Análise Tática: Fenerbahçe – Benfica

O Benfica viajou até à Turquia, com uma vantagem de 1-0, para tentar confirmar a presença no “Play-off” de acesso à Liga dos Campeões. Foi precisamente o que conseguiu com um empate a uma bola com o Fenerbahçe, que nunca conseguiu colocar em causa a passagem dos encarnados.

Equipas Titulares:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A introdução de Castillo no onze, em substituição de Ferreyra, teve como objetivo mais óbvio ter uma âncora na frente, para quando o Benfica recuperasse a bola em organização defensiva, e assim tivesse um ponto claro de referência na frente. Os jogadores sabiam que podiam lançar a bola automaticamente, retirando-a da zona de pressão para o Chileno segurar, aguentar a carga e posteriormente jogar nos apoios frontais que iam chegando tanto de Cervi e Salvio como de Gedson. Contudo, acredito que Rui Vitória tinha outro objetivo. O Fenerbahçe é uma equipa muito desarticulada, na minha opinião, Topal e Elmas não dão à equipa o equilíbrio necessário para compensar a falta de comprometimento defensivo de Valbuena e Ayew.

O que aconteceu foi que, como podemos ver com a sequência de imagens, com a fixação de Castillo a Neustadter e Skrtel, a distância entre a linha defensiva e a linha média/ofensiva foi enorme! Essa distância aliada a uma fraca, muito fraca, reação à perda da bola dos turcos permitiu muitas vezes a Gedson atacar agressivamente o espaço em direção à área contrária, com a linha defensiva em contra-pé.

Grande capacidade de Gedson, não só na forma como acelerou em posse de bola pelo corredor central, mas também como usou o corpo para proteger a bola e a clarividência para encarar Elmas (apesar da sua terrível colocação dos apoios tendo em conta a distância a que estava do adversário).

No final desse lance, Gedson acaba por libertar a bola no movimento diagonal de fora para dentro de Castillo, ele que estava colocado pela linha e vinha dar apoio pelo corredor lateral. Só não deu golo, pela intervenção excelente de Neustadter (que é uma pena estar a jogar na Turquia), que acompanhou o lance na perfeição e movimentou os apoios muito bem em função das mudanças de direção do portador da bola.

Depois de entregar a bola que recuperou em Giuliano, o brasileiro demora dois segundos a ficar sem a posse da mesma. Apesar de ter contribuído muito para isso, ao ter recebido a bola para o lado errado, fruto de não se ter preocupado em olhar por cima do ombro e analisar a situação e o espaço que tinha (este é um exemplo do que pode acontecer quando existe falta comunicação). A reação à perda do Benfica foi muito boa. Desde Gedson (que tinha acabado de fazer um sprint com bola) que contribuiu para Giuliano receber para o seu lado esquerdo, a Cervi (com a habitual capacidade de trabalho e de pressão) e acabando em Fejsa. Se olharmos para o comportamento do sérvio e o compararmos com o de Topal dez segundos antes, podemos tirar algumas conclusões sobre qual a razão para termos o Benfica no play-off e não o Fenerbahçe.

Cervi corta a bola, pela excelente qualidade de Fejsa na ocupação dos espaços, o Sérvio acabou por recolher e explorar imediatamente o espaço resultante da equipa turca estar em contra-pé  com um passe para Salvio, que decidiu mal e não aproveitou a oportunidade. É particularmente interessante observar a postura corporal dos jogadores do Fenerbahçe, que já estavam a iniciar a transição ofensiva, para percebermos como é importante recuperar a bola nestes momentos.

O Benfica em determinados momentos baixou para defender dentro do seu meio campo uma formação 4-4-2, com Gedson a sair da linha defensiva para acompanhar o médio, não dando muito espaço para este rodar, e com os extremos Cervi e Salvio responsáveis por acompanhar as subidas dos laterais, para André Almeida e Grimaldo não deixarem muito espaço para o central ao ocupar os espaços entre o corredor lateral e central. Nesta situação está perfeitamente controlada pelo Benfica. Na primeira parte, houve um momento que poderia ter ditado um rumo diferente ao jogo, e colado em causa o apuramento dos encarnados. É usual ouvirmos dizer que “descansar é cá atrás”, mas na Liga dos Campeões não pode haver afirmação mais errada.

Veja-se como Pizzi antecipa o que vai acontecer e indica isso a Cervi! Com o braço no ar, indica claramente para o argentino ter cuidado com a subida do lateral, porque Valbuena pode rodar e lançar nas costas.  A postura corporal de Cervi é totalmente errada, o que indiciava que se Valbuena realizasse o passe diagonal, a bola facilmente entrava em Isla e foi o que aconteceu, valeu ao Benfica o facto de o chileno ter tentado dominar uma bola, quando só tinha de encostar.

