Até quando vamos continuar a ter estas situações?

Na “Opinião” desta semana, venho falar do caso que abalou, mais uma vez, o futebol português (e foi notícia internacional): o racismo.

Como devem calcular, tinha outro tema em mente, mas acho que é um assunto tão relevante, que não pode passar impune e que julgo que merece uma atenção especial tendo em conta a sensibilidade do tema.

Começamos pelo que me leva a escrever sobre este tema condenável: no domingo passado, no jogo entre o Vitória de Guimarães e o Futebol Clube do Porto (vitória dos dragões por 1-2, no Estádio Dom Afonso Henriques), o jogador do Porto, Marega, foi alvo de insultos xenófobos e racistas a começarem logo durante o aquecimento. Quem o confirma é o próprio treinador do Porto, Sérgio Conceição, nas entrevistas rápidas após o jogo.

Infelizmente e condenando toda e qualquer ação destes atos, sinto que isto não teria tomado as proporções e o mediatismo que teve, não tivesse o Moussa Marega tomado uma grande atitude ao pedir para ser substituído e tendo saído em confronto com os adeptos vimaranenses. Na saída, foram vários os jogadores de ambas as equipas a tentar acalmar o jogador maliano de 28 anos para que este continuasse em jogo, sem sucesso. Para mostrar o seu companheirismo e solidariedade, nenhum colega de equipa do Marega compareceu para dar uma entrevista rápida.

O caso foi muito mediático e o jogo passou para segundo plano. Ricardo Quaresma, ex jogador do Porto mostrou total solidariedade para com Moussa Marega:”Gostava de expressar toda a minha solidariedade para com o Marega. Também eu já fui várias vezes vítima de racismo dentro e fora de campo. A cor da pele ou a raça do jogador não podem ser argumentos para ofender e tentar desconcentrar um jogador de futebol. O mesmo se aplica fora de campo. O racismo não pode ter lugar na nossa sociedade é um crime que deve ser punido”.

Igualmente, o seu próprio clube, em comunicado, reagiu prontamente aos insultos racistas, afirmando que “toda a estrutura do FC Porto e os seus adeptos estão solidários com Moussa Marega”, referindo o que consideram ser “dos momentos baixos da história recente do futebol português”

Também internacionalmente, este jogo entre dois clubes emblemáticos do futebol português foi comentado, mas não pelas melhores razões.

O jornal Marca, de Espanha, indica que: “O futebol português viveu um dos episódios mais vergonhosos da sua história. Moussa Marega disse basta e abandonou o campo, com 1-2 a favor do FC Porto, depois de sofrer insultos racistas no campo do V. Guimarães.

“Também vindo de Espanha o jornal As sinaliza este ato: “Vergonha mundial em Portugal em pleno século XXI. Nem sequer o seu treinador, o português Sérgio Conceição, e os seus companheiros, conseguiram persuadir Marega de deixar o campo de jogo.”

No outro lado do mundo, mais propriamente no Brasil, o globoesporte.globo.com aponta: “Marega se revolta com ofensas racistas de torcida rival e abandona jogo em vitória do Porto.”

Todas estas reações pediam um comentário público por parte dos nossos dirigentes políticos e foram obtidas, dos dirigentes máximos do Executivo.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, indica que:

“A Constituição da República Portuguesa é muito clara na condenação do racismo, assim como de outras formas de xenofobia e discriminação e o povo português sabe, até por experiência histórica, que o caminho do racismo, da xenofobia, e da discriminação, além de representar a violação da dignidade da pessoa humana e dos seus direitos fundamentais, é um caminho dramático em termos de cultura, civilização e de paz social”

Marcelo Rebelo de Sousa pediu ainda aos portugueses para terem ética ao sentido cívico e ao bom senso: “Condenar, como sempre, veementemente, todas as manifestações racistas, quaisquer que sejam. Apelo à ética, ao sentido cívico e ao bom senso, para que se evitem em Portugal escaladas que violem valores básicos da nossa comunidade e só possam contribuir para a divisão fratricida entre os portugueses.”

Prontamente, também o Primeiro-Ministro, António Costa, através da sua conta no Twitter comentou este caso, afirmando que “todos e quaisquer atos de racismo são crime e intoleráveis”. “Nenhum ser humano deve ser sujeito a esta humilhação. Ninguém pode ficar indiferente. Condeno todos e quaisquer atos de racismo, em quaisquer circunstâncias. Total solidariedade com Marega, que no campo provou ser não só um grande jogador, mas também um grande cidadão”, acrescentou.

Depois de todo este caso e de tudo o que foi relatado, tenho de pedir desculpa aos leitores, mas concretamente não há uma opinião pessoal que vá acrescentar algo mais a este caso. Apenas de referir, no que me compete, que me encontro solidário enquanto o cidadão Moussa Marega, que espero que estes atos acabem de uma vez e que seja aplicada a multa e pena máxima, pois em nenhum momento, algum trabalhador devia ter que abandonar o seu trabalho por ser descriminado com atos que incentivam o ódio e a violência que está previsto na nossa constituição como crime.

Infelizmente não é caso único no futebol quer nacional, quer internacional. Ficam descritos apenas três exemplos relacionados com Portugal ou com os portugueses:

1º – Estavamos nos fins do ano passado, quando o jogador do Manchester City, o português Bernardo Silva, fez um tweet que foi condenado pela Federação Inglesa de Futebol por conduta imprópria e ofensiva. O jogador teve não só de pagar 58 mil euros como também ainda ganhou um bilhete para a bancada, pois ficou um jogo suspenso derivado do castigo. Esta condenação foi devido ao tal tweet com a imagem, em criança, de Benjamin Mendy, colega de equipa e amigo desde os tempos em que ambos jogavam no Mónaco, acompanhado da ilustração do boneco característico dos chocolates Conguitos, com a pergunta “adivinhem quem é?”.

A investigação não conseguiu provar claramente que este tinha como objectivo ofender o seu colega de equipa, mas com mais de 600 mil seguidores, a Federação salientou o teor público da publicação.

2º – Foi em 2017 que o Rio Ave foi condenado pelo Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) em 536 euros por cântigos racistas dos seus adeptos, contra o internacional português Renato Sanches, que jogava no Benfica nesse ano.

3º – Os adeptos do Leixões tiveram, há oito anos atrás, que jogar contra o Desportivo das Aves à porta fechada após o Leixões ter sido condenado por comportamentos racistas por parte dos seus adeptos pelo Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol.

João Estanislau

Actualmente a frequentar uma Pós-Graduação em Marketing e Gestão do Desporto no INDEG-ISCTE, sou licenciado pelo Instituto Superior de Comunicação Empresarial em precisamente Comunicação Empresarial. Escrever sobre desporto sempre foi uma realidade para mim, nas minhas redes sociais e que pretendo agora partilhar contigo. Fica atento!