Receitas televisivas: os números e os contrastes

O futebol tem vindo a transfigurar-se, passando de um mero desporto com finalidade lúdica até à vertente negocial pura, o que faz aumentar a competitividade entre os clubes e também a desigualdade entre estes. E isto afeta o equilíbrio competitivo. Este fenómeno influencia também o desempenho dos clubes dentro de campo e a sua capacidade de atrair adeptos não só à escala regional e nacional, como também à escala mundial.

O futebol, o fenómeno negocial

O desporto, em particular, o futebol, tem uma grande capacidade de aglutinação de espetadores, e por isso passa pela estratégia dos clubes, planos que dinamizem o aspeto comercial e a televisão é uma ferramenta essencial. Assiste-se atualmente a um combate incessante por parte dos clubes para conseguirem o domínio no reduto negocial, competindo por patrocínios e pelos melhores contratos de direitos de transmissão televisiva.

Olhando para o caso de Portugal, só os três grandes são responsáveis por gerar mais de 70% da receita, o que gera um desequilíbrio bastante acentuado, já que estas três equipas têm um poder financeiro muito superior e à partida melhores condições para almejar a conquista de títulos. Podemos também inferir que os clubes mais competitivos são aqueles que atraem mais espetadores, consequentemente os clubes grandes são aqueles que ao mesmo tempo têm maiores assistências nos estádios.

Assim, o desequilíbrio entre os clubes em Portugal, do ponto de vista desportivo, torna os resultados mais previsíveis e não atrai os grandes públicos para os pequenos jogos, o que leva a uma baixa média de assistência nos estádios. Portugal está por este motivo no 12º posto europeu no que toca à média de espetadores, cerca de 10500 espetadores por jogo e com uma taxa de ocupação dos lugares nos estádios de cerca de 49%. Um dos grandes problemas do fraco poderio económico dos clubes mais pequenos em Portugal é a fraca competitividade, o que dificulta a capacidade de gerar atratividade para os seus estádios, conduzindo a baixas receitas de bilheteiras e deixando estes extremamente dependentes da receita dos direitos televisivos.

Segundo um estudo da UEFA, relativo à época 2015/2016, a principal fonte de receita dos clubes portugueses foram os direitos televisivos, que representaram 33% da receita, seguido dos patrocínios e publicidade que valiam 24% do total das receitas, contra apenas 18% das receitas provenientes da bilheteira.

O resto da Europa

Os direitos televisivos são nas principais ligas (Bundesliga, Premier League, La Liga, Ligue 1 e Serie A), a principal fonte de receita anual. Segundo um estudo da consultora Delloite acerca dos vinte principais clubes europeus, a receita proveniente dos direitos televisivos é a mais significativa, com um peso médio de 45% no total das receitas destes clubes. Quase metade. Seguem-se as receitas comerciais com um peso de 38% e as receitas de bilheteiras que assumem um peso de apenas 17%.

Em termos de receitas, a liga europeia mais equilibrada é a Premier League, com dez clubes no top 20 dos clubes com mais receita no ano de 2017.  Se olharmos para o top 30, ainda podemos ver clubes como o Leicester City, na décima quarta posição e Bournemouth, na vigésima oitava, clubes que não são à partida favoritos para conquistar os principais títulos. O clube que mais receita gerou no passado ano de 2017 é também ele inglês. O colosso Manchester United encabeça a lista dos clubes com maior receita, pelo segundo ano consecutivo. Os red devils acabaram época com uma receita que ascende aos 676 milhões de euros, facto que se justifica pela conquista da Liga Europa, que trouxe importantes encaixes financeiros ao clube em termos de bilheteira e vendas. No top 10 ainda aparecem Real Madrid, Barcelona, Bayern Munique, Arsenal, PSG, Chelsea, Liverpool e Juventus, por esta ordem.

Ora, para encontrar um clube português nesta lista, é necessário irmos ao fundo do top 30, onde encontramos o SL Benfica, exatamente na trigésima posição, tendo obtido uma receita de aproximadamente 157,6 M€.

