Como jogam os adversários nacionais na Europa? nº3: Qarabağ

O Sporting está integrado no Grupo E, da Liga Europa, onde vai ter pela frente o Arsenal, Vorskla e Qarabag. O primeiro adversário, apesar de ser o campeão do Azerbaijão, não é muito conhecido dos adeptos, mas tem jogadores com nomes bastante conhecidos de todos. Slavchev, precisamente ex-Sporting, vai voltar a Alvalade assim como Vagner, antigo guarda-redes de Estoril e Boavista.

Equipa Base

Alinham normalmente em um 4-2-3-1, que pelo comportamento de Slavchev está sempre próximo de um 4-1-4-1. Na baliza, Vagner ganhou o lugar a Halldorsson (Guarda-redes da seleção islandesa), Gerye (esquerda) e Medvedev (direita) são os laterais, com Sadivoq e Huseynov a completar o quarteto defensivo. À frente da linha defensiva, a dupla Qarayev (mais recuado) e Slavchev, apoia o trio de meio campo, composto por Zubir, sobre a esquerda, Michel (ou Ozobiç), pela zona central, e Madatov (Delarge), pela direita. Na frente, Emeghara.

É uma equipa que comete muitos erros individuais, particularmente defensivos, que na realidade doméstica não são graves, uma vez que os adversários tem um nível mais baixo, mas que na Europa dificilmente não têm consequências. Por exemplo, Sadiqov, central, quando vê a sua tomada de decisão pressionada, forçando-o a pensar rápido, comete erros facilmente.

A nível ofensivo, o lado esquerdo é o dominante, em especial quando estamos a falar de um ataque mais organizado, com muitos cruzamentos para a área, pelos pés de Zubir, talvez o melhor jogador desta equipa. O lado direito, em especial se jogar Delarge, está mais construído para saídas rápidas, em velocidade, onde os espaços têm de estar presentes para o Qarabag ter a possibilidade de criar perigo. Emeghara, o ponta de lança, é um jogador vertical, forte no ataque à profundidade, e no ombro a ombro em direção à baliza, mas que quando lhe pedem para jogar no pé, ao primeiro toque ou de costas para a baliza é muito débil.

Organização Defensiva

Normalmente, procuram defender da linha de meio campo, onde Slavchev avança fazendo uma linha de quatro homens, atrás de Emeghara. O ponta-de-lança tem a missão de manter a bola sobre pressão e condicionar o jogador em posse (central) a jogar para um determinado lado, pela forma (em curva) como corre, retirando a linha de passe para o outro central e para o trinco. Sendo que, um central com qualidade, consegue facilmente ligar com o seu trinco.

Assim, pela ação de Emeghara, o central adversário é obrigado a avançar pelo canal esquerdo,  até que não tem outra possibilidade a não ser bater na frente, por não ter opções de passe. Ao longo do jogo, este trabalho do PL vai perdendo intensidade e eventualmente, deixar de acontecer (por ser fisicamente exigente), e o adversário vai começar a ter mais espaços e a conseguir rodar a bola de corredor.

Vemos, através da imagem em cima, como o Qarabag não é uma equipa particularmente compacta, nem a nível horizontal (muito espaço entre os jogadores na mesma linha), nem a nível vertical (grande distância entre a linhas). A falta de acesso à bola é uma das debilidades da organização defensiva do Qarabag, o que adicionado à  falta de compactação, deixa a equipa muito vulnerável.

Por não ter acesso à bola, ou seja, estar distante do adversário a tal ponto que quando este a recebe o jogador que está a defender não está pronto para pressionar a bola de imediato, quando o jogador do Qarabag inicia o seu deslocamento já o seu adversário tem a bola controlada. Assim é relativamente fácil para o adversário, o ultrapassar o homem do Qarabag no 1vs1, usando o momento (obrigado aulas de Física no secundário) do jogador do Qarabag em seu benefício.

São erros como estes, que adversários mais fortes (como o Sporting) podem aproveitar.

