Portugal foi o país do mundo que mais arrecadou com transferências em junho. E não é por acaso

Se tem algo de que os portugueses não podem reclamar durante as janelas de transferências do futebol internacional é tédio. O país é, há anos, um mercado que está sempre no topo das listas de quem mais compra e vende jogadores em transações internacionais.

É o que mostram os relatórios disponibilizados pela FIFA/TMS, que levam em consideração apenas as transferências registradas no sistema computadorizado oficial da instituição para jogadores profissionais – utilizado por todos os clubes que disputam competições organizadas pela FIFA ou por suas associadas continentais como a UEFA.

E os dados para junho de 2017 não foram diferentes daqueles computados desde 2012. No último mês, os clubes portugueses venderam um total de 28 atletas para outras ligas – ou seja, estão excluídas daqui as transferências entre equipas de Portugal. O número coloca o país como o terceiro maior exportador do mundo.

Para além disso, foram US$ 77 milhões que entraram em Portugal com essas 28 transferências, o que coloca o país no topo do ranking mundial de arrecadação. Estes dados dão dicas importantes da estratégia nacional no mercado: ser o entreposto entre América do Sul, principalmente, e a Europa com um alto valor agregado.

O caso David Luiz

Existem centenas de exemplos recentes, e um deles é o do brasileiro David Luiz. Em 2007, o defensor jogava pelo Vitória – clube importante da Bahia mas que, àquela época, não passava por um bom momento e jogava pela terceira divisão do Brasileirão. O Benfica, tendo vendido o Ricardo Rocha aos ingleses do Tottenham, decidiu apostar no jovem brasileiro pagando € 1,5 milhão.

Quatro anos depois, em janeiro de 2011, David Luiz foi vendido ao também inglês Chelsea por € 25 milhões – uma valorização de mais de 1600%. É certo que nem todo o dinheiro terminou nos cofres da equipa lisboeta, mas serve como um bom exemplo para entender o padrão do mercado português.

Compra bem e vende melhor

Se os números de junho já chamam a atenção em Portugal, os números de julho são, em geral, muito mais vultosos. Faz sentido, visto que é o mês que grandes mercados europeus como o inglês abrem as inscrições de atletas comprados no exterior.

Vejamos o caso de 2016. Em julho daquele ano, Portugal não ficou nem entre os cinco países do mundo que mais venderam jogadores profissionais em quantidade. Vendeu pouco mas vendeu bem: foram US$ 204 milhões de dólares arrecadados – segunda maior quantia do planeta.

E os números anuais vão na mesma linha, mostrando que Portugal compra muito mas sabe revender aos vizinhos europeus. Ainda sobre 2016, Portugal foi o terceiro país que mais comprou atletas profissionais no mundo, 557 no total, atrás apenas de Brasil e Inglaterra (padrão que se repete ao longo dos anos). Embora foram muitas compras, os clubes portugueses souberam economizar, e o país foi apenas o sétimo no ranking mundial de gastos, desembolsando US$ 178,2 milhões.

Entre os 15 principais fluxos do mundo entre países em termos de dinheiro – e não de número de atletas – estão as vendas de Portugal para Alemanha, Inglaterra e Itália. Ou seja, embora a maior parte dos jogadores que deixam Portugal vão para o Brasil, os portugueses ganham dinheiro mesmo é na Europa. No total, o país arrecadou US$ 419,1 milhões, o que marca um lucro de US$ 240,8 milhões – o segundo maior do mundo, atrás da França.

Tendência histórica

Não foi em 2017 nem em 2016 que os clubes portugueses aprenderam a utilizar o mercado de transferências internacionais para ganhar dinheiro. As compras de jogadores profissionais acontecem em alto número e as vendas são relativamente menores, mas por valores muito mais altos.

Isso sem levar em consideração os jogadores juvenis que Portugal encontra ao redor do mundo e traz para desenvolver em suas ligas infantis – caso do ex-benfiquista recém vendido ao Manchester United Victor Lindelof.

A estratégia vem de antes. Em 2015 e 2014, o mercado português foi o que mais lucrou com as transferências internacionais no mundo. Foram US$ 354 milhões e US$ 289 milhões, respectivamente. Em 2016 a margem de lucro caiu porque foi um dos anos que Portugal mais gastou.

Algumas tendências se mantêm. O Brasil é o país com o qual os clubes portugueses mais gostam de negociar – a maioria das compras vêm de lá, e a maioria das saídas também. Vale ressaltar, contudo, que boa parte dos atletas que deixam Portugal e vão para o Brasil são brasileiros sem contrato – ou seja, os portugueses não ganham nada com isso.

Concorrência francesa

Mas há também mudanças recentes. A Espanha foi, por muito tempo, o maior comprador em termos financeiros dos clubes portugueses. Atualmente, os vizinhos ibéricos ficam atrás de ingleses, alemães e italianos.

Outra tendência que chama a atenção é o crescimento do mercado francês. Em 2014 o país foi apenas o quinto colocado no ranking mundial de lucro. Em 2016 se estabeleceu como o líder, comprando sobretudo atletas africanos para revendê-los na Europa.

Não se pode saber, contudo, se os franceses irão manter a estratégia em 2017. Os indicadores de junho dão a entender que não: a França foi o terceiro país que mais gastou no mundo, com um total de US$ 15,2 milhões, mas não entrou nos cinco que mais venderam.

Rafael Almeida

Rafael é brasileiro e acompanha futebol há tanto tempo que nem se lembra. Se interessa também pela política do esporte e pelas suas dimensões socio-culturais. É formado em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo e atualmente estuda jornalismo, sendo também parte da equipe de um jornal digital no Brasil, onde escreve sobre política internacional.

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