Os ciclos do futebol

Parece-me mais que pertinente expor uma das características mais evidentes no desporto-rei considerando o panorama atual no nosso país e um pouco lá fora também.

Não é um conceito revolucionário nem uma ideia nova. Decerto que já foi equacionada esta face do futebol e todas as suas consequências e efeitos nos seus intervenientes. Contudo, é importante recordar esta característica de modo a explicar muito do que acontece neste momento.

Começando pelo caso do Benfica. No momento de escrita deste artigo, os jornais noticiam a “queda livre” das águias que saem da Europa e perdem uma liderança de sete pontos em pouco mais de um mês com exibições paupérrimas e descontentamento geral dos adeptos.

Onde é que surgem aqui os tais “ciclos” do futebol? A temporada dos encarnados passou por diferentes fases. O arranque foi relativamente positivo, com uma subida ao topo da tabela veloz e consistente, uma progressão na Taça de Portugal constante, à exceção da desilusão na fase de grupos da Champions, compensada por uma recuperação tardia que colocou as águias na Liga Europa.

As duas últimas partidas da fase de grupos onde o Benfica empata em Leipzig e vence por 3-0 o Zenit na Luz surgem naquela que terá talvez sido a melhor fase do clube na temporada inteira, superando o início bom, mas não totalmente convincente.

As exibições retomaram a instabilidade no início do novo ano civil e agora estamos onde estamos.

Em suma, as coisas começaram de forma sólida mas não muito boa para melhor, regressando ao pior gradualmente, até chegar a um ponto inédito desde a chegada de Bruno Lage.

Os ciclos sentidos nesta temporada afetaram intensamente o Benfica, com uma parte significativa da massa adepta a pedir já a demissão do treinador que tantas alegrias lhes deu no passado. Os ciclos tão depressa nos mostram a volatilidade do futebol como a necessidade de uma estrutura, uma base, que nos ampare das piores momentos.

O caso do Benfica é complexo, mas com algumas nuances relativamente evidentes. O treinador é uma peça crucial num clube que gere rendimento desportivo ao mais alto nível no seu país, responsabilidades financeiras e desenvolvimento constante de jovens jogadores. Bruno Lage conhece integralmente a estrutura do clube, trabalhando durante anos com as camadas jovens, mostrando também as valências necessárias para levar a sua equipa à conquista do campeonato nacional, como o fez em 2019.

Algumas decisões mais questionáveis em termos futebolísticos poderiam pôr alguma pressão sob o treinador, porém o futuro do clube passa também por ele, pelo menos a médio prazo.

Onde é que o Benfica falha em prevenir os ciclos do futebol? Na profundidade e variedade de opções do seu plantel. A equipa tem qualidade, vários atletas internacionais com cláusulas elevadas e prospeções de transferências milionárias no seu futuro.

No entanto, as alternativas aos habituais titulares são insuficientes tanto a nível de qualidade como a nível de variedade.

Há problemas em quase todos os setores da equipa, por falta total de opções ou por pouca utilização daquelas que existem, maioritariamente provenientes do Seixal.

Nuno Tavares, Jota e David Tavares são jogadores que integram a Equipa A, contudo têm visto pouquíssimos minutos para se afirmarem como verdadeiros membros do plantel capazes de entrar num onze titular.

Para além destes jovens, faltam muitas mais contratações para garantir variedade a esta equipa, nomeadamente centrais, avançados, extremos e laterais. A frescura física dos titulares dos encarnados está comprometida há imenso tempo, chegando agora possivelmente também a quebra da frescura mental.

Ter um conjunto de jogadores profundo e variado é obrigatório para prevenir estes ciclos. Ciclos de lesões, má forma, jogos seguidos em poucos dias. Nenhum plantel faz uma época inteira ao mais alto nível sem ter quebras. A chave é ter os jogadores que são necessários para recuperar dessas quebras o mais rápido possível.

Os mesmos jogadores tiveram que recuperar o período inicialmente mais complicado do Benfica e quando chega uma nova altura de dificuldade, o clube apenas conta com o acréscimo de Rafa e Weigl, perdendo jogadores como Gabriel, Jardel e RDT no entretanto.

Passando para o outro lado da Segunda Circular, o caso do Sporting é mais drástico, o clube está longe da luta do título, fora das Taças e despediu-se recentemente da Europa, desperdiçando uma vantagem de 3-1 na primeira mão.

No momento em que escrevo isto, Silas já anunciou que está de saída do clube, com Rúben Amorim a substituí-lo, a custo de 10 milhões.

Numa só temporada, o Sporting chega aos quatro treinadores, Keizer, Pontes, Silas e, agora, Amorim.