Outro facto de relevo é que a soma total dos 20 clubes europeus com maior receita alcança os incríveis 7,9 mil milhões de euros, um crescimento de 6% face a 2016, com os três primeiros da lista (Manchester United, Real Madrid e Barcelona) a alcançarem pela primeira vez na história uma receita combinada de dois mil milhões de euros.

É também de salientar que para entrar no top 20 um clube tem que ter uma receita superior a 200 M€, um aumento de 16% face ao ano de 2016 e o dobro face a 2010.

Falando das principais ligas,  a Premier League, sendo a liga mais competitiva, é também aquela que gera maiores receitas, o que faz com que esta tenha uma maior capacidade de atrair público. Não é então de admirar que exista um maior investimento por parte dos operadores televisivos neste campeonato, já que é a liga com maior número de espetadores, não só no Reino Unido, mas em especial nos mercados asiáticos onde é assistida por milhões de espetadores e de onde provém mais de 50% da receita televisiva do exterior.

Receitas televisivas

No que toca às receitas televisivas existem dois métodos possíveis para a venda destes direitos: um sistema individual e um coletivo, dependendo se os direitos são detidos pelo clube ou pela Liga, esta em representação de todas as equipas.

No que toca ao sistema individual, cada clube detém e é responsável pela venda dos direitos televisivos dos jogos realizados em sua casa. Existem também casos em que certos clubes se aliam para vender os seus direitos individuais, constituindo um acordo entre si, levando-os a um sistema diferente de venda dos direitos televisivos, o sistema “misto”. O sistema individual será mais benéfico nos campeonatos mais equilibrados, em que existe um elevado número de clubes que têm um poderio semelhante.

No sistema coletivo, a Liga tem o monopólio dos direitos televisivos dos clubes, vendendo-os em pacote e distribuindo a receita por todos os clubes. Esta centralização é benéfica do ponto de vista competitivo, já que garante uma repartição mais igualitária da receita e estimula a competitividade interna.

O sistema mais lucrativo tende geralmente a ser o sistema individual, uma vez que existe uma maior predisposição por parte dos operadores televisivos a investir nos clubes que geram uma maior atratividade. É também por isto que em Portugal, os três grandes não estejam dispostos a considerar um acordo coletivo para a venda destes direitos.

Segundo um estudo da consultora KPMG, que analisou os 5 maiores e melhores campeonatos europeus, em termos de valor global e valor médio por jogo dos direitos televisivos, o campeonato alemão foi aquele que no ano de 2017 teve menos capacidade de gerar receita, com uma receita global de 628 M€, ou seja, apenas 2,1 M€ por jogo.

O que explica o facto de a liga alemã gerar menos receita, é a concorrência entre os operadores televisivos, que é um fator determinante para o estabelecimento de contratos mais vantajosos para os clubes. Apesar de a Bundesliga ser cada vez mais espetacular e competitiva, a fraca concorrência entre operadores televisivos desincentiva investimentos mais elevados.

O caso português

Olhando para o caso português, temos dois operadores televisivos com poderio financeiro suficiente para negociar estes direitos, NOS e MEO. Como existem apenas estes dois operadores monetariamente mais poderosos existe uma baixa competitividade pela compra dos direitos. Assim, quanto mais operadores com capacidade financeira existirem a operar no mercado, maior a capacidade de inflacionar os valores dos direitos televisivos.

Dos 6 principais campeonatos, Portugal é o único onde a Liga não detém o monopólio dos direitos televisivos, ou seja cada clube é responsável pela negociação dos seus direitos televisivos. Isto provoca sérias consequências no campeonato português, em termos competitivos, já que a menor autonomia financeira dos clubes, leva a uma menor capacidade de manter os melhores jogadores e treinadores e a um menor equilíbrio entre as receitas dos clubes. Enquanto este sistema se mantiver, existirão sempre poucos clubes com capacidade de disputar os títulos domésticos, ficando os olhares centrados nos grandes.

Tiago Domingos

Lourinhanense de gema, estuda gestão no ISCTE-IUL. Tem como hobbie a escrita e como paixão o futebol!

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