Aston Villa – A queda de um clube histórico

Os sinais estavam todos lá. A insatisfação dos fãs, a perda de identidade, a fraca receita doméstica e, sobretudo, os resultados desportivos antecipavam um futuro nefasto para um dos clubes fundadores da Barclays Premier League e que conquistou a Taça dos Campeões Europeus na mítica final de Roterdão, contra o Bayern Munique, em 1982.

Contudo, em vez de apostar num cenário de mudança, o clube foi-se deixando arrastar para as areias movediças dos últimos lugares na tabela e nem os próprios jogadores pareciam importar-se com isso. Em jeito de contextualização, a última época “boa” dos Villains foi em 2009/10, com o clube de Birmingham a alcançar o sexto lugar na tabela classificativa e a repetir a presença nas competições europeias pelo quarto ano consecutivo. Na época seguinte, fez apenas 48 pontos e ficou em nono lugar. Nada de alarmante. Acontece aos melhores, pensaram muitos.

Só que os anos foram passando e a situação foi piorando cada vez mais: 16º, 15º, 15º. A 11 de Fevereiro de 2015, acabava o casamento penoso com o treinador escocês Paul Lambert que deixava assim o clube afundado na linha de descida para a segunda divisão inglesa e sem marcar um golo há mais de 612 minutos. Arranjar um substituto que tentasse rumar contra a maré não era tarefa fácil, mas, surpreendentemente, a equipa de accionistas (liderada pelo ex-presidente Randy Lerner) escolheu o jovem Tim Sherwood (com uma passagem atribulada pelo Tottenham) para tentar mudar o rumo dos acontecimentos. Em jeito de milagre, o “Tactics Tim” – como viria a ficar conhecido nas bancadas do Villa Park – conseguiu uma série de resultados impressionantes (2-0 ao rivais West Bromwich Albion, 4-0 ao Sunderland, 0-1 contra o Tottenham, 2-1 contra o Liverpool na meia final da F.A Cup) e levou o clube à final da Taça de Inglaterra pela primeira vez desde 2000, onde viria a perder 4-0 contra o Arsenal.

Os adeptos começavam a perder a paciência.

A descida de divisão

Quando tudo parecia estar a encaminhar-se para o rumo certo, eis que, à boa moda literária, tudo corre mal e sem razão aparente. A janela de transferências em 2015-2016 apostou fortemente no talento de alguns jogadores franceses (com destaque para o lateral-esquerdo Jordan Amavi), o início da época foi promissor (com uma vitória no terreno do recém-promovido Bornemouth), mas um simples evento desencadeou um autêntico efeito borboleta. A 13 de Setembro de 2015, os Villains perdiam, em apenas dezoito minutos, uma vantagem preciosa de duas bolas a zero no terreno do Leicester. Em cima do apito final, a equipa da casa viria mesmo a fazer o 3-2 e a deixar Tim Sherwood num turbilhão de emoções. Em Outubro, após várias experiências táticas, o clube tinha oito derrotas em dez jogos. A paciência do presidente esgotou-se e o salvador da época transacta saía pela porta pequena. Rémi Garde, ex-treinador do Lyon, foi o apontado ao lugar, mas, honestamente ninguém reparou nisso. A passagem pelo clube foi semelhante a um fantasma, tal era a falta de carisma do técnico francês. A 16 de Abril de 2016, já com Eric Black no comando, a época transformou-se num filme de terror, com a primeira descida de divisão na atual edição da Premier League, desde a fundação em 1992.

A penosa aventura na Championship

Tony Xia, o atual presidente dos Villains.

Abatia-se uma nuvem negra sob as bancadas do Villa Park. Era necessária uma mudança. E pela primeira vez em vários anos, o clube reagiu. Apesar de ser o segundo escalão do futebol inglês, a estrutura técnica percebeu que se não tomasse uma posição, rapidamente poderia bater ainda mais no fundo. Em Junho, o clube foi comprado pelo empresário chinês Tony Xia após uma negociação de 76 milhões de euros, que assumiu imediatamente a presidência. De seguida, várias figuras históricas voltaram a estrutura do clube, desenvolveu-se um enorme processo de marketing para “limpar” a imagem dos últimos anos e que marcava o início de uma nova era sob a liderança do treinador Roberto Di Matteo. Como esperado, a primeira época na Championship foi uma autêntica montanha-russa para um clube que tem sete títulos da primeira divisão (mais que o Chelsea) e que ainda está a tentar recuperar o prestígio que detinha no futebol inglês na década de 70.

Com doze jogos disputados, o Aston Villa tinha apenas uma vitória (3-0 ao Rotterham United), duas derrotas e sete empates – sendo que em cinco destes embates, o clube sofria sempre um golo nos últimos minutos da partida. Não havia explicação possível para esta situação. Chegou mesmo a pensar-se que o clube estaria amaldiçoado, tal era a imprevisibilidade de acontecimentos na reta final dos jogos. Os jogadores comandados por Roberto Di Matteo podiam dominar o jogo todo, falhar várias oportunidades e sofriam sempre uma “paragem cerebral” que deitava todo o esforço por terra. Tony Xia perdeu a paciência com a estrutura técnica e deixou um aviso claro aos jogadores. Era necessário mais esforço e dedicação. Tinham de suar e sentir o peso da camisola.

Steve Bruce tem muito trabalho pela frente.

