Diz-me o que queres arriscar e dir-te-ei o resultado. A análise ao empate entre Atlético e Valência

O Mestalla recebeu o jogo mais antecipado desta primeira jornada de La Liga, com o Valência a receber o Atlético de Madrid. Os resultados dos últimos jogos entre estes dois treinadores, 1-1 1-0 0-1 1-0 0-1 0-0 0-0 1-0, prometiam nada menos que equilíbrio e foi isso mesmo que vimos.

Ambas as formações nos seus habituais 4-4-2, alinharam com:

Valência: Neto ; Piccini – Garay – Paulista – Gayá ; Soler – Parejo – Kondogbia – Wass ; Rodrigo – Mina.

Atl. Madrid: Oblak ; Juanfran – Savic – Godín – F.Luís ; Correa – Koke – Saúl – Lemar ; Griezmann – Costa.

Defender? Para o Atlético é mais um dia no escritório.

Nos primeiros minutos, vimos claramente qual era a proposta do Atlético para o jogo: proteger o corredor central, de forma a forçar o Valência a jogar pelas laterais, já que era onde o ATL tentava recuperar a posse de bola ou no mínimo fazer a bola circular novamente pelos centrais para o corredor oposto. Esse tipo de variações acabava por ser inofensiva, já que essa circulação era feita em redor do bloco do do Atlético o que dava tempo à equipa para rodar e ajustar as suas posições.

Os jogadores do Atlético conservavam em todos os momentos uma distância aos adversários ideal para garantir que se estes recebessem a bola, eram pressionados de imediato ao mesmo tempo que colocavam dúvidas no portador da bola (muitas vezes o central) sobre se deveriam ou não realizar o passe.  Neste capítulo é especialmente importante o papel que Koke e Saúl desempenham, com timings de saída na pressão quase perfeitos, não demasiado tarde e sobretudo nunca antes do tempo.

Quando o Valência tinha a posse de bola nos seus centrais, Griezmann e Costa colocavam-se a uma distância que lhes permitia estar prontos para pressionar esse mesmo homem se esse avançasse alguns metros no campo. Nas costas deste duo, Saúl e Koke apostavam em marcações praticamente homem a homem aos dois médios do valência se esses caíssem na sua zona, sem nunca abandonar as suas posições centrais. Vimos algumas vezes Parejo baixar mais e/ou cair sobre um corredor, mas nem Saúl nem Koke acompanhavam. Nesse caso era um dos avançados que ajustava ligeiramente a sua posição.

Este é um dos aspetos que falo quando me refiro ao “timings de saída na pressão quase perfeitos, não demasiado tarde e sobretudo nunca antes do tempo “. Permite manter uma situação de igualdade numérica nas zonas em redor da bola (para onde baixa Parejo, por exemplo) e sobrecarga de jogadores do Atlético, nas zonas que o Valência procura explorar (zona central).

Este conhecimento perfeito de onde estão os companheiros, quando em organização defensiva,  é o primeiro passo para a forma como o Atlético vai depois atacar. Na eventualidade de Saúl interceptar um passe, o posicionamento de Costa e Griezmann em organização defensiva, permite-lhes estar numa zona entre linhas, mal recuperem a posse de bola.

Rodrigo, quem és tu? 

É o jogador mais influente e importante neste Valência. Simples.

Parejo, descia muitas vezes para próximo dos centrais, não apenas para receber, mas para se colocar em zonas que procuravam comprometer a articulação entre Costa e Griezmann, quando a equipa do Atlético rodava, o que abria espaços momentaneamente na estrutura do Atlético.

Agora, esse comportamento de Parejo é apenas metade e irrelevante se não houver ninguém a corresponder com movimentos sem bola adequados para receber o passe. Kondogbia não tem essa capacidade de movimentação, daí a importância de Rodrigo.

Esta imagem espelha apenas um dos vários movimentos que Rodrigo realizou sem bola, e é absolutamente necessário ter um jogador com esta capacidade frente ao Atlético, que caia nas zonas entre as linhas e faça uso máximo dos espaços limitados que a estrutura compacta do Atlético oferece.

Rodrigo está-se a transformar num jogador tremendo a jogar sobre pressão e em curtos espaços de terreno.

Muitas vezes vemos o Atlético tirar partido deste tipo de situações, onde o adversário assume riscos na fase de construção com este tipo de passes verticais e diagonais para o interior da estrutura adversária. Esta acaba por permitir a recuperação de bola e/ou a interseção que resulta em golo. Com isto dizer que: ter ou não ter Rodrigo na equipa é o que define quanto maior ou menor é o risco que o Valência vai assumir na fase de construção.

O golo (soberbo, na forma como domina a bola com sangue frio para concluir) acaba por ser o coroar de uma exibição notável, de um jogador que se está a tornar dos melhores no panorama europeu, muito por culpa do seu treinador e do papel que lhe atribui.

Diego Costa e os amigos 

Os primeiros minutos indiciavam algo de positivo, pela forma como se movimentavam de dentro para fora, criando espaço para Lemar, Correa e Griezmann para que pudessem combinar no corredor central (é assim que surge o golo)  e o resto do jogo não desapontou.

Até ao golo do empate, o Atlético foi muito superior e pode-se queixar apenas de si por não ter chegado ao 0-2. Para essa superioridade, em muito contribuiu Lemar, na forma como ocupava espaços entre linhas e se articulava bem com Felipe Luís. Piccini acabou por não ter a melhor estreia no campeonato, muito por culpa da forma como o brasileiro encurtava rapidamente o espaço na frente do ex-Sporting, induzindo muitas vezes a perda da posse de bola pelo Valência.

Este posicionamento adiantando dos laterais do Atlético, particularmente de F.Luís, quase em linha com os médios, nunca foi muito explorado. Por duas razões: porque Piccini estava muito baixo no terreno e porque não estava articulado com Soler. Essa falta de articulação foi a causa e o efeito de um mau posicionamento em posse, com ambos os jogadores a ocuparem a mesma linha vertical.

Em conclusão

São dois treinadores muito semelhantes, desde logo pelo mesmo 4-4-2, mas onde a qualidade individual dos jogadores fez a diferença em certos momentos. Para se vencer o Atlético de Simeone, é obrigatório o adversário assumir certos riscos e depois ter a capacidade de ser responsável por eles.

Toral transferiu grande parte desse responsabilidade para Rodrigo, mas para se vencer o Atlético é preciso mais. Fico na dúvida se a fraca exibição de Wass e Soler foi resultado de uma abordagem mais conservadora do Valência ou se foi a incapacidade em se movimentar eficazmente com bola, jogando em zonas de intensa pressão.

João Mateus

A probabilidade de o Robben cortar sempre para a esquerda quando vinha para dentro é a mesma de ele estar sempre a pensar em Futebol. Com grandes sonhos na bagagem, está a concluir o Mestrado em Engenharia e Gestão Industrial, pela Uni-Nova e procura partilhar a forma como vê o jogo com todos os que partilham a sua paixão.

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