Opinião: Já estava na hora, Rui

125 vitórias em 183 jogos. Dois Campeonatos Nacionais, duas Supertaças, uma Taça de Portugal e uma Taça da Liga. Ninguém te tira o mérito. O Benfica agradece e segundo o seu Presidente sentirá saudades. Sentirá mesmo?

Sinceramente não vejo em Rui Vitória, o perfil de um treinador de equipa grande. Nunca vi. Não o consigo olhar como um líder, como um motivador para equipas de um estatuto mais elevado. Fez excelentes épocas no Vitória de Guimarães e até roubou uma Taça de Portugal à equipa que depois viria a treinar. Parece-me que esse registo é o mais indicado para si. Uma das coisas que mais incomodou ao longo desta era Vitória foi o seu discurso. Faz-me confusão como é que um treinador do Benfica, até podia ser do Porto ou do Sporting, abordava certas questões. Recordo-me uma vez que Sérgio Conceição chamou Rui Vitória de “boneco”. Achei, claro, de mau tom. Mas isso não quer dizer que não tenha um pouco de razão. Era desmotivador para qualquer benfiquista ouvir as suas conferências de imprensa. E se os seus
discursos tinham esse efeito nos adeptos, nem imagino nos jogadores. Este tipo de abordagens não
podem, nem nunca poderão ser imagem de uma equipa que quer ganhar tudo em Portugal e que quer conquistar a Europa. “A bola parecia como por magia que não passava a linha”. “Há que saber conviver com o insucesso”. “Agora já não há nada a fazer”. “Se tivéssemos mesmo que ganhar a nossa abordagem seria diferente”. Isto são alguns exemplos. E o futebol não se faz só de táticas. Faz-se também de muita atitude e isso revelou-se ser um gigante ponto fraco da era Rui Vitória.

A certa altura, o futebol “à Benfica” desapareceu. Um futebol extremamente ofensivo e demolidor a que Jorge Jesus tinha habituado os adeptos encarnados. Ainda se viu um pouco disso nos primeiros tempos de Rui Vitória no clube da Luz, mas depois… desapareceu. E sejamos sinceros, a culpa não é só de Rui Vitória. Na época posterior ao inédito tetracampeonato, o também inédito pentacampeonato estava ali mesmo à mercê de ser conquistado. O que acontece é que o desinvestimento na equipa na altura em que esta mais precisava não perdoou. Vendeu-se jogadores de enorme calibre e fundamentais para a ideia de jogo do Benfica e não se foram buscar outros. Luís Filipe Vieira quis focar-se na “sustentabilidade financeira” e cometeu na minha ótica um dos erros mais graves da história do clube. É que o Benfica passou do domínio de uma era do futebol português, de um possível penta que igualava o registo do Porto, para dar a esse mesmo Porto, o trono do nosso futebol. Mas voltando a Rui Vitória. A equipa do Benfica nunca mais foi a mesma. Sem ideias, sem dinâmica, sem fio de jogo. Não havia um Benfica que pudéssemos caraterizar. Havia sim um Benfica que tinha Jonas, um Benfica que tinha Pizzi, um Benfica que tinha Fejsa. Os jogadores faziam a diferença, não a equipa. E quando só os jogadores fazem a diferença, quer dizer que no banco algo está a falhar. Os jogadores ganham jogos, mas só as equipas no seu conjunto é que ganham campeonatos.

Outra das fragilidades da era Vitória foi o contexto europeu. Tirando os dois primeiros anos, curiosamente os anos em que o Benfica foi campeão, em que só foi travado pelo Bayern nos quartos e no ano a seguir pelo Dortmund nos oitavos, o resto foi uma verdadeira desgraça. Zero vitórias em 2017/2018 num grupo em que era obrigado a passar. A pior prestação de sempre de um cabeça de série. E ainda levou cinco golos de um modesto Basileia. Nesta época, nova desilusão. Grupo mais difícil, é certo, mas pedia-se mais competitividade. E o Benfica deixou de ser competitivo na Europa. Prova disso é a sua queda abruta e preocupante no Ranking da UEFA. Não, Rui. Não é o treinador com melhor rácio de vitórias na Champions. Nem de sempre, nem mesmo dos últimos anos. O Benfica passou de um feroz adversário europeu para uma mera equipa que tem dificuldade em passar à fase a eliminar da melhor competição internacional. Mas mais uma vez, a culpa não é só do mister Rui.

Rui Vitória devia ter saído mais cedo? Sim, devia. Toda esta “crise”, toda esta instabilidade é consequência da decisão que não se tomou no início da época. Para quê? Para depois despedi-lo a meio? O Benfica não pode estar à espera de “luzes”. O Benfica é mais do que isso. O futebol vive de resultados e ninguém é cego. Rui Vitória não é, nem nunca foi um treinador de recuperações, de reconquistas. E, inequivocamente, foi assumido como o treinador da “Reconquista”. O “treinador certo para o projeto do Benfica”. Não tenho dúvidas que os adeptos agradecem os cerca de 15 jogadores made in Seixal lançados, mas o projeto do Benfica tem que se focar em ganhar. E “ganhar” é coisa que não se tem visto. Resta desejar boa sorte a mais um treinador português nas “Arábias”. Já estava na hora, Rui.

Ricardo Oliveira

Oriundo da mesma terra do melhor jogador do mundo, a paixão pelo futebol não podia ser maior. Atualmente a tirar a licenciatura em Ciências da Comunicação na FCSH, gosta de escrever e está sempre de braços abertos a novos projetos.

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