Históricos: Chelsea vs Liverpool. Os homens também choram.

Nos Históricos desta semana recordamos o jogo da segunda mão das meias finais da Champions League de 2008 que pôs frente-a-frente os blues de Stanford Bridge e os reds de Anfield.

A edição de 2008 da Liga dos Campeões teve uma característica peculiar, nas meias finais da competição estavam três equipas inglesas presentes em quatro possíveis, o que demonstrava a qualidade e a competitividade do futebol vivido em terras de Sua Majestade.

Os jogos entre Chelsea e Liverpool sempre foram sinónimos de um grande espetáculo. Ainda para mais quando em campo estavam presentes dois dos maiores camisas 8 da história do futebol. Steven Gerrard e Frank Lampard. Dois jogadores fizeram muitos apaixonar-se pelo futebol.  As suas paixões pelos seus clubes, a forma como em cada jogo entravam em campo como se de uma batalha se tratasse e a maneira como sempre, dentro e fora do campo honravam o clube apaixonava. Dois exemplos a seguir. Dois jogadores que pensavam o jogo 24 horas por dia. Para além de possuírem uma enorme qualidade técnica, eram detentores de uma qualidade tática invejável. Não admira que agora sejam treinadores.

A primeira mão foi realizada no dia 22 de abril em Anfield. O primeiro embate ditou um empate a uma bola. Com um golo marcado por Dirk Kuyt aos 43 minutos, os pupilos de Rafa Benítez pareciam bem encaminhados para alcançar um triunfo na primeira mão, mas o autogolo tardio de Riise restabeleceu a igualdade e fez com que estivesse tudo em aberto para a segunda e decisiva mão.

Tudo a postos em Stanford Bridge, Avram Grant, treinador israelita do Chelsea, alinhou com o lendário Petr Cech na baliza, um quarteto defensivo composto por Ashley Cole, John Terry, Ricardo Carvalho e Michael Essien, um meio campo a três com Lampard, Makelele e Ballack e na frente Kalou, Joe Cole e Didier Drogba. Por outro lado, os comandados de Rafa Benítez jogaram também em 4-3-3, com Pepe Reina a defender as redes dos reds, Arbeloa, Carragher, Skrtel e Riise no setor mais recuado do terreno, Xabi Alonso, Mascherano e Steven Gerrard como o trio do meio campo e Dirk Kuyt, Fernando Torres e Benayoun na frente de ataque.

A equipa da casa começou o jogo por cima, criando sempre mais situações de perigo e controlando a posse de bola no meio campo adversário, o que não impediu o Liverpool de aparecer a espaços com perigo na baliza contrária, normalmente com contra-ataques rápidos conduzidos por El Niño, Fernando Torres. Contudo, os Blues foram mesmo os primeiros a marcar; o suspeito do costume, Didier Drogba, na recarga a um remate defendido por Reina, de pé direito, o avançado não perdoou e inaugurou o marcador, levando o Chelsea com vantagem mínima para o descanso.

Na segunda parte o Liverpool cresceu no jogo e aos 64 minutos, após uma boa jogada individual de Benayoun, Fernando Torres finalizou para o fundo das redes do guarda redes checo. Os dois pontas de lança já tinham feito abanar as redes contrárias. Até ao fim dos 90 minutos, o equilíbrio manteve-se e nenhuma das equipas conseguiu desfazer o empate que se registava no marcador, levando o jogo para prolongamento.

Oito minutos após o início do prolongamento, aconteceu o mais importante e, na minha opinião, melhor momento da partida. Bola dentro da área do Liverpool, Kuyt faz um carrinho tentando aliviar a bola, mas antes que o mesmo tocasse nela, Michael Ballack adiantou-a, fazendo com que a bola já não estivesse lá no momento em que o holandês executa o carrinho. Penalti assinalado e bem. Quem é que iria bater este penalti? Uma das maiores figuras da história do Chelsea e do futebol mundial. Frank Lampard. Durante toda a sua carreira, o internacional inglês certamente bateu vários penaltis, mas este era diferente. Dias antes do jogo, a mãe de Lampard faleceu. O jogador esteve até para não ir a jogo, mas o mesmo fez questão de jogar.

Certamente as memórias ainda estavam muito frescas na cabeça de Lampard. Todo o estádio sabia da situação. Frank Lampard ajeita a bola e dá 4 ou 5 passos atrás; sempre com a língua de fora e tentando evitar o choro, olha para o céu, para a bancada, para os colegas de equipa, para todo o lado menos para a baliza. O arbitro apita e sem demora Lampard parte para a bola. Faz se silêncio em todo o estádio, todos estavam expectantes sobre o que ia acontecer. Iria Lampard ceder à pressão e falhar? Ou o número 8 dos Blues iriam manter os nervos de ferro e conseguir marcar? As dúvidas acabaram por se sumir num final feliz. Chutou e bola para um lado e guarda redes para o outro. Correu para a bandeirola para celebrar o golo. No percurso, tirou a fita preta que ambas as equipas carregavam no braço de modo a prestar homenagem e simbolizar luto perante a falecida mãe de Lampard, e enquanto deslizava de joelhos, beijava repetidamente a tal fita, acabando por se curvar perante ela, chorando impulsivamente. Rapidamente é abraçado pelos colegas de equipa que sabiam o quão especial era este golo. Que momento. Futebol no seu estado mais puro e sentido.

Apesar deste momento digno de filme, o jogo ainda não tinha acabado. O Liverpool após o golo sofrido, certamente não reagiu como pretendia e o Chelsea voltou à carga procurando matar o jogo e pode-se dizer que conseguiu. O recém entrado Anelka cruza rasteiro para o centro da área, onde estava, novamente, Didier Drogba, pronto a bisar na partida e a fazer o 3-1 mesmo em cima do intervalo do prolongamento.

Com ainda 15 minutos para serem jogados em Stanford Bridge, os Reds viram-se forçados a reagir e a atacar, metendo cada vez mais gente na área e forçando o chuveirinho. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura e o Liverpool conseguiu reduzir a desvantagem com um remate de longa distância do holandês Ryan Babel.

O resultado não se alteraria mais e a formação de Londres seguiu para a final, onde acabou por encontrar o Manchester United na famosa final de Moscovo, numa final 100% inglesa, após passar esta eliminatória frente ao Liverpool, num jogo histórico, onde ficou provado que os homens também choram.

Alexandre Ribeiro

Nascido e criado na ilha Terceira, nascido e criado para o futebol. Desde cedo aprendi, vivi e vibrei com o desporto rei. A licenciar-me em Ciências da Comunicação na FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Com o futebol e a escrita espero proporcionar um espectáculo fora das 4 linhas para todos aqueles que partilhem o gosto pela bola e pelos seus artistas.