O caminho é a recompensa

Neste artigo damos a conhecer o motivo pelo qual Óscar Tabárez, selecionador do Uruguai, ainda não abandonou o cargo que exerce, apesar dos seus graves problemas de saúde. A motivação de Tabárez é a curiosidade desta semana.

Óscar Wáshington Tabárez Silva, técnico que se encontra no ativo desde 1979, teve passagens pela Argentina, Colombia, Itália e Espanha, mas foi no Uruguai que se imortalizou. Primeiramente como treinador de clubes e depois como selecionador. Liderando um país de apenas três milhões de habitantes, Tábarez voltou a empurrar o Uruguai para grandes palcos. Como é de conhecimento geral, os uruguaios foram os primeiros a vencer um Mundial, logo em 1930, competição realizada no seu país; após essa vitória, só em 1950 a competição voltou a sorrir à equipa celeste, mas, depois desses dois feitos, o que é facto é que o Uruguai nunca mais voltou a ser um verdadeiro candidato à conquista da prova; até que entra Tabárez.

O treinador uruguaio voltou a “pegar” na seleção em fevereiro de 2006. Apesar de esse ser um ano de Mundial, o Uruguai falhou o apuramento para a prova. Sem o acesso ao Mundial de 2006, Tabárez teve mais tempo para trabalhar o Mundial seguinte, e foi nesse que fez história.

Mundial 2010. Qualificação da CONMEBOL. Apenas os quatro primeiros classificados tinham passagem direta para África do Sul. O quinto classificado teria que ir a um play-off com o quarto posto da CONCAF. O Uruguai acabou por ocupar essa mesma quinta posição numa qualificação sempre complicada como é a da CONMEBOL. O play-off foi jogado frente à Costa Rica e a turma de Tabárez acabou por vencer por 2-1 no conjunto das duas eliminatórias e carimbou assim a passagem para África do Sul.

E é nesse Mundial que surge a inspiração para Tabárez continuar a treinar. Já com sérios problemas de saúde, o técnico uruguaio ponderava deixar o comando técnico da seleção no fim da prova.

Na África do Sul, Tabárez observava pela janela do seu quarto uma mulher. Todos os dias, a mulher pendurava uma bandeira do Uruguai ou um cartaz de apoio na sua loja ou em sua casa. Em dias de jogos, quando a equipa iniciava a sua viagem de autocarro para o estádio, aparecia um miúdo que tentava acompanhar o autocarro, sempre sem grande sucesso, e que erguia um cartaz com mensagens de apoio.

Tabárez não conseguiu ficar indiferente e antes de jogar a meia-final deslocou-se à loja com o intuito de ver e falar com a mulher. A mulher nem o deixou chegar à loja, rapidamente, pôs-se à sua frente e pediu uma fotografia ao treinador. A mulher chamava-se Nina e sem perder tempo, apresentou a Tabárez os seus filhos, sendo que um deles era a tal criança que em dias de jogo desafiava o autocarro para uma corrida.

Nina deu a Tabárez alguns livros, algo que o técnico estranhou, mas aceitou. Só os abriu no dia seguinte, no autocarro, quando ia a caminho do jogo frente à Holanda. Os livros eram sobre diversas histórias relacionadas com a África do Sul, contudo esse não foi o principal motivo para Nina ter oferecido os livros a Tabárez. Espalhadas entre as páginas, estavam fotos da vida da mulher. Fotos de quando era criança, quando era uma adolescente, fotos com os pais, com os filhos, enfim, fotos de toda a sua vida. Em todas estas fotos estava escrita uma pequena frase. “The journey is the reward”. O caminho é a recompensa. Uma frase tão pequena, mas que diz tanto. Uma frase que serve que nem uma luva na história de Tabárez.

Na palestra para o jogo decisivo da meia-final, o técnico usou essa mesma frase que, apesar da derrota sofrida, ficou gravada na memória dos jogadores. Para ser honesto, o jogo nem era o mais importante. Tabaréz tinha feito história, o Uruguai estava de novo nos grandes palcos do futebol mundial. Um país tão pequeno, com apenas três milhões de pessoas, mas tão importante para a história do futebol, estava ali, a lutar pelo Mundial contra as maiores potências do planeta. Todo o caminho feito por esta equipa do Uruguai ficou vingado na história do país, muito por causa de Tabárez, que, como recompensa, ganhou a imortalidade.

A forma como o técnico se apresentou no Mundial 2018 fascinou-me. Sem conseguir estar de pé durante muito tempo e sem grandes instruções para dentro de campo, Tabárez, para mim, não estava apoiado nas muletas, estava apoiado em Nina. Recordo aqueles momentos em que o vi pela televisão e, agora, depois de conhecer esta história sobre Nina, não consigo ver ao lado de Tabárez uma muleta, só imagino Nina ali ao lado dele, apoiando-o também, quase como se de um abraço se tratasse. Um abraço fraterno em forma de agradecimento. Estes pensamentos recordam-me os tempos de criança, em que tudo no futebol me transportava para um lugar em que não havia problemas e em que tudo era mágico.

 

No seu livro Maestro, El Legado de Tabárez, o treinador admite que Nina foi uma peça fundamental para continuar a orientar a seleção do Uruguai e que, mesmo nos dias de hoje, utiliza essa inspiradora frase “O caminho é a recompensa” nas suas palestras antes dos jogos.

 

Alexandre Ribeiro

Nascido e criado na ilha Terceira, nascido e criado para o futebol. Desde cedo aprendi, vivi e vibrei com o desporto rei. A licenciar-me em Ciências da Comunicação na FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Com o futebol e a escrita espero proporcionar um espectáculo fora das 4 linhas para todos aqueles que partilhem o gosto pela bola e pelos seus artistas.