Como jogam os adversários nacionais na Europa? Nº2: Schalke

Inserido no Grupo D, o FC Porto vai ter pela frente Lokomotiv de Moscovo, Galatasaray e Schalke 04. É precisamente da Alemanha, à semelhança do Benfica, que vem o primeiro adversário nesta Liga dos Campeões: Schalke 04. Na próxima Terça-Feira, os dragões deslocam-se até à inesquecível Veltins-Arena, onde o FC Porto venceu, em 2004, a Liga dos Campeões.

Apesar de o Schalke entrar nesta competição como vice-campeão alemão, este inicio de Bundesliga tem sido decepcionante, com zero pontos em dois jogos, um golo marcado (de grande penalidade) e quatro sofridos.

Vamos então olhar para o Schalke 04. Falar deste mau inicio de competição, das saídas e ausências de jogadores importantes e do melhor Schalke (que mais cedo ou mais tarde voltará), equipa que a época passada foi apenas ultrapassada pelo “suspeito do costume”.

Que começo é este? 

  • Perdas de jogadores

Esta época, o treinador, Domenico Tedesco perdeu peças fundamentais e duas delas com a agravante de terem abandonado o clube a custa zero: Goretzka e Meyer. Adicionalmente, também Kehrer e Pjaca, eram jogadores importantes na estrutura dos Royal Blues.

Meyer é uma perda que deve doer muito a Tedesco, já que ele transformou completamente o jovem alemão. A decisão de Tedesco em colocar Meyer numa posição mais baixa no meio-campo, mudou tudo (equipa e o jogador). A sua capacidade na fase defensiva, inquestionavelmente, era uma limitação, mas a sua consciência e inteligência posicional acabou por evoluir exponencialmente, pela mão de Tedesco. Foi a sua notável capacidade de resistir à pressão, a qualidade e facilidade em ter a bola, ao conseguir em espaços curtos, iludir 1-2 adversários com facilidade e sobre pressão, que o levou ao topo da Bundesliga.

Nota-se, esta época, a ausência de um elemento que tenha a capacidade de, desde uma posição mais baixa, de procurar passes verticais, em direcção à baliza, ou de avançar com a bola e desestabilizar a organização adversária.

  • Indefinição tática

Desde que chegou, Tedesco apostou quase sempre no 3-5-2/3-4-3, onde o foco estava em proteger o corredor central, evitando penetrações, de forma a forçar o adversário a jogar para os corredores, onde o Schalke pressionava agressivamente para recuperar a bola.

A postura do Schalke teve uma evolução interessante, que na minha opinião é a causa deste mau início de Bundesliga. Tedesco, começou a época passada com uma proposta simples: defender baixo e não pressionar de forma agressiva no meio campo do adversário. Isto permitia ao Schalke atrair o adversário até zonas próximas da sua área onde aí pressionava, e com um adversário vulnerável, explorava o jogo directo e os contra-ataques.

Esta estratégia dava uma grande coesão à equipa, mas retirava poder ofensivo aos Royal Blues. Adicionalmente, os adversários começavam a obrigar o Schalke a ter a bola, a assumir o jogo, algo que o Schalke não procurava. Algo tinha de mudar, para dar resposta a estes desafios.

A resposta veio pelo meio de uma pressão mais alta, dentro do meio campo adversário, mas tinha um nome: Max Meyer. Como já abordei, esse nome já não está em Gelsenkirchen e o Schalke tem sofrido com isso: Vamos ver um 3-4-2-1 ? (sabendo que Baba não é Oczipka) Ou um 4-3-3 como no último jogo ?

É uma equipa muito indefinida, sendo que esta paragem para os compromissos das Seleções, foi importante para Tedesco. Vamos ver como a equipa aparece no próximo fim-de-semana.

Que Schalke foi vice-campeão? 

  • Estabilidade defensiva

Um dos aspectos mais interessantes era a forma como pressionava o adversário. A chave estava no corredor central: compacto e coeso. Meyer tinha à sua frente dois médios, e à frente destes dois médios, dois avançados. Podemos pensar numa estrutura pentagonal, que se movia como um todo (ao invés do que acontece esta época) em função do adversário em posse, para o colocar sobre intensa pressão. Muitas vezes esse adversário era o médio defensivo ou o central, o que retirava (pela estrutura do pentágono) os jogadores adversários mais criativos do jogo, ou porque estavam inacessíveis, ou porque estavam a uma curta distância para serem pressionados de imediato, mal recebessem a bola.

O posicionamento, quase perfeito, que observávamos o ano passado, requer muito treino e o Schalke teve mudanças importantes no plantel. Também exige que a equipa responda como um todo a certos estímulos para iniciar a pressão, como a bola ser trocada entre os centrais. Quando o adversário troca a bola entre os seus defesas centrais, a bola anda verticalmente (não se aproxima da baliza) e geralmente sem muita velocidade, o que é um sinal para o médio sair na pressão. Estes sinais variam de jogo para jogo, mas é necessário, independentemente de quais, que sejam percebidos por todos, algo que hoje ainda não acontece.

  • Asas

Os alas laterais para além do seu papel em baixar e fazer uma linha de 5 na defesa (muito difícil de quebra), eram fundamentais no momento ofensivo. Bem abertos nos corredores laterais, procuravam esticar a estrutura adversária e/ou abriam espaços no centro para os dois avançados. Esses espaços nos corredores laterais eram criados depois dos lançamentos dos centrais (em especial Kehrer) para os dois avançados, que pela sua capacidade física, ganhavam a bola depois de atrair vários adversários para o centro, libertado depois no apoio frontal dos médios que chegavam, que por sua vezes abriam nos laterais.

A bola vai para Caligiuri (ala lateral), que temporiza e chama o defesa mais próximo, antes de devolver a bola para o corredor central. Esta temporização permitiu criar espaço entre o lateral esquerdo adversário e o seu central, para segundos depois, no preciso momento em que o seu adversário está focado na bola, fazer o movimento diagonal para dentro da área. Esta exploração do lado cego do adversário, pelos alas laterais era (pelo menos na época passada) a arma que o Schalke melhor e mais usava em termos ofensivos.

Esta época, o Schalke tem apenas um golo marcado, e acredito que a indefinição relativamente ao posicionamento de Caligiuri e a ausência de Oczipka tenham tido um grande impacto nesta fraca produtividade ofensiva. (Sem contar com Goretzka, Meyer e a adaptação de novos jogadores).

Será um grande jogo, onde até se poderia dizer que o FC Porto tem mais favoritismo, mas a indefinição em torno dos alemães pode jogar a favor, mas também contra os dragões. O jogo deste fim-de-semana, para a Bundesliga, será decisivo para o Schalke e pode clarificar muitas dúvidas sobre que equipa vamos ter frente aos campeões nacionais.

João Mateus

A probabilidade de o Robben cortar sempre para a esquerda quando vinha para dentro é a mesma de ele estar sempre a pensar em Futebol. Com grandes sonhos na bagagem, está a concluir o Mestrado em Engenharia e Gestão Industrial, pela Uni-Nova e procura partilhar a forma como vê o jogo com todos os que partilham a sua paixão.

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