Como jogam os adversários nacionais na Europa? Nº1: Bayern Munique

Após ultrapassar Fenerbahçe e PAOK, o Benfica ganhou o direito de entrar na fase de grupos da Liga dos Campeões. Integrando o grupo E, os encarnados vão ter pela frente outra equipa grega (AEK), mas será o vice-campeão holandês (Ajax) e, principalmente, o gigante alemão (Bayern) os adversários mais desafiantes.

Ao longo das próximas semanas, vamos olhar para os adversários das equipas nacionais nas competições europeias e procurar perceber como estas jogam, quais os momentos do jogo onde se destacam, as suas armas, e certas lacunas que podem ser exploradas.

E vamos começar com o adversário nacional com maior coeficiente da UEFA- o Bayern Munique.

Guardiola, Ancelotti, Heynckes e … Nico Kovac? Quem é Nico Kovac?

O treinador croata, mais de que um “génio” tático, é um líder, um aglutinador. Assim se explica a forma como transformou o Eintracht Frankfurt. Da luta pela manutenção, à conquista da Taça da Alemanha, derrotando na final, precisamente o seu atual clube, o Bayern Munique.

Em Frankfurt, escolhia tipicamente uma formação em 5-3-2. Onde os cinco homens, dessa primeira linha, apresentavam uma enorme flexibilidade. Alas/laterais a pressionar agressivamente o extremo contrário, mas sem nunca comprometer a coesão e o equilíbrio da equipa.

O screenshot em cima permite, não só ilustrar o tal comportamento “pêndulo” da defesa a cinco, mas também o próprio comportamento dos médios, que dão cobertura á zona de pressão, bloqueando linhas de passe para o corredor central e controlando o espaço central.  A agressividade dos alas laterais, particularmente ilustrada em baixo, forçava o adversário a jogar de forma direta, o que permitia ao Eintracht ganhar a bola com facilidade, face ao domínio dos centrais no jogo aéreo, explorando, se possível, e o mais rapidamente possível, os movimentos verticais de Rebic, no ataque à profundidade.

Também a nível ofensivo, era visível a flexibilidade do Eintracht, não só dos alas laterais (verdadeiros extremos) como do “central do meio” da linha de cinco em organização defensiva, que no processo ofensivo avançava e se comportava como um médio defensivo, alimentando os médios e o jogo ofensivo.

Era uma equipa estável e organizada, o que é muito difícil de atingir quando existe uma constante articulação de movimentos sem bola dos jogadores, precisamente o que existia no Eintracht e existe agora na Baviera.

  • O Bayern de Kovac

Naturalmente que ainda estamos no princípio da “era Kovac” em Munique, mas parece que o 5-3-2 que usou em Frankfurt, vai dar lugar, para já, a um 4-3-3. Foi com essa estrutura que o Bayern se apresentou nos primeiros dois confrontos para a Bundesliga.

Na primeira jornada, Thiago e Muller alinham na frente de Martinez, mas de forma assimétrica. O alemão quase como segundo avançado e Thiago em zonas mais baixas, entre o corredor central e o corredor esquerdo, numa posição que lhe permite combinar com Alaba e Ribery.

Já em Estugarda, segunda jornada, o Bayern jogou com Thiago como médio mais recuado, Martinez ficou no banco, tendo Goretzka entrado para a posição em que o ex-Barcelona, jogou na primeira jornada. Atitude que vai de encontro ao que Kovac tem sublinhado: não existe um onze base. O treinador croata vai ajustar os seus elementos em função do adversário e das suas debilidades. Uma equipa à imagem do treinador: flexível, mas fiel naquilo que acredita.

  • Organização ofensiva

Particularmente em Estugarda, enfrentaram um adversário a defender compacto, com linhas curtas, bem dentro do seu meio campo, que estava focado na defesa do corredor central.

Quando enfrentam este tipo de adversários, o Bayern passa grande parte do jogo em Organização Ofensiva, onde tendo como base a posse de bola conseguem explorar muito bem os corredores laterais, agredindo o adversário. Desde situações de envolvimento do médio e do lateral, seja em momentos de 1vs1 (extremo vs lateral contrário) onde a qualidade individual dos homens de Munique acaba quase sempre por fazer a diferença.

Em baixo, vemos como a colocação de Thiago mais recuado, foi fundamental. Assumindo na totalidade a construção, aliando o dinamismo à sua capacidade de distribuição, seja ele de curta ou de longa distância, fazendo a bola chegar aos corredores com facilidade e rapidez.

Este “assumir da responsabilidade”, é determinante também para o momento da criação e definição das jogadas, porque dá a possibilidade aos outros médios de procurarem espaços entre linhas (já vou focar este ponto).

