Rafa Santos: Internacional canarinho defende as redes de um histórico de Lisboa

Hoje no Entrevistas Ambidestro, damos a conhecer um jovem guarda-redes com uma carreira desportiva riquíssima. Iniciou a sua caminhada na sua terra natal, foi internacional sub-14 e sub-16 pela selecção do Brasil. Está na sua quinta época consecutiva em Portugal e esta temporada,  faz a sua estreia no Clube Oriental de Lisboa tendo sido um reforço de peso, do emblema de Marvila.

A qualidade evidenciada, tem feito as delícias dos adeptos orientalistas. Jovem e ciente do seu percurso, vive o futebol com intensidade e além dos treinos diários, ainda tem tempo para desempenhar o papel de formador numa escola de guarda-redes em Lisboa. O guardião Helton (ex FC Porto), reconhece-lhe elevadas competências e convidou-o a integrar o projecto “A Baliza É Tua”, do qual, o antigo guardião portista, é o grande mentor.

Nesta iniciativa, o jovem de 23 anos, na vertente de formador, ensina e partilha vivências da sua carreira com crianças que almejam seguir as pisadas dos melhores… Falo de Rafa Santos, um jovem brasileiro, repleto de engenho, na arte de bem defender.


Rafa desde já, agradeço-te por teres disponibilizado o teu tempo para o Ambidestro. É para mim, uma honra entrevistar um ex-internacional da Selecção canarinha.

Antes de nos debruçarmos sobre o teu percurso e vasta carreira profissional, tive oportunidade de saber que também desempenhas um papel de professor/formador num projecto em que colaboras, com o teu compatriota Helton. Algo desconhecido para a grande parte dos adeptos.

AMBIDESTRO – Bom dia, Rafa. Fala-nos um pouco desse projecto “A Baliza É Tua” e em que moldes funciona?

Rafa Santos – Sim, faço parte da Escola de Guarda-Redes a Baliza É Tua, uma iniciativa do Helton, que visa proporcionar aos miúdos, uma semana de treinos específicos e passo-lhes um pouco de como é, a rotina de um guarda-redes, dentro e fora dos relvados. Todos os pormenores, desde entrevistas, alimentação até mesmo estágio. Tentamos impor a escola técnica brasileira de guarda-redes, o alto nível da exigência da posição, mas também, caminhando lado a lado, com a diversão, cultura e com a ideia de proporcionar uma semana inesquecível, para os miúdos e miúdas, em todos os aspectos.

 

AMBIDESTRO – A iniciativa é apenas na zona Norte de Portugal?

Rafa Santos – De momento, esse trabalho é feito apenas no verão em Vila Nova de Gaia, mas a ideia é aos poucos, evoluir por outras zonas do país.

 

Rafa Santos na companhia de Helton no projecto “A Baliza é Tua”

 

AMBIDESTRO – Tal é o sucesso, que as inscrições ficam esgotadas praticamente no dia em que abrem. Quando a maior parte das escolinhas de futebol, se foca mais nas posições do eixo defensivo, meio campo e ataque, é certamente muito gratificante, teres cerca de 30 crianças com o sonho de serem guarda-redes. Como te sentes nesse papel de mentor?

Rafa Santos – É uma satisfação enorme, proporcionar-lhes essa alegria, poder ensinar um pouco do que aprendi e vou aprendendo ao longo da carreira. Para mim, estar ali é muito gratificante, pois estou ensinando aos miúdos e aprendendo com todos os professores, de altíssimo nível, alem do Helton que não precisamos de falar das conhecidas qualidades, a restante equipa é de uma experiência enorme, com treinadores de alto nível, ex guarda-redes formados por Sérgio Antunes (foi o responsável pela minha entrada no projeto, o responsável por descobrir o Helton quando miudo, e foi o meu diretor no Botafogo), Leonardo ( ex guarda-redes do fluminense), Carlinhos ( professor de Desporto ), Rodrigo (treinador de GR no Vasco da Gama sub 20), Jose Jober ( treinador de GR do Flamengo Sênior), Arthur Guedes ( ex guarda-redes cá em Portugal, hoje é treinador de GR no Luxemburgo), Agostinho (diretor de todos os GR da formaçao do Vasco da Gama), Fabio Carvalho (guarda-redes de grande experiência, jogou no Flamengo, na Argentina e hoje está a actuar no Campeonato Distrital da AF Porto) e Diogo Soares “Xerife” (novo como eu, que também está a actuar no distrital do Porto), não esquecendo claro, todos os elementos da estrutura, que fazem o projecto ser de grande sucesso a cada edição.