Por exemplo, vemos como o lateral direito adversário, dá largura e o extremo vem dentro posicionando-se entre os dois homens do Qarabag, fixando Slavchev. Ao ultrapassar o médio ala do Qarabag, o lateral esquerdo adversário vem para dentro, onde recebe o apoio frontal de um colega, que fica em um posição privilegiada para jogar de frente para o médio centro, que pode encarar o jogo com espaço.

Pressão

O Qarabag na sua organização defensiva, tenta pressionar e ter acesso à bola, mas a forma como o faz exige muito dos jogadores e está muito dependente da capacidade individual. Como abordei em cima, se um jogador for ultrapassado, quando tenta pressionar a bola, coloca em causa toda a estrutura.

A forma de pressionar do Qarabag baseia-se em ter um jogador a pressionar a bola, e os restantes a marcar (quase individualmente) as opções de passe mais próximas do portador da bola.

O jogador que pressiona a bola, por não ter acesso imediato, fá-lo sempre tarde, ou seja, a decisão do portador da bola, não é pressionada e já vimos como este pode usar o movimento de que o pressiona em seu favor.

Depois os jogadores que marcam as opções de passe, estão sempre em postura reativa! É o comportamento dos adversários, para onde estes se deslocam, que lhes indica qual vai ser o deles. Assim, quando um adversário começa um movimento para ir receber a bola, como vemos em cima, ele consegue ter sempre uma separação inicial, porque o jogador do Qarabag reage, vai atrás. E vemos isso, o homem do Qarabag já está em um posição muito difícil para contestar um possível passe do central.

E acaba mesmo por ser batido, e deixar toda a equipa vulnerável.

Ofensivamente

Tentativa de qualquer coisa

A nível ofensivo, o Qarabag é uma equipa muito mais confortável a jogar em transição do que em organização ofensiva. O desconforto é tanto, que facilmente a equipa pode passar de uma situação em que tem a posse de bola, para uma em que está buscar a bola ao fundo das redes.

 

Em cima vemos como o central avança com a bola, mas sem qualquer opção de passe, ninguém se movimenta para receber nem para criar espaços. Inclusive o trinco vira as costas à bola. Assumo que a equipa estava a se movimentar para responder a um passe longo e direto do central para a linha ofensiva, e poder ganhar a segunda bola, mas Sadigov decide jogar no outro central. A pior opção possível.

O adversário, por ter acesso imediato aos centrais, quando o passe é feito (lento e previsível) inicia a pressão e acaba por forçar o erro. Por o Qarabag estar completamente esticado no campo, os centrais estavam isolados, e o golo acabou por se o resultado óbvio.

É sempre a Zubir

Quando joga Madatov pelo lado direito, a equipa é mais capaz de ter bola entre linhas e procura usar este homem para receber, atraindo os adversários até si, para depois abrir no corredor contrário em Zubir, que pela sua qualidade técnica consegue desequilibrar no 1vs1 e cruzar para a área, onde o Qarabag normalmente coloca sempre 2-3 homens (dependendo do adversário).

Note-se que o início não é muito diferente do lance anterior (que deu golo do adversário), mas neste o comportamento dos médios é diferente. Slavchev fica no centro e é o trinco que abre no corredor direito, avançando pelo corredor, sem nunca ser pressionado.

Muitas vezes é isto que vemos, iniciar a construir pelo lado direito, para atrair, depois abrir no lado esquerdo para Zubir (com o envolvimento do lateral) para este definir a jogada.

 

Este é um adversário, que apostando em transições rápidas e contra-ataques, como se espera em Alvalade, pode causar algum perigo, mas com a quantidade de erros que comete a nível defensivo dificilmente passarão impunes.

 

Todas as imagens, fonte: CBC Sport.

João Mateus

A probabilidade de o Robben cortar sempre para a esquerda quando vinha para dentro é a mesma de ele estar sempre a pensar em Futebol. Com grandes sonhos na bagagem, está a concluir o Mestrado em Engenharia e Gestão Industrial, pela Uni-Nova e procura partilhar a forma como vê o jogo com todos os que partilham a sua paixão.

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