treinar este United. Tão simples quanto isto. A sua chegada ao clube inglês trouxe ao clube uma inesperada reviravolta diante do Paris Saint Germain nos oitavos de final da Liga dos Campeões e uma série de vitórias na Premier League, que não chegou para saírem do sexto lugar. Na sua primeira época a comandar a equipa com a devida preparação e mercado de transferências, os resultados estão à vista e são vergonhosos. De forma alguma que o técnico norueguês é o principal culpado disto tudo, mas acarreta grande parte. O conjunto de Manchester nunca teve um nível exibicional muito alto sob o seu comando, dependendo de capacidades individuais e rasgos de brilhantismo por parte de jogadores como Pogba, Martial, Rashford ou até mesmo Lukaku. O treinador não é a figura mais experiente no que toca a treinar, sendo o principal argumento para a sua contratação o seu histórico enquanto atleta do United. Evidentemente, conhecer os cantos à casa não chega. O clube deve escolher um treinador com maior experiência a comandar grandes clubes ou pelo menos em campeonatos competitivos, sendo um dos nomes mais referenciados o de Mauricio Pochettino, atualmente no Tottenham. Sem dúvida alguma que o técnico argentino seria uma excelente opção, foi capaz de estabilizar um clube que rondava os lugares da Liga Europa antes da sua chegada e torná-lo actualmente no vice-campeão da Liga dos Campeões. O seu Tottenham integrou jovens jogadores da academia, contratações de qualidade e sempre com um futebol atractivo e interessante, algo que é muito pretendido nos dias de hoje.  A época também está a ser muito conturbada para o Tottenham e alguns adeptos já pedem a sua saída… Fica à atenção do United, que certamente deveria aproveitar.
  • A direção (Ed Woodward mais especificamente): Os problemas no United estão bem enraizados no clube, indo até ao topo da “cadeia alimentar”. Recordando o início da temporada 2018/2019, onde Mourinho era o treinador e as contratações pareciam questionáveis e inadequadas face aos problemas no plantel. Os centrais que Mourinho tinha pareciam incapazes de cumprir as suas exigências e de forma geral, poucos (o médio McTominay foi usado a central, tal era o desespero do técnico português). Não veio ninguém e começou uma espiral descendente de maus resultados e de dedos apontados ao treinador que pediu publicamente um defesa, sendo lhe negado pela direção do clube. Dinheiro claramente não falta ao United, um dos maiores clubes do mundo que vende camisolas a um ritmo alucinante, enche estádios regularmente e assina acordos de patrocínios multimilionários. A figura de maior relevância nesta má gestão é, sem dúvida, Ed Woodward. O diretor executivo do clube, um homem com experiência financeira, mas não muita futebolística, é quem está encarregue de gerir as operações do clube, principalmente em termos monetários. Olhando para os números do United, há uma estagnação recente que até poderia ameaçar tornar-se numa descida num futuro próximo, mas claramente que o clube tem uma margem de lucro avolumada o suficiente para priorizar os problemas dentro de campo. Enquanto o dinheiro importar mais que o futebol, dificilmente o clube voltará ao topo como dantes e há figuras a responsabilizar por isso mesmo.
  • Jogadores: Aqui está a parte talvez mais evidente do problema. O plantel do United é curto e as opções com que contam são insuficiente para disputar um lugar de Liga dos Campeões, quanto mais lutar pelo título. Verdade seja dita que resolvendo o problema do treinador, muitos dos atletas em subrendimento neste momento seriam preponderantes neste plantel, ou pelo menos utéis, porém, há muito que falta corrigir e jogadores por substituir. Na transição para esta época, o United cortou uma porção significativa de jogadores considerados “dispensáveis”, no entanto há muitos que precisam de ser vendidos pelo clube e devidamente susbstituídos (algo que falhou gravemente nesta temporada, resultando na falta de opções ao dispor de Solskjaer). Eis os jogadores que o clube precisa de vender ou dispensar: Ashley Young, Marcos Rojo, Phil Jones, Matic e Mata. Estes atletas ou já passaram o seu pico de qualidade ou já têm vindo a acumular séries de prestações insuficientes que justificam a sua saída do clube. Os salários deles são elevadíssimos e libertariam logo margem para a contratação de novos jogadores, questão que vou agora analisar. A filosofia de contratações mais recente por parte do clube baseia-se em jovens atletas, no domínio do