O homem responsável para fazer passar esta mensagem para o balneário foi Steve Bruce (ex-defesa central do Manchester United entre 1987 e 1996), que chegava assim ao comando técnico da equipa em Outubro e com o clube afundado em 19º. O recorde positivo e a atitude aguerrida das equipas comandadas pelo técnico inglês, tornava esta decisão numa aposta acertada. O efeito foi imediato. O clube conseguia quatro vitórias em seis partidas – incluindo uma vitória fora frente ao Reading (1-2) – com um golo já nos descontos e que marcava o ponto final num ciclo negativo em jogos fora que durava à catorze meses! – e até ao final da primeira volta conseguiu subir rapidamente para o nono lugar da tabela classificativa.

Na janela de inverno, o clube assumiu a aposta nos playoffs de subida e foi a equipa que mais se mexeu no mercado de transferências, com a aquisição de vários jogadores provenientes do segundo escalão inglês, como os médios-centro Conor Hourihane, Lansbury e o lateral direito James Bree. Esta foi também a oportunidade perfeita para Steve Bruce começar a moldar a equipa à sua imagem e para “varrer” o plantel de uma ponta à outra, com a saída de vários nomes que estavam no clube desde a descida de divisão em 2016.

Apesar do espírito de esperança no Villa Park, as coisas rapidamente deram para o torto. Todos esperavam um início de uma segunda volta que colocasse a equipa na corrida para a subida de divisão, mas os resultados ditavam o contrário. Afinal de contas, e ao contrário do que muitos pensam, a Championship é um percurso duro (com 46 jogos!) e um dos campeonatos mais imprevisíveis do mundo para qualquer conjunto. De 24 pontos possíveis, o clube conseguiu apenas um e o cenário de mudança de treinador voltou a pairar sob a mente dos adeptos. As derrotas eram demasiado humilhantes e até o fator casa foi perdido, com uma derrota contra o Ipswich Town a 11 de Fevereiro – o Aston Villa era o único clube da liga, até à data, sem derrotas dentro de portas.

Com o cargo em risco, Steve Bruce sentiu que precisava de experimentar outra abordagem para evitar a descida para a terceira divisão. O processo foi penoso, mas após uma série de sete vitórias em oito jogos, o clube estava novamente estabilizado no meio da tabela (13º). Até ao final do campeonato, e sem qualquer meta para atingir, o percurso foi novamente atribulado e terminou a 7 de maio com um empate a uma bola no Villa Park diante do Brighton & Hove Albion – que, curiosamente, retirou o título aos forasteiros já nos últimos minutos, com um golo fortuito de Grealish, que enviou o troféu de campeão para o St. James Park.

O que se pode retirar desta primeira aventura no segundo escalão? Para já, existe uma palavra que, por enquanto, não aparece no dicionário dos Villains e precisa de ser aprimorada – “Consistência”. Como já foi referido anteriormente, a Championship é um autêntico inferno para qualquer equipa e com tantos jogos disputados, sobem apenas aqueles que têm muita sorte (veja-se o caso do quinto classificado Huddersfield que conseguiu a ascensão para o Olimpo, vulgo Premier League, de forma dramática após grandes penalidades) e que são consistentes ao longo de toda a campanha. É normal perder alguns pontos aqui e ali, mas a chave do sucesso passa por ter uma equipa muito dinâmica no ataque e que não comprometa nos momentos finais das partidas. Em suma, um estilo de jogo e identidade bem definida, coisa que Steve Bruce ainda não conseguiu implementar no Villa Park, com a equipa a jogar muitas vezes em passe longo e defesa recuada e, por vezes, a encostar os adversários às cordas com uma pressão asfixiante no miolo, em terrenos historicamente complicados. São também necessárias várias contratações cirúrgicas para cada uma das posições (principalmente no setor defensivo) e tentar manter o grupo unido e fora de confusões (já ninguém sabe ao certo quantas vezes é que o extremo inglês Jack Grealish foi castigado) para todos alcançarem a tão cobiçada subida de divisão.

A próxima campanha tem tudo para ser mais fácil. A fase de transição já passou, a liga está aparentemente mais fraca (após a subida do Newcastle e do Brighton) e, no papel, a luta da subida deverá ser entre o Leeds, Fulham, Norwich e Reading . Contudo, a recente movimentação do Wolverhampton no mercado de transferências, o habitual intruso Sheffield Wednesday e os recém-despromovidos Hull City e Sunderland também vão, a dada altura da época, entrar nas contas para a promoção para o primeiro escalão.

Contrariamente à opinião de muitos adeptos, penso que o ideal seria ficar na Championship mais um ou dois anos, formar um projeto coeso e que dê garantias de manutenção na Premier League. É uma opinião controversa, mas é preferível ir estabelecendo uma meta a longo prazo do que subir e descer logo na época seguinte, como acontece à maior parte dos clubes ingleses. Manter o treinador, criar uma identidade, e acima, de tudo, alcançar muitas vitórias para subir a moral da equipa. Se tudo correr bem, quem sabe se não teremos novamente o Aston Villa a lutar por uma competição europeia nos próximos quinze anos.

P.S – O ponto alto desta época foi claramente um jogador chamado Jonathan Kodjia. Este avançado costa-marfinense, nascido em 1989, foi o abono de família dos Villains. Chegou a Birmingham, após uma transferência de 15 milhões de euros, e rapidamente se tornou num fan favourite. Atlético, carismático e dotado com uma boa capacidade de finalização, numa questão de meses assumiu-se como um dos jogadores mais promissores da Championship com 19 finalizações certeiras, de todas as formas e feitios, em 36 jogos disputados.

 

André Vieira

23. Apaixonado por desporto, cinema e televisão. Ex jornalista-estagiário da NiT (New in Town) e ex colaborador do Espalha-Factos (secção de cinema). Licenciado em Ciências da Comunicação (Jornalismo) na FCSH. Twitter: @andre_vieira94

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