Vitórias atrás de vitórias. O que é que este Porto tem de especial?

Isolado no primeiro posto da Primeira Liga com 39 pontos. Melhor prestação de sempre na fase de grupos da Liga dos Campeões com 16 pontos conquistados. Presente na Final Four da Taça da Liga. Quartos-de-final da Taça de Portugal. Para não falar da conquista inicial da Supertaça. E já lá vão 17 jogos consecutivos a ganhar. Ufa. De facto, este Futebol Clube do Porto não dá descanso. Uma equipa à imagem do seu líder e que há algum tempo que não tinha esse treinador “à Porto”. Será este o segredo? O que é que o conjunto de Sérgio Conceição tem de especial para estar a fazer uma época irrepreensível? 


Comecemos pelos grandes intervenientes do jogo. Em relação à época passada, a equipa base do Porto não mudou muito. As mudanças mais afincadas registaram-se na zona mais recuada do terreno. Em termos de saídas, destacam-se a saída de Marcano para a Roma, a de Ricardo Pereira para o Leicester e a de Diogo Dalot, embora com poucos minutos de jogo, para o Manchester United. Relativamente a entradas, há uma que se destaca. E é a partir dessa contratação que o Porto vai definir um dos seus grandes pontos fortes. Éder Militão chegou, jogou e conquistou. É o chamado “centralão”, já cobiçado pelos tubarões europeus. Ele e Felipe entregam ao Porto, na minha opinião, um dos seus grandes trunfos. Por eles não passa nada. Tiram de cabeça, com os pés, com o peito e sabem sair a jogar.

O ataque do Porto começa nos pés destes dois homens e o ataque das outras equipas acaba, muitas vezes, neste dois homens também. A melhor dupla da Primeira Liga e, sinceramente, das melhores da Europa. Mas nem tudo é perfeito. O Porto parece não ter nenhuma alternativa válida no banco. Há Diogo Leite, há Chidozie, mas nenhum deles tem sido aposta de Sérgio Conceição, o que nos leva a questionar as suas capacidades quando forem chamados. Recuando à baliza, o guardião dispensa apresentações. E que importância tem para o Porto ter um homem destes a guardar as redes. Iker Casillas dá a este Porto o que muitos poucos guarda-redes dão às suas equipas por essa Europa fora.

No que toca às alas, o Porto tem, a meu ver, o melhor lateral esquerdo a atuar em Portugal. Porque um lateral não pode só defender bem ou não pode só atacar bem e nesse aspeto Alex Telles bate qualquer outro. Já começa a ser demais para o nosso modesto campeonato e não tarda muito até o virem buscar. O ponto fraco está, de facto, na ala direita. Aliás, essa fraqueza no lado direito é algo comum a todos os grandes. Maxi já não é o Maxi de outros tempos e Corona enquadra-se dentro dos laterais que não sabem defender. O Porto tem até 31 deste mês se quiser mexer nesta zona da defesa.

Subindo até o meio-campo. O plantel azul e branco tem excelentes jogadores para essa área, mas não parece que seja por aí que a equipa da cidade invicta faz sentir o seu poder. Agora, Danilo Pereira é o melhor médio defensivo português e Herrera é a alma do treinador em campo. Nos flancos, Brahimi é um jogador extremamente ágil e imprevisível e Otávio ou Corona não ficam nada atrás. Não se enganem, o Porto está também muito bem servido neste setor. E ainda há Oliver Torres que precisa de mais consistência e Sérgio Oliveira.

Vamos aos golos, isto é, à frente de ataque do Porto. Cerca de 51% do golos do Dragão na Liga, ou seja metade, têm participação direta de Moussa Marega, melhor marcador do Porto, e de Tiquinho Soares.

Não têm a técnica mais apurada do mundo, não. Não são os melhores com a bola nos pés, não. Mas fazem o que um avançado deve fazer que é “meter” a bola lá dentro. Pessoalmente, nem os coloco como os melhores da Liga. Bas Dost é muito mais jogador ou Dyego Sousa, ou até o próprio Jonas. Mas estão lá e cumprem e fazem exatamente o que Sérgio Conceição quer. Dominar a defesa adversária, criar dificuldades e desequilíbrio e fazer valer as oportunidades criadas.

Atrás e à frente. Ninguém pára o Porto nesses setores. E a sua influência nota-se ainda mais quando os jogos estão apertados. Foi assim contra o Rio Ave (2-1), foi assim contra o Santa Clara (2-1), foi assim contra o Braga (1-0). E as 17 vitórias consecutivas devem-se muito a isso. Porque não vão ser todos os jogos que o Porto vai dominar e muitos desses 17 jogos o Porto não dominou. É exatamente nessas partidas que a dupla Felipe e Militão e que a dupla Marega e Soares fizeram diferença. E vão certamente continuar a fazer.

Acima disto tudo há um treinador que sabe exatamente aquilo que quer da sua equipa. Com todos os seus defeitos e feitios, Sérgio Conceição vive o futebol de forma especial e nota-se isso nos seus atletas. É o ganhar na qualidade, mas também na raça. E mais uma vez podemos ver isso nas 17 vitórias
consecutivas em que por vezes as coisas não pareciam fáceis, principalmente na vitória nos descontos frente ao Boavista. Soube levantar a equipa depois da derrota na Luz, curiosamente a última derrota do Porto. Aquelas reuniões em campo no final de cada partida não são em vão. É a atitude que um campeão nacional deve ter.

Mas nada de ilusões. O Porto não vai ganhar para sempre. Vamos ver como é que esta equipa vai reagir quando os resultados e a estrelinha de campeão não aparecer. Até lá, o trono permanecerá no Dragão que anseia pelo bicampeonato e pela retoma do domínio do futebol português.

Ricardo Oliveira

Oriundo da mesma terra do melhor jogador do mundo, a paixão pelo futebol não podia ser maior. Atualmente a tirar a licenciatura em Ciências da Comunicação na FCSH, gosta de escrever e está sempre de braços abertos a novos projetos.

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