Fernando Santos: O engenheiro do futebol

Esta semana completam-se três anos daquele dia mágico em Saint-Denis, 10 de Julho de 2016, a data em que Portugal conquistou o primeiro título de toda a sua história futebolística. Foram muitos os heróis desta conquista, começando pelos portugueses! Nós mesmos que em nossas casas, nas ruas, no estádio nos juntámos para apoiar o nosso país, na conquista de um título histórico, com um herói improvável e um Engenheiro a serem os principais destaques.

Hoje será a vez de falar de Fernando Santos, um homem com uma fé inabalável. Fé essa não só em Deus, já que Fernando Santos é um orgulhoso católico, mas sim na maneira como se exprime, como acredita sempre, como acreditou quando disse que só voltava dia 11 de julho de Paris, e que regressaria em festa. Mas não é apenas a maneira como acredita, é a maneira como contagia o grupo tornando esta crença numa arma poderosa. O próprio diz numa entrevista, “A fé está no meu dia a dia. É como respirar. A minha fé faz parte da minha respiração.”

O futebol nunca foi a ideia de Fernando Santos, muito influenciado pelo pai, que o encorajou a estudar e não queria de maneira alguma que ele seguisse a carreira de jogador, já que almejava uma “vida estável” para o filho. Entra assim com 11 anos na Escola Profissional Afonso Domingues, onde jogava na equipa da escola chegando inclusive a jogar com Augusto Inácio que depois veio a representar o Sporting.  Ironia do destino, Fernando Santos na altura com 17 anos e após ter passado pelo Operário e pelo Graça, clubes pequenos e onde ele não tinha quaisquer ambições de alcançar voos maiores, conseguiu ser aprovado para jogar na equipa de juniores do Benfica de 1972/73.

Quem não ficou satisfeito com a notícia de ir jogar no Benfica foi o pai, que apesar de ser um benfiquista ferrenho, não queria que o filho envergasse pela carreira futebolística. O Ti Chico, alcunha pela qual Fernando Santos tratava carinhosamente o pai, logo disse: “Tu vais mas é estudar”. Acontece que nessa altura corria o mês de Julho, e Fernando Santos tinha acabado de ser aprovado no Instituto Industrial de Lisboa (ISEL, após o 25 de Abril), onde começaria a estudar Engenharia, em Setembro. Foi preciso bastante persuasão, mas conseguiu acordar com o pai que jogaria no Benfica, sob a condição de não chumbar o ano. Fernando Santos ganharia então um conto de Reis a jogar pelo Benfica, um ordenado bastante considerável para a época e, além disso, o Benfica comprometeu-se a cobrir as despesas com os estudos.

Fernando Santos chegou a ser a “jovem promessa” do Benfica, mas por ser “calão” e “moinante”(palavras do próprio), nunca conseguiu vingar no Futebol, não gostava muito de treinar, arranjava toda e qualquer desculpa para não comparecer aos treinos, chegando até a ter como alcunha “Sono”. Jogava a defesa central, onde as principais qualidades que lhe eram apontadas pelos colegas eram a inteligência e a colocação. Outro dos fatores que não possibilitou a Fernando Santos vingar no Benfica foi a vasta concorrência e de grande qualidade que havia naquela altura, na época 1973/74. Na equipa principal do Benfica para jogar na posição de defesa-central, jogadores como Messias, Humberto Coelho, Rui Rodrigues e Malta Silva, todos internacionais pela equipa A de Portugal. A juntar a estes regressava ainda Barros, após um período de empréstimo ao União de Coimbra. Haviam ainda outros dois jovens Bastos Lopes e Eurico, também à procura de afirmação. Fernando Santos limitou-se então a jogar na equipa de reservas.

Como jogador, Fernando Santos jogou a maior parte da carreira no Estoril Praia, clube que se encontrava na terceira divisão. Nessa altura Jimmy Hagan, que tinha saído no Benfica por desentendimentos com o clube, era quem estava aos comandos do Estoril e a decisão de chamar Fernando teve com base esses dois fatores: A dificuldade de afirmação de Fernando no plantel do Benfica e a qualidade que era suficiente para as pretensões do Estoril que almejava subir de divisão.

