O Brasileirão 2017 é o retrato da nova geração de treinadores no país

Um dos maiores atacantes da história do futebol, sem saber, entrava em campo para o que seria o último jogo internacional de sua carreira. Ao mesmo tempo, um dos maiores treinadores do futebol mundial na atualidade – na época um profissional com altos e baixos na carreira – ocupava sua área técnica para comandar um dos maiores vexames da história do Corinthians.

Era noite do dia 2 de fevereiro de 2011, quarta-feira de Libertadores da América, o torneio mais desejado pelos sul-americanos. O Corinthians, com quatro títulos brasileiros e um mundial de clubes em sua história, ainda buscava sua primeira taça continental. Era o único grande time de São Paulo sem uma Libertadores, e essa marca representava uma das maiores feridas no orgulho de sua torcida.

O elenco montado para a disputa do torneio internacional era um misto de renovação e experiência. À frente de todos, Ronaldo, também conhecido como Fenômeno, se preparava para a aposentadoria e tinha a última chance da carreira de vencer uma competição continental. Mesmo com toda sua história na Europa, a Liga dos Campeões ficou por conquistar.

Além da estrela, alguns outros bons atletas começavam a ganhar espaço no clube com a segunda maior torcida do Brasil. Entre eles estavam o volante Paulinho, que anos mais tarde seria vendido para o Tottenham; o zagueiro Leandro Castán, que iria para a Roma; e Jucilei, mais tarde vendido para o Anzhi, da Rússia. No banco de reservas, estava o recém-contratado Bruno César, que depois ganharia espaço no Sporting, de Portugal.

No comando, Adenor Leonardo Bacchi: o Tite. O treinador estava em sua segunda passagem pelo alvinegro paulista, e não contava com grande confiança da torcida, embora tivera sido contratado no final da temporada anterior e arrumado uma equipe em decadência, conquistando o terceiro lugar nacional e a vaga na repescagem da Libertadores.

O primeiro jogo contra o desconhecido clube colombiano Tolima, no Estádio do Pacaembu uma semana antes, em São Paulo, foi um dos jogos de futebol mais sem graça que aquele campo já sediou. Um 0-0 modorrento, que equiparou um time grande sem vontade e outro pequeno sem qualidade. Era óbvio que o Corinthians jogaria melhor na Colômbia e conquistaria a vaga na fase de grupos do torneio – nunca um time brasileiro havia falhado nessa missão.

Tite conversa com Danilo em treino do Corinthians de 2012

Não foi bem o que aconteceu. No dia 2 de fevereiro de 2011, o Corinthians perdeu por 2-0 para o Tolima, acabou eliminado da Libertadores e a saga pelo título continental acabava outra vez em decepção e vergonha. Ronaldo se aposentou dias depois alegando não ter mais condições físicas de jogo – o que já era claro havia alguns meses – e se tornou embaixador do clube onde é ídolo.

Na volta para São Paulo, o time foi recebido pela própria torcida com pedradas e pauladas no ônibus que chegava ao centro de treinamentos. A demissão de Tite era dada como certa. Mas o então presidente do clube Andrés Sanchez, bastante popular entre os torcedores, decidiu por manter o técnico no cargo e declarar apoio ao comandante na imprensa.

O tiro foi certeiro. O Corinthians se reergueu em 2011, conseguiu um vice-campeonato Paulista e o título do Campeonato Brasileiro ao fim do ano. Em 2012, o treinador ainda foi responsável pelo melhor ano da história do clube ao conquistar a tão desejada Taça Libertadores de forma invicta e batendo o temido Boca Juniors na decisão. O ano ainda foi coroado com o título do Mundial de Clubes, com uma vitória sobre o Chelsea por 1-0.

Tite entrou definitivamente para a história do Corinthians, e se transformou em um caso raríssimo de treinador ídolo de uma torcida brasileira. O país, acostumado a trocas constantes de técnicos em grandes clubes, e onde dificilmente um treinador consegue se manter por mais de uma temporada em um mesmo time, tinha a prova final de que a escolha pela permanência de um treinador em crise resultou em títulos no longo prazo.

