A inteligência de Bosingwa na Champions do Chelsea

Dia 24 de abril de 2012. 2ª mão das meias finais da Liga dos Campeões. Camp Nou. Barcelona vs Chelsea.

Após uma primeira mão cheia de emoção, em que o Chelsea tinha vencido em Inglaterra com um golo solitário de Didier Drogba, jogava-se em Espanha aquele que iria ser o jogo decisivo.

Os da casa iniciavam o jogo com Victor Valdés, Gerard Piqué, Carles Puyol, Javier Mascherano, Sergio Busquets, Cesc Fàbregas, Xavi, Andrés Iniesta, Lionel Messi, Isaac Cuenca e Alexis Sánchez, enquanto os Blues começaram com Petr Cech, Branislav Ivanovic, Gary Cahill, John Terry, Ahsley Cole, Obi Mikel, Juan Mata, Ramires, Frank Lampard, Raul Meireles e Didier Drogba.

O português José Bosingwa, jogador que é o principal protagonista deste artigo, neste jogo iniciou a partida no banco, mas passou lá pouco tempo.

A equipa de Londres atuava num 4-3-3, com a defesa composta por Ivanovic na ala direita, Cahill e Terry no centro e Ashley Cole no flanco esquerdo, até que aos 12 minutos de jogo, o central inglês Gary Cahill lesiona-se e entra o português Bosingwa para o seu lugar. Posto isto, o italiano Roberto Di Matteo põe o lateral português na direita e puxa Ivanovic para o centro de forma a ser o novo par de John Terry.

O jogo foi se desenrolando, o Barcelona demonstrou a sua superioridade e fez o 1-0 por Sergio Busquets e apenas dois minutos depois, John Terry é expulso, após agredir Alexis Sánchez. Com um a mais o Barça tinha tudo para passar e aos 44 minutos fez o 2-0, complicando, aparentemente, a tarefa dos Blues. Ainda antes do arbitro apitar para o intervalo, num contra ataque que pouco ou nada tinha de promissor, Ramires consegue fazer um chapéu magistral a Victor Valdés, relançando de novo a eliminatória.

Contudo, foi no balneário que a magia aconteceu. Dentro das quatro paredes, Di Matteo  tentava organizar a equipa de forma a manter o resultado que daria a passagem à final. “Obi Mikel, tu vais baixar para central” disse Di Matteo. Recorde-se que Obi Mikel era um médio defensivo, alto e forte. “Não mister, eu jogo a central” impôs Bosingwa. O treinador italiano pensou um pouco e negou a hipótese ao português. Para a posição de central, normalmente quer se um jogador alto, possante e forte no jogo aéreo, requisitos facilmente cumpridos para Obi Mikel, enquanto Bosingwa, mais baixo e mais magro certamente não seria o melhor para cumprir esta função. Certamente, foi isto que pensou Di Matteo.

“Eu vou jogar a central, passas o Ramires para defesa direito, o Kalou baixa e deixamos o Drogba sozinho lá na frente e assim vamos aguentar. Olha para a equipa do Barcelona… Messi, Alexis Sánchez, Cuenca e ainda o Pedro no banco. São todos baixos… O foco deles é o jogo interior e se jogarmos com o Obi Mikel vão nos matar, porque ele é muito forte no jogo frontal, mas tudo o que é jogo lateralizado é mais complicado para ele. Eu vou jogar. Sou rápido e penso rápido. Eu vou jogar”. Di Matteo pensou melhor e aceitou.

O jogo recomeçou e logo aos 49 minutos, Drogba faz falta dentro da grande área sobre Fàbregas e Lionel Messi, da marca dos 11 metros atira ao poste e desperdiça esta oportunidade de ouro para os espanhóis.

A partida continuava e alugava-se metade do campo de Camp Nou, pois o Chelsea não saía do seu meio campo; contudo, o Barça não conseguia criar grandes oportunidades de golo, devido ao bloco baixo e compacto dos londrinos, mas quando criava, estava lá o lendário guarda-redes checo para negar tudo aos blaugrana.

Depois, o fim da história você já conhece, Torres entra para o lugar de Drogba aos 80 minutos e aos 90+2, sozinho contra Valdés, toca para o lado e finaliza. Em conversa com Luís Freitas Lobo, no podcast Planeta do Futebol, Bosingwa recorda de forma alegre esse feliz episódio da sua carreira em que deu a sua opinião e convenceu Di Matteo a jogar a central, algo que com o decorrer do jogo se revelou bastante benéfico para os londrinos.

Não fosse a inteligência do polivalente jogador português e a Champions League poderia não estar no museu do Chelsea. Já dizia Andrea Pirlo “O futebol joga-se com a cabeça, os teus pés são só as ferramentas”. E Bosingwa parece ser a personificação dessa frase. Com a sua velocidade de pensamento, apesar de não ser o mais forte ou o mais alto, era dos que melhor lia e percebia o jogo e, com isso, ganhava a vantagem que precisava para vencer os duelos sobre os seus adversários.

Alexandre Ribeiro

Nascido e criado na ilha Terceira, nascido e criado para o futebol. Desde cedo aprendi, vivi e vibrei com o desporto rei. A licenciar-me em Ciências da Comunicação na FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Com o futebol e a escrita espero proporcionar um espectáculo fora das 4 linhas para todos aqueles que partilhem o gosto pela bola e pelos seus artistas.