futebol inglês (por agora) que apresentem uma margem de crescimento entusiasmante mas já com um bom nível (Daniel James e Wan-Bissaka). O caso de Maguire foi a solução tardia para o problema apontado muito anteriormente por Mourinho, como já referi, chegando ao clube um central de nível elevado, muito experiente na Premier League. Seguindo a linha destas três contratações (bem feitas, importante referir) o clube deve continuar a apostar em jogadores abaixo dos 27 anos, capazes de evoluir dentro da estrutura do clube, com alguns a estabelecerem-se instantaneamente no onze titular e criarem uma nova “espinha dorsal”. As posições mais relevantes para novas contratações são as seguintes: lateral esquerdo, central, médios defensivos e centrais, extremo, ponta de lança. Lateral esquerdo: Shaw não é confiável para ser titular uma época inteira pela sua frágil condição física, exigindo-se um alternativa com qualidade. Central: o clube precisa desesperadamente de continuar a reforçar esta área, acrescentando mais uma peça de qualidade e com experiência à equação só lhes faria bem, dando concorrência a Lindelof, Maguire tem o lugar assegurado, e dando mais uma alternativa de qualidade a uma área sempre problemática. Médios defensivos e centro: aqui é importante ser astuto no recrutamento, há opções de qualidade por aí e é necessário ir buscá-las (Longstaff esteve perto de assinar e certamente continuará a ser alvo de atenção); o clube sabe que isto é um problema, Pogba está lesionado e quando não tem a cabeça virada para jogar simplesmente desaparece do campo, deixando McTominay, Fred e Matic como as únicas opções de sobra. O sérvio está em declínio e deve procurar outro clube onde possa voltar a recuperar alguma forma sem a pressão a que o United sujeita aos seus atletas, sendo assim necessário contratar um destruidor para o meio campo, um “6” puro para acrescentar estabilidade defensiva e profundidade nessa área visto que nem Pogba nem Fred conseguem cumprir esses requerimentos e McTominay vai crescendo mas não é o dono do lugar ainda. Outro médio transicional seria útil, pela má forma de Fred e Pogba, de preferência competente no departamento defensivo, como era o caso de Herrera, curiosamente. Extremo: uma questão de profundidade e concorrência acima de tudo, sendo uma área onde o Manchester United até está bem servido mas com poucas opções, especialmente para o lado direito. Acrescentar um criativo seria uma ótima ideia para destabilizar jogos ofensivamente e elevar o nível dos outros jogadores nas mesmas posições também (muito se fala do interesse do clube em Jadon Sancho, uma opção dispendiosa mas muito positiva). Ponta de lança: aqui é mais que evidente a necessidade de contratar jogadores (sim, plural), pois tem sido um problema notório nesta temporada devido à saída de Romelu Lukaku e Alexis Sanchéz, sem nenhumas contratações para colmatar estas duas saídas. A fórmula aqui é relativamente simples, um avançado com provas dadas e experiente (Mandzukic é um nome referenciado e não é uma má escolha) e outro mais jovem mas capaz de dar concorrência ao seu colega de ataque, garantindo que há opções ofensivas. Nem Rashford nem Martial seriam adaptados meio à força para o meio do ataque, dando mais variedade ao ataque do United. É preciso dinheiro e bom recrutamento para fazer estas transferências todas acontecerem, mas não se pode adiar mais este tipo de medidas. A demora em revolucionar o plantel resultou naquilo que podemos ver agora e os adeptos estão fartos.

A teoria e a prática estão a mundos de distância, mas num clube tão problemático e em crise como este Manchester United está, algumas soluções parecem bastante claras. Há elementos positivos que devem continuar, boas transferências foram feitas, jovens que prometem muito vindos da academia e alguns atletas com a qualidade para levar este clube longe. Contudo não tem chegado. Pelo bem do futebol e da saúde dos adeptos do clube, esperemos que hajam alterações determinantes e positivas no futuro do clube, o 12º lugar não é o sítio onde o United deveria estar, muito menos a jogar desta forma.

José Horta

Não nasci a gostar de futebol, mas quando comecei nunca mais quis outra coisa. Algarvio de nascença mas adepto do futebol para além daquele que se joga na praia. Sempre atento aos contornos e novidades do "Desporto Rei", "Beautifull Game" ou lhe quiserem chamar. Aluno universitário de Ciências da Comunicação na FCSH.

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