Um novo modelo de treinador brasileiro

Tite em jogo da Seleção Brasileira

O caso de Tite se transformou em exemplo para qualquer outra equipe brasileira. Em um processo que demanda tempo, mas vem acontecendo nos últimos anos, os cartolas entenderam que trocar de treinador a cada sequência de derrotas não faz time campeão. Entenderam também que é preciso criar uma linha de trabalho e apostar em técnicos que se prepararam para a profissão.

Os próprios treinadores, sejam novos ou experientes, também entenderam que dificilmente conseguirão sobreviver no mercado de trabalho sem estudar para isso. O “período de reciclagem” para velhos nomes virou palavra de ordem, assim como os “estágios” na Europa para os jovens que querem começar na profissão.

O Brasil vai, pouco a pouco, abandonando a crença de que velhos figurões podem fazer milagre só com o nome. E passou a investir em novos nomes, com novas ideias.

O Brasileirão 2017 aparece, nesse sentido, como o ápice desse movimento inspirado, em grande parte, por Tite. O treinador, por sua vez, hoje colhe os frutos de seus bons trabalhos à frente do Corinthians e dirige a Seleção Brasileira, sonho que nunca fez questão de esconder. Assumiu a amarelinha em crise e com riscos de ficar, pela primeira vez, fora de uma Copa do Mundo. Em oito jogos, fez dela o primeiro time classificado para o torneio da Rússia em 2018.

A renovação em números

Jair Ventura, do Botafogo, é o treinador mais jovem da Série A

Para um torcedor mais desavisado, não é difícil ligar a televisão para um jogo da Série A do Brasileirão sem dar de cara com um treinador desconhecido à beira do campo.

Na décima rodada do torneio, são quatro comandantes que disputam a Série A pela primeira vez em suas carreiras – Jair Ventura, do Botafogo, Pachequinho, do Coritiba, Fábio Carille, do Corinthians e Rogério Ceni, do São Paulo.

À exceção de Jair Ventura, que iniciou a carreira em 2016, os outros três vivem também a primeira temporada de suas vidas como treinador efetivo de uma equipe profissional. Pachequinho e Carille já haviam assumido equipes em anos anteriores, mas sempre de forma interina.

Nove dos 20 treinadores não possuem mais de cinco anos de carreira, sendo que a média de experiência entre todos eles é de 12 anos.

A média de idade em 2017 é de 49 anos. Isso porque alguns dos mais experientes ajudam a elevar esse número de forma importante. Vanderlei Luxemburgo, do Sport, Levir Culpi, do Santos, e Abel Braga, do Fluminense, são os únicos sexagenários, enquanto Jair Ventura é o caçula, com 39 anos.

Espaços de responsabilidade

Fábio Carille, do Corinthians, vive seu primeiro ano como treinador efetivo

Os novos profissionais vêm em massa e sem medo de responsabilidade. Pelo contrário, nota-se que alguns dos maiores clubes do Brasil, e consequentemente onde os treinadores mais sofrem pressão por resultados e títulos, são exatamente os que apostam em alguns dos nomes mais jovens do campeonato.

Não há exemplo melhor que Flamengo e Corinthians, as duas maiores torcidas do país. Os cariocas são comandados por Zé Ricardo, que vive apenas sua segunda temporada como treinador efetivo de um time de futebol profissional – começou exatamente no Flamengo, em 2016.

Embora tenha passado por momentos de instabilidade e tenha lido especulações sobre uma possível demissão desde que assumiu a equipe, Zé Ricardo pode dizer também que acumula mais elogios que críticas nessa empreitada.

Alguns quilômetros mais ao sul, em São Paulo, Fábio Carille surge como a grande surpresa entre os treinadores brasileiros em 2017. Ele já havia comandado o Corinthians em episódios aleatórios nos últimos anos, mas nunca como o titular no cargo.

Em 2016, Carille teve sua efetivação cogitada após a saída de Tite para a Seleção Brasileira e a conquista de alguns bons resultados, mas acabou sendo substituído pela contratação de Cristóvão Borges – escolha que se mostrou fracassada meses depois.

O clube decidiu, ao fim da temporada passada, que Carille seria o nome para 2017, e deu espaço para o antigo assistente de Tite planejar com calma o que seria sua primeira temporada como treinador efetivo do clube. Há oito anos na equipe como parte da comissão técnica, Carille tem experiência de sobra: viveu dois títulos brasileiros, um da Libertadores e um Mundial.

