Covid-19 faz mais uma vítima: o futebol

Têm sido semanas atípicas um pouco por todo o mundo, ultimamente. Enquanto que a crise do CoronaVirus (agora designado de Covid-19) já se encontra há alguns meses a fazer a vida negra a Chineses e companhia, o Ocidente, nomeadamente a Europa, apenas mais recentemente se viu obrigado a “abrir a pestana” no que toca a este assunto, sendo Portugal um dos mais recentes casos disso mesmo.

Tudo o que a vida quotidiana abrange, desde a mais complexa à mais básica das tarefas, parece estar, gradualmente, a ficar afetada por este surto epidémico. Com isto, não foi de estranhar que, mais tarde ou mais cedo, as mesmas medidas de contenção começassem a ser aplicadas ao mundo do futebol.

Seria, portanto, inevitável também que, a dada altura, alguém pegasse neste tema aqui no AMBIDESTRO. Calhou-me a mim a “sorte grande”, pois bem. Com isto, poderia começar aqui a tecer todo o tipo de críticas a meio mundo, começando pelos governos e respetivas faltas de resposta, passando pelos meios de comunicação social e pelo pânico exagerado que geraram e terminando na falta de cuidado e até de noção de algumas populações no que toca ao respeito pelas medidas de prevenção propostas. Poderia escrever toda uma tese de mestrado sobre estes assuntos, mas para tal já bastam jornalistas, políticos e as bocas do povo. Centro, por isto, esta breve reflexão…diria mais desabafo…na razão pela qual aqui chegaram em primeiro lugar: o desporto rei e a forma como esta situação o está a afetar.

Como bom adepto da bola, não poderia começar sem fazer outra coisa que não criticar. Começo, portanto, por questionar o porquê de os jogadores não se cumprimentarem antes do apito inicial, na entrada para o relvado. Se o desporto fosse ténis, ainda compreendia, mas, numa modalidade em que comemos da mesma relva e partilhamos do mesmo suor que o adversário, acho estranho abdicar de um dos poucos momentos em que ainda se consegue assistir a algum respeito entre os oponentes (dependendo das equipas envolvidas). Se o principal objetivo é conter o vírus entre jogadores, caros superiores da UEFA, não é com canja de galinha e bagaço que vamos lá.

Em segundo lugar, e mais importante que tudo, a meu ver, surge a questão dos jogos à porta fechada. Se acho que deve haver adeptos nas bancadas nesta altura? Não, não acho. É de evitar concentrações de gente em número elevado até que se consiga saber mais sobre o comportamento desta estirpe (a menos que seja para ir a Carcavelos apanhar Sol e tomar banho). Acho sim que os dirigentes máximos do futebol devem colocar a si mesmos a seguinte questão: sem adeptos, de que serve jogar à bola a este nível? Tudo bem que há calendários a cumprir. Tudo bem que há muito dinheiro envolvido e cancelar jogos a torto e a direito nesta altura poderia significar uma enorme quebra no mercado. Estou perfeitamente ciente das principais consequências que uma decisão desta magnitude implicaria, mas, não se tratando de um ou outro caso pontual apenas, de que serve manter toda uma competição em andamento com estádios “às moscas” e num regime que nos impede inclusive de nos juntarmos com outros para assistir aos eventos? O futebol, mais que não seja, é um evento de massas, um evento social, um evento de convívio e de partilha de uma paixão comum. Assim, se lhe tiram esta essência, quem fica a ganhar senão as minorias que acabam a “meter ao bolso” as receitas? Pessoalmente, nunca fui grande fã de ir ao estádio sozinho, mas confesso que é um pouco assim que me sinto nesta altura, então porquê insistir?

Estou ciente de que a razão obriga a que se mantenham os calendários em andamento para evitar danos de maior no futuro, mas o futebol é feito dos adeptos e para os adeptos. Deste modo, retirando esta costela ao nosso desporto, até que ponto é que continuamos a assistir a futebol? Que passes rápido Covid-19 e que me devolvas este jogo que tanto amo. Até lá, acabaste de fazer mais uma vítima…

 

Imagem: GettyImages

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.