Aqui está nitidamente um exagero,ou mesmo um engano, da interpretação cíclica do desporto. Mudar de treinador é sempre uma decisão difícil e controversa, tanto pela defesa do treinador atual como a indecisão entre os candidatos livres. Apesar de tudo é muito mais fácil substituir um homem do que um onze inteiro.

Contudo, que treinador na história conseguiu implementar plenamente as suas ideias, contrariar um período crónicamente negativo num clube e competir com os seus rivais diretos com um plantel inferior num espaço de meses.

Nem o passado serviu de salvaguarda, Keizer venceu duas Taças num ano mas não passou de Setembro na época seguinte.

Não vale a pena apontar dedos às claques, direção, jogadores e afins. A única verdade unânime entre todos os adeptos do Sporting e espetadores de fora é que o clube está muito abaixo do seu valor histórico e das expetativas dos adeptos. Sem exageros nenhuns, é possível afirmar que é um clube em crise.

Com problemas fora de campo e dentro de campo, as condições estão longe de favoráveis para quem treinar o clube, tal como Silas disse na sua última conferência de imprensa, antevendo a chegada de Rúben Amorim: “Vai precisar de muita ajuda de todos, vem para um desafio enorme para gente de coragem.”

Os resultados seriam sempre abaixo do esperado e os problemas fora de campo iriam sempre continuar independentemente de quem estivesse a comandar a equipa de futebol. Num momento em que o clube tem problemas com todos os participantes do desporto, quem o pratica, quem o apoia e quem o gere, seria o momento ideal para evitar criar novas dificuldades.

Os ciclos do Sporting vão continuar a ser maioritariamente negativos, porém poderiam em prol de algo construtivo e com uma perspetiva de futuro caso um treinador tivesse o voto de confiança do clube e a segurança que terá tempo para implementar as suas ideias táticas.

O Liverpool é neste momento o exemplo por excelência de um clube de topo, vencendo a Champions League num ano e à beira de conquistar a Premier League no seguinte… ainda em março.

Contudo, Jurgen Klopp está no clube desde Outubro de 2015, passando por imensas dificuldades ao comando do clube, inclusive uma derrota na final da Liga Europa no seu ano de estreia e um 8º lugar, falhando a conquista de qualquer troféu nos seus primeiros três anos no clube.

O Liverpool e o Sporting são dois clubes completamente diferentes, mas há algumas semelhanças intrínsecas que fazem valer a pena o paralelo. Dois clubes com uma história de peso que justificaria resultados superiores ao rendimento atual (no momento da contratação de Jurgen Klopp, claro).

Depositar alguma fé num treinador poderia ser a melhor opção para o clube, ou pelo menos uma tentativa mais iluminada do que a maioria das estratégias com treinadores ultimamente.

Os problemas fora de campo terão a sua solução eventualmente, haverão eleições, os adeptos e as claques voltarão ao entendimento com o clube, mas o rendimento desportivo não deveria sofrer tanto com isso no entretanto.

Utilizo o último “grande” português como um exemplo a favor da minha teoria. O FC Porto retomou a liderança do campeonato português na última jornada, recuperando uma desvantagem de 7 pontos num mês face aos seus concorrentes diretos, o Benfica.

Basta recuarmos um mês atrás e os dragões estavam perante um cenário negro, com uma desvantagem pesada no campeonato, de tal modo que Sérgio Conceição colocou o seu lugar à disposição após ter perdido a final da Taça da Liga diante do SP Braga.

O treinador foi campeão em 2018, mas perdeu uma vantagem significativa no campeonato no ano seguinte, cedendo o título aos encarnados.

Apesar de algum escrutínio ao treinador, o Porto encontra-se na final da Taça de Portugal e na liderança do campeonato, dependo apenas de si próprio para reconquistar o título.

A época está longe de terminar e bem sabemos que no futebol português ninguém está seguro em qualquer cargo, porém, numa análise geral, vê-se que manter Sérgio Conceição foi uma boa decisão para o clube dando já frutos a curto prazo.

Imagine-se que o FC Porto nesse momento seguia o tipo de gestão que o Sporting e demitia o seu treinador… talvez o cenário não fosse tão positivo neste momento para os dragões.

José Horta

Não nasci a gostar de futebol, mas quando comecei nunca mais quis outra coisa. Algarvio de nascença mas adepto do futebol para além daquele que se joga na praia. Sempre atento aos contornos e novidades do "Desporto Rei", "Beautifull Game" ou lhe quiserem chamar. Aluno universitário de Ciências da Comunicação na FCSH.