 

Golo do Benfica

Temos de dar mérito a Rui Vitória. O golo do Benfica é resultado do trabalho do treinador, de comportamentos que são trabalhados e reconhecidos pelos jogadores. Quem tiver a curiosidade de perceber porque digo isto, voltem a ver o jogo e observem o lance que acontece ao segundo minuto de jogo e as semelhanças com este que resulta em golo.

A bola veio do corredor esquerdo e chegou ao direito, com André Almeida a dar largura e Salvio a dar apoio curto, arrastando dois homens para o corredor lateral. Agora observem para onde Pizzi está a olhar! Está a ler o espaço e particularmente a posição de Gedson. Com essa indicação visual de Pizzi (comunicação não verbal) Gedson sabe o que tem de fazer, atacar o espaço, mas para o fazer Pizzi tem de arrastar aquele homem para fora do espaço sublinhado (espaço esse quer no corredor esquerdo quer no direito, que o Benfica explorou constantemente ao longo do jogo ).

E foi isso precisamente que Pizzi conseguiu. Nota para Castillo, que com pouco tempo de Benfica, respondeu bem à solicitação e com um bom primeiro toque, meteu Gedson na cara do golo com o resultado que se conhece.

 

Calma do Benfica na hora de gerir

Apesar de ter sofrido o empate antes do intervalo, o Benfica foi muito inteligente na forma como jogou com a falta de paciência dos turcos em estar em desvantagem, que resultou numa incapacidade em evitar erros, principalmente na segunda parte. O Benfica reciclavava a posse de bola, com o triângulo Fejsa, Dias e Jardel, conduzindo a uma grande fadiga dos jogadores do Fenerbahçe, o que abriu vários espaços intra e entre linhas.

Golo do Fenerbahçe

O golo turco, apesar de não ter sido merecido (seja lá o que isso for no futebol) foi resultado de uma situação muitas vezes explorada: A baixa estatura e poder aéreo da asa esquerda do Benfica. Apesar de este não ser o lance do golo, podemos ver como o Fenerbahce tentou envolver e começar as suas jogadas pelo corredor esquerdo, para depois explorar o corredor contrário com bolas diagonais, ou para as costas da linha defensiva (como já vimos). Aqui a bola é ganha por Ayew, que a desvia para Isla, com todo o espaço e tempo cruzar a bola para a área (acredito que vamos ver isto muito com Slimani).

Podemos ver como Potuk tirou partido da sua vantagem (em comparação com Grimaldo) no jogo áereo, para fazer o empate. Quando falo de jogo aéreo falo também da forma como se colocam os apoios, o primeiro passo para se saltar, o que no caso foi mal conseguido por Grimaldo.

 

2ª Parte

A segunda parte não trouxe muitas novidades, o ritmo baixou, e o Benfica nunca transmitiu instabilidade, os jogadores com a bola sempre com grande calma o que foi facilitado pelo facto do Fenerbahçe nunca ter conseguido pressionar a tomada de decisão do Benfica.

Apesar disso, o Benfica não pode desperdiçar as oportunidades que teve, já abordei a de Salvio na primeira parte, mas houve muitas mais. Num contexto diferente, com equipas mais competentes, é necessário ser mais eficaz. Um desses lances, aconteceu depois de uma recuperação de bola do Benfica em organização defensiva, dentro do seu meio campo.

A regra é simples: sempre que um adversário recebe de costas para a baliza tem de ser imediatamente pressionado, evitando que este rode e que solte nas opções mais próximas, com as linhas de passe anuladas. Vemos como Ferreyra aproxima na melhor opção que o Valbuena tinha, que era o apoio frontal do central, que tinha realizado o passe. Uma palavra para o argentino, que é muito inteligente na pressão, e nos movimentos sem bola, acredito que será um jogador fundamental nesta prova para o Benfica e não tanto pelos golo que pode/não pode marcar (apesar das críticas).

Rui Vitória >> Cocu

O Benfica foi muito superior, durante os dois jogos. Contudo, o treinador da casa acabou por descobrir onde estava a chave do jogo e da eliminatória, mas tarde demais e com resposta pronta de Rui Vitória. A entrada de Soldado e Alici foi fundamental, porque resultou na colocação de Ayew no corredor central, com a aproximação dos extremos, o que começou a comprometer a estabilidade que Fejsa sempre deu à equipa, mas Rui Vitória respondeu com Alfa e … “tudo como dantes quartel general em Abrantes ”

Excelente exibição do Benfica.

João Mateus

A probabilidade de o Robben cortar sempre para a esquerda quando vinha para dentro é a mesma de ele estar sempre a pensar em Futebol. Com grandes sonhos na bagagem, está a concluir o Mestrado em Engenharia e Gestão Industrial, pela Uni-Nova e procura partilhar a forma como vê o jogo com todos os que partilham a sua paixão.

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