A vivência parece ter formado um bom treinador. Sem ser muito midiático e com discurso paciente, Carille comanda o atual líder do Brasileirão, e acumula apenas duas derrotas em toda a temporada.

Instabilidade no cargo

Rogério Ceni fala com seu time em jogo no Morumbi, em São Paulo

A média de idade dos treinadores do Brasileirão na décima rodada é um pouco mais alta do que no início do torneio, e reflete uma fórmula ainda em vigor no futebol do país. Os dois profissionais mais velhos do campeonato – Levir Culpi e Vanderlei Luxemburgo – foram contratados com o torneio já em andamento, substituindo dois dos três únicos treinadores demitidos até agora – Dorival Júnior e Ney Franco, respectivamente.

Os dois nomes que perderam o cargo por decisão das diretorias tampouco são figuras novas no futebol brasileiro, embora sejam menos experientes que seus substitutos. O outro demitido, Nelson Cabo do Atlético-GO, foi o único a ser substituído por um treinador mais jovem – Doriva, cinco anos mais novo.

Os casos de Culpi e Luxemburgo são amostras de um costume antigo no Brasil. Se tudo vai mal, o treinador é demitido e substituído por outro nome conhecido e experiente, em uma tentativa de demonstrar segurança para a torcida e o elenco.

Foram três demissões em dez rodadas, em uma média de um caso a cada três jornadas. Outros três treinadores deixaram seus cargos, mas em processos ou de retirada consensuada ou de troca de clube. Nenhum se demitiu.

É a menor média de demissões ou substituição de treinadores desde 2009. O ano recente mais crítico foi em 2010, com 29 quedas de técnicos em 38 rodadas, ou seja, mais de uma demissão a cada duas rodadas.

Paciência com os jovens

Roger Machado, treinador do Atlético-MG

O caso do Atlético-MG chama a atenção. Com um dos elencos mais caros do país, o clube amarga uma 16ª posição, a primeira fora da zona de rebaixamento, e vê as chances de título cada vez mais longe. Ainda assim, seu treinador – o jovem Roger Machado, de 42 anos e em sua quarta temporada como treinador profissional – vive em relativa estabilidade e não corre risco no cargo.

Além dele, Rogério Ceni é outro que não teve dias fáceis desde que iniciou a carreira, no início da temporada. Embora seu primeiro ato como técnico profissional tenha sido a conquista o título simbólico da Florida Cup, torneio amistoso de pré-temporada disputado nos Estados Unidos, o ex-goleiro e ídolo maior da história do clube encontrou um cenário mais difícil ao voltar para o Brasil.

Foi eliminado do Campeonato Paulista pelo arquirrival Corinthians, de quem não conseguiu ganhar nenhum jogo desde que virou treinador, embora já tenha disputado quatro partidas contra os alvinegros. Caiu também na Copa do Brasil e na Copa Sulamericana com derrotas em casa, e convive com uma campanha instável no Brasileirão, sem conseguir vencer fora de casa.

Para piorar, Ceni ainda vê seu elenco ser desmanchado com vendas de jovens promessas para a Europa, e embora conte com ampla paciência da diretoria e da torcida pelo que fez em seus tempos de jogador, teve por diversas vezes sua decisão de virar treinador de um ano para o outro questionada diversas vezes em seis meses no cargo. Apesar disso, ainda se mantém com relativa zona de conforto no clube.

As diretorias brasileiras parecem ter entendido o que a imprensa e os fatos já mostram há alguns anos. Trocas constantes de treinador e sem um objetivo claro são o primeiro passo para uma temporada fracassada, além de comprometer as finanças do clube, que acaba gastando quantias desnecessárias com multas por quebra de contrato.

O novo quadro vem em boa hora, e cria um ambiente de maior estabilidade para os jovens treinadores que começam a ocupar os espaços no principal esporte do país.

Rafael Almeida

Rafael é brasileiro e acompanha futebol há tanto tempo que nem se lembra. Se interessa também pela política do esporte e pelas suas dimensões socio-culturais. É formado em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo e atualmente estuda jornalismo, sendo também parte da equipe de um jornal digital no Brasil, onde escreve sobre política internacional.

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