Em lance corrido, vemos como Thiago olha 2-3 vezes para o lado contrário. “Pormenores”. E está criada uma situação de 2vs2 no corredor contrário, com superioridade dinâmica.

Fonte: GIPHY
  • Corredores laterais.

5-3-2, 4-3-2 … Não interessa muito. Kovac têm nos corredores laterais, uma das suas armas.

O Bayern consegue ter nessas zonas um dinamismo interessante, mas de forma diferente. Enquanto na direita, Muller é quase um segundo avançado, Boateng um médio. Na esquerda, estabelece-se um triângulo entre Alaba, Ribery e um terceiro homem (normalmente um médio – Goretzka).

Para compreendermos esta dinâmica, podemos desenhar três zonas, uma no corredor lateral, uma posição mais recuada entre esse corredor lateral e o central, e uma posição mais avançada nesse mesmo espaço entre corredores. Como podemos ver, duas dessas zonas são no espaço entre linhas, o que é decisivo.

Os três jogadores, que estabelecem o tal triângulo, ocupam cada um uma posição e alteram constantemente entre si. Alaba mais atrás, ou no corredor, varia.

Com este uso dos corredores, o cruzamento acaba por ser uma consequência natural. Quem aproveita essa situação, muito bem, é não só Lewandowski, mas também Muller. Com movimentações sempre muito inteligentes, partindo das costas dos adversários, que por estarem focados na bola, e preocupados em se posicionar para responder ao cruzamento, não têm depois tempo de reagir ao movimento do alemão.

  • Boateng, apesar de ter deixado um rim em Camp Nou, é fundamental.

A capacidade de passe de Boateng, é muito interessante, particularmente para um atleta com a sua estatura e morfologia. Essa capacidade, é usada como recurso não só para rapidamente variar o centro de jogo, alterando entre passe rasteiro tenso e bola longa, mas também para explorar as costas da linha defensiva adversária ou o espaço entre linhas. Muitas vezes consoante a melhor opção em resultado dos movimentos de Lewandowski, coordenados com o extremo.

O primeiro golo, em Estugarda, é o resultado de tudo isso. Envolvência de Boateng no processo de criação, Lewa brilhante entre linhas (apoios, postura corporal) e movimento de infiltração do médio nos espaços intra linhas.

Vemos isso tudo a acontecer, de forma coordenada, e como a linha do Estugarda nunca sabe qual é a melhor resposta para as questões que o Bayern coloca, não só porque são muitas, mas sobretudo porque surgem ao mesmo tempo.

Fonte: GIPHY

Reparem na quantidade de vezes, que os jogadores do Estugarda tiveram de mudar a sua posição corporal, naquele curto espaço de tempo. Ainda nem tinha acabado de rodar o seu corpo para responder a um passe, já lhes era exigido outra postura diferente (ás vezes rodar 180º). Isto é uma das razões que tornam os movimentos e a colocação no lado cego dos adversários uma arma tão eficaz. E o Bayern usa-a muito bem.

  • Transição Defensiva/Reação à perda da bola

Todos os comportamentos ofensivos que falei, só são possíveis pela forma como o Bayern reage à perda da bola. A boa estrutura que apresentam em posse, sempre com jogadores entre as linhas e entre os elementos da mesma linha, é o que lhes permitir fazer uma pressão imediata à perda. Todos os jogadores se movimentam em direção à bola e fecham linhas de passe.

Apostam nos segundos em que o adversário ainda está meio desorientado porque está a mudar o chip, e se está a organizar, para a fase ofensiva.

Kovac exige aos seus jogadores, que se movam para próximo da bola/portador sobrecarregando as zonas para onde esta tem a maior probabilidade de ser jogada, impedindo a progressão do adversário ao longo do campo, obrigando estes a voltarem atrás e a depois baterem na frente.

Fonte: GIPHY

Conclusão e Benfica

Kovac não é um nome conhecido, mas dificilmente assim vai continuar. Está a construir uma equipa interessante, e não está a “inventar a roda”: Superioridade numérica nos corredores, dinâmicas, cruzamentos, colocação de médios e extremos entre linhas, coordenação entre movimentos de aproximação e de ataque à profundidade … não é a nova roda.

Falta o “teste Champions” a este Bayern (e a Kovac) para tirarmos mais conclusões. E esse teste já está marcado:

19 de Setembro, Estádio da Luz: Benfica – Bayern.

João Mateus

A probabilidade de o Robben cortar sempre para a esquerda quando vinha para dentro é a mesma de ele estar sempre a pensar em Futebol. Com grandes sonhos na bagagem, está a concluir o Mestrado em Engenharia e Gestão Industrial, pela Uni-Nova e procura partilhar a forma como vê o jogo com todos os que partilham a sua paixão.

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