Hagan foi a grande referência na vida de Fernando Santos e a sua referência no mundo do futebol, “Foi um dos treinadores que mais marcaram a minha carreira, pela forma como trabalhava… Por aquilo que eu acho que é a qualidade da escola inglesa, a qualidade técnica, de passe, de receção, de movimento”. Além do Estoril, Fernando teve também uma passagem pelo Marítimo (apenas de um ano), acumulando ao longo de toda a sua carreira no futebol o cargo de jogador, com as funções de engenheiro no Hotel Palácio.

Foi também no Estoril que iniciou a sua carreira como treinador, na época 1986/87, passando as duas primeiras temporadas como adjunto de António Fidalgo e depois como técnico principal. Quando assumiu o cargo, o Estoril encontrava-se na segunda divisão, sendo que na época 1990/91, Fernando Santos conseguiu levar novamente o Estoril a jogar com os grandes do futebol português.

Em 1994, Fernando Santos ainda ocupava os cargos de treinador e de engenheiro, simultaneamente, mas nesse ano chegou a ponderar deixar o futebol e dedicar-se por inteiro à sua atividade de formação académica, engenharia eletrotécnica e de telecomunicações.

Durante um período nesse ano de 1994 dedicou-se por exclusivo à engenharia, mas alguns meses depois de deixar, foi convidado pelo Estrela da Amadora para treinar a equipa. Da Reboleira (1994/95 a 1997/98) foi para as Antas (1998/1999 a 2000/01), tendo também passagens pela Grécia onde treinou o AEK (2001/02, 2004/05 e 2005/06) e o Panathinaikos (2002/03), onde presidiu a apenas 8 jogos. Em Portugal passou por todos os grandes, pelo Sporting(2003/04) e pelo Benfica (2006/07). Na época 2007/08 regressou de novo à Grécia onde desta vez permaneceria 7 anos, primeiro como treinador do PAOK( 2007/08 a 2009/10) e depois como selecionador da Grécia (2011 a 2014). É em 2014 que ocupa o cargo de selecionador nacional de Portugal onde permanece até hoje.

Completam-se este ano 25 anos desde que duvidou da sua aptidão para ser treinador. Fernando Santos ainda detém o título de engenheiro, mas o que conquistou a 10 de Julho de 2016 é a derradeira prova de que o seu futuro não estava mesmo na engenharia.

Fernando Santos sempre projetou a mesma imagem: homem sério, respeitável, de sorriso nem sempre fácil mas com bom sentido de humor, competente e de fortes convicções.

Relativamente a títulos internacionais não podemos deixar de mencionar o Europeu que conquistou em 2016, porventura o título mais importante de sempre que Portugal conquistou, e também a recente conquista da Liga das Nações. Em Portugal, foi o “Engenheiro do Penta” no FC Porto tendo apenas conquistado um único título de campeão nacional em Portugal, sendo que seria no Porto que conquistaria mais duas Taças de Portugal e duas Supertaças. Já na Grécia, onde passou 13 anos (não consecutivos), não foi “terreno fértil” para Fernando Santos conquistar títulos tendo apenas conquistado uma Taça da Grécia.

Destacou-se sim como selecionador pela Grécia, onde conseguiu levar a Seleção Grega a um Europeu e a um Mundial, o Mundial de 2014, onde levou os Gregos aos oitavos de final perdendo com a Costa Rica.

Por Portugal, Fernando Santos respeitou sempre a sua máxima no futebol, “Tenho de me adaptar aos jogadores que tenho e não o contrário.” Sempre mais apostada no esforço e numa pontinha de sorte, a seleção portuguesa fez a sua caminhada até à final em Saint-Denis, naquela final caótica, emocionante e dramática onde se viu forçado a jogar sem o capitão e melhor jogador da equipa, depois da entrada assassina de Dimitri Payet sobre Ronaldo. Mas todo o dramatismo valeu a pena: o mais importante título de Portugal (e o único, na altura), que deu uma nova esperança a um país que vinha sem quaisquer ambições depois de todas as desilusões anteriores.

Fernando Santos ficará agora aos comandos de Portugal até ao Europeu de 2020, para defender o título de campeão e quem sabe trazer muitas mais alegrias para os portugueses…

Tiago Domingos

Lourinhanense de gema, estuda gestão no ISCTE-IUL. Tem como hobbie a escrita e como paixão o futebol!

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