O tempo, o sucesso e a memória no futebol

O Liverpool de 2019/20 é, quase unanimemente, uma das melhores equipas do futebol europeu nos últimos anos. Depois de conquistar a Champions League na época passada, a equipa de Klopp já venceu o Mundial de Clubes e tem uma margem confortável no topo da Premier League, tendo terminado a primeira volta do campