Portugal, a fábrica de treinadores…mal-aproveitada(?)

Apesar das poucas notícias (relevantes) que têm surgido do universo futebolístico nos últimos dias, dada a situação extraordinária que se vive, uma em particular cativou a minha atenção recentemente. Entre os muitos rumores de que o mercado já foi alvo, noticiou-se esta semana que Pedro Martins, atual treinador do Olympiacos, campeão grego em título, estará, alegadamente, na mira dos russos do Lokomotiv de Moscovo. É, de resto, mais uma prova do bom trabalho que o mister tem vindo a realizar em Piraeus e foi também aí, precisamente, que se centrou a minha atenção: no sucesso.

Nos últimos anos, tem-se notado uma crescente atenção aos treinadores portugueses no estrangeiro, sinal, precisamente, do tal sucesso obtido pelos mesmos. Não querendo tornar isto numa exposição estatística, queria apenas realçar alguns nomes, como o de Abel Ferreira, treinador que, à semelhança de Pedro Martins, tem dominado o futebol grego (entre melhor ataque, maior número de vitórias e maior número de jogos sem perder, ambos surgem como claros líderes no campeonato helénico). Luís Castro foi outro que, chegando a Donetsk, conquistou a Ucrânia num abrir e fechar de olhos, ao serviço do Shakhtar (venceu a fase regular categoricamente e lidera, de momento, o play-off de campeão, 13 pontos adiante do segundo classificado, somando a isto os títulos de melhor ataque, maior registo vitorioso e maior período de invencibilidade consecutivo). Poderia continuar a enumerar muitos outros. Desde Jorge Jesus no Brasil a Nuno Espírito Santo e Mourinho em Inglaterra, passando ainda por André Vilas Boas em França ou até Paulo Fonseca em Itália, muitos são os lusos a trabalhar no estrangeiro e muito bons são os indícios que têm deixado nos respetivos clubes, além da boa imagem que transmitem do nosso país, no que toca a futebol.

Com isto, penso que fica bem patente que Portugal se trata, atualmente, de uma autêntica “mina de ouro” a nível de treinadores, algo de que vários clubes estrangeiros, na Europa e não só, se têm aproveitado e muito (os resultados estão à vista), mas será que o mesmo se pode dizer dos próprios treinadores?

A meu ver, ainda há muito “talento desperdiçado” no que toca aos técnicos portugueses, e por culpa dos próprios. Logicamente que a realidade financeira dos nossos clubes (com a exceção de três) se encontra desproporcionadamente distante da das grandes ligas europeias, o que também acaba por motivar a saída quer de treinadores, quer de jogadores, no entanto muitos acabam por rumar a ligas de menor estatuto, buscando, não tanto bons campeonatos, mas antes bons ordenados, desperdiçando lugares de maior prestígio em outras ligas mais emblemáticas.

Assim, sendo sabido o potencial que Portugal tem ao nível das equipas técnicas, para quê, pergunto eu, “hipotecar” uma carreira de sucesso, contentando-se apenas com um cheque chorudo no fim do mês? Falo de casos como os de Vítor Pereira, que levou o FC Porto ao tricampeonato em 2013 (atualmente na China), Pedro Emanuel, que conquistou a Taça de Portugal pela Académica, 73 anos depois do último troféu dos estudantes (de momento nos Emirados Árabes Unidos), entre outros que, apesar de ainda não tão bem sucedidos, “desperdiçam” os primeiros anos de carreira em ligas com pouca visibilidade para os grandes palcos, como são os casos de Vítor Campelos (44 anos) e de Jorge Simão (43 anos), ambos na Arábia Saudita. Se não conseguem (de momento, pelo menos) alcançar patamares superiores no futebol, porque não potenciarem-se e potenciarem clubes menos bem sucedidos aqui mesmo, no nosso país, em vez de irem para o Oriente contentar-se com “pouco”? A culpa é, maioritariamente, dos treinadores, mas convenhamos que muitos clubes portugueses parecem, do mesmo modo, não querer chegar-se à frente neste sentido, ou não estaria um Leonardo Jardim sem clube enquanto escrevo (falar é fácil, claro, mas o exemplo aplica-se, ainda que num certo tom de exagero).

Olhemos mais para exemplos como o de Carlos Carvalhal que, após o insucesso em Inglaterra (apenas a liga mais competitiva do mundo), deu um paço atrás para vir treinar o Rio Ave FC a Vila do Conde, agora em vias de conquistar um lugar europeu para a próxima época.

Portugal é, nos dias que correm, uma fábrica de treinadores com as máquinas muito bem oleadas, mas de nada serve nascer em berço de ouro para depois não se dar seguimento ao potencial.

 

Imagem: GettyImages

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.