 

AMBIDESTRO- Passando agora para o “Rafa guardião”, vamos abordar o teu início de carreira e fazer umas questões aquando do teu tempo de menino.

Sei que iniciaste a tua formação no Botafogo e posteriormente, no América Mineiro… fala-nos um pouco desse tempo.

Rafa Santos – Na verdade eu iniciei no Madureira, uma equipa que joga o regional do Rio de Janeiro (minha cidade) e também, o terceiro escalão nacional, onde fiquei dois anos e fui para o Botafogo, onde fiquei quatro anos, depois fui para o America Mineiro que na altura, estava na primeira divisão, onde fiquei um ano e meio até que vim para Portugal.

 

AMBIDESTRO – Como surgiu o interesse pelo futebol ? Nessa altura quando despertaste para o futebol, o teu interesse sempre foi ficar entre os postes ou ambicionavas outra posição em especial?

Rafa Santos – Sempre gostei de jogar à bola mas não queria ser guarda-redes (risos). No início não era guarda-redes, mas um dia faltou um e eu, como era gordinho, mandaram-me à baliza, fiz um bom jogo e ganhamos. Nessa altura, o meu pai falou que era melhor eu continuar ali… Estou cá até hoje.

 

AMBIDESTRO – Tiveste um percurso de ouro até que a magia acontece… quando és convocado para representares o teu país como sub-14 e depois como sub-16. O que sente um miúdo naquela altura em que pisa o relvado representando o seu país e estando no lote dos melhores?

Rafa Santos – Ir à Seleção é uma sensação inexplicável, nesse período eu era regularmente convocado e sempre encarava como se fosse a primeira vez. Melhor sensação é impossível.

 

Rafa Santos na companhia de Julio César e de Charles do CS Marítimo

 

AMBIDESTRO – Passando agora para a tua vinda para Portugal. Como surgiu a hipótese de vires para a montra europeia?

Rafa Santos – Após a Taça SP de 2013 (um torneio muito valorizado no Brasil, na área da formação), no qual joguei pelo America Mg,  numa idade acima. O primeiro treinador que apostou em mim no futebol de 11 no Madureira, falou-me dessa possibilidade, como ele ja tinha jogado cá, Jairo Francisco (jogou no União da Madeira e Estoril), mostrou-me essa possibilidade, mesmo a começar no Distrital, o caminho para chegar a sénior no America mg não estava fácil, mesmo com contrato profissional. Abracei a ideia de vir e começar do zero, no campeonato sénior de Portugal.

 

AMBIDESTRO – Que clube vieste representar?

Rafa Santos – Era para representar o Rebordosa do Distrital do Porto mas não chegamos a acordo, pensei em regressar ao Brasil mas fui para no Perolivense, que disputa o Distrital de Évora.

 

AMBIDESTRO – Estás na quinta época em Portugal. Passaste por clubes como o Quarteirense, Juventude de Évora e Águeda na época passada. Fala-nos um pouco desse percurso.

Rafa Santos – Estive no distrital durante dez jogos, no qual em Dezembro, logo na primeira semana de transferências, tive cinco proposta para sair, mas apenas uma para o Nacional que foi O Elvas , no qual, o meu primeiro treinador Pedro Canelas e um grande amigo Pedro Mata, me indicaram que, a equipa já estava muito abaixo na tabela classificativa e era correr atrás do prejuízo, mas não pensei duas vezes, queria ser visto em outras zonas e abracei o desafio, mesmo com o insucesso que já estava desenhado, consegui destacar-me e novamente com indicaçoes desse dois amigos, fui contratado pelo Quarteirense, onde fiz uma boa época desportiva mas o clube tinha muitos problemas internos e as coisas não andaram bem nesse sentido, no entanto, consegui fazer o meu papel. Na terceira época, regressei ao Alentejo para o Juventude de Évora, onde consegui fazer bons jogos mas o insucesso coletivo, estava a acompanhar-me novamente. Mas mais uma vez, consegui destacar-me e atingir o objetivo de ir para o Norte, onde fui contratado pelo Águeda.

 

AMBIDESTRO – Esta temporada, defendes a baliza de um clube histórico da cidade de Lisboa. Com o devido respeito pelos teus colegas, no meu entender, “chegaste, viste e venceste”, hoje és titular indiscutível no Oriental.

Rafa Santos – Foi um ano muito complicado, tive que regressar ao brasil no meio da época, perdi o meu avô e a minha avó, pessoas que me criaram juntamente com a minha mãe e isso, abalou-me psicologicamente. Não tive uma grande sequência de jogos como outros anos mas o pouco que joguei consegui mostrar o meu valor. Quando estava de férias na casa de um grande amigo Miguel Roque, cá em Lisboa, à espera de equipa, o mister Antonio Pereira, confiou no meu potencial e vim para o Oriental.

 

Rafa defende a baliza do Clube Oriental de Lisboa, onde conquistou a titularidade e justifica assim, a confiança que o “mister” António Pereira, lhe depositou, para reforçar o emblema de Marvila.

 

AMBIDESTRO – Como te defines como guarda-redes ?

Rafa Santos – Sou um guarda-redes que trabalha muito, humilde, sei as minhas virtudes e defeitos e procuro aprender todos os dias, tirar proveito de todas as situações boas ou menos boas.

 

AMBIDESTRO – Tens algum clube em Portugal que gostasses de representar ?

Rafa Santos – Não tenho clube de preferência, quero é trabalhar pra chegar ao mais alto nível.

 

AMBIDESTRO – Muitas vezes, a imprensa só valoriza quem marca e decide os jogos com golos e ignora quem entre os postes, também decide os jogos com defesas eximias que permite à equipa, capitalizar pontos. Qual a defesa que mais te marcou e porquê?

Rafa Santos – Na época passada, no jogo entre o Águeda X Tourizense (1-0), defendi dois penaltis, acredito que foi um grande momento, é o que me vem à cabeça agora. Como também, no encontro entre o Castrense e o Juventude (1-1), que voltei a defender dois penaltis, mas como em Águeda, saímos com a vitoria, foi mais saboroso.

 

AMBIDESTRO – Rafa vamos agora falar um pouco do futuro e das tuas ambições. Tendo em conta a tua experiência e maturidade, até onde pode ir o Rafa Santos ?

Rafa Santos – Não te consigo dizer até onde posso ir, porque sou movido a desafios e metas de curto prazo. Se hoje estou aqui, tenho metas para evoluir e quando eu concluir este desafio, vou criar novos objetivos, novas metas, e assim vou seguindo na vida.

 

AMBIDESTRO – Quais os teu objectivos para o futuro ?

Rafa Santos – Quero chegar o mais longe que eu puder.

 

AMBIDESTRO – Qual o teu maior sonho no futebol ?

Rafa Santos – Tenho o objetivo chegar ao mais alto nível no futebol, sonho em ser internacional novamente mas claro que, não posso sonhar com isso agora.

 

AMBIDESTRO – Passando agora para fora do âmbito das quatro linhas. Como é o teu dia a dia, durante a semana?

Rafa Santos – Treino de manhã no clube, ao final do dia, três vezes por semana, dou treino a miúdos, na escola João Santos e estou para entrar na escola de condução.


Pedia-te agora, umas respostas rápidas para os seguintes itens.

Perguntas tipo “grande penalidade”.

Prato favorito: Feijao preto, arroz, picanha e farofa

Música favorita: Pagode e samba em geral

Filmes favoritos: Não vejo muito filmes, mas quando paro para assistir, a preferencia são os de comédia, ação ou factos reais

Tempos livres: Estar com os amigos ou na internet falando com família, namorada e amigos que estão longe

Talento escondido: Cozinhar

Ídolo de infância: Não só da infância mas para sempre, a minha mãe, a minha maior fonte de inspiração

Treinador mais marcante: Felippe Fernandes (treinador de GR, que está sempre comigo)

Melhor guardião da atualidade: De Gea                    

Melhor guarda-redes que viste jogar: Marcos (ex Palmeiras), marcou-me muito no Mundial de 2002, o primeiro que assisti de verdade.


Rafa, foi um prazer. Tenho a certeza que o teu querer, aliado às tuas competências técnicas e pessoais, te vão fazer voar mais alto. Nunca percas o foco, da tua fonte de inspiração.

Em meu nome e em nome do AMBIDESTRO, votos das maiores felicidades desportivas e pessoais. Iremos certamente, acompanhar o teu percurso, na certeza porem de que, o destacaremos.

 

Guilherme Freire Coelho

Alfacinha apaixonado pela vida e dela, faz parte o futebol. Defendo-o como desporto, respeito-o pela vertente social e admiro-o como espectáculo. A bola, é mero instrumento para os artistas brilharem. Não escrevo sobre bola mas sim, sobre Futebol, sempre de forma transparente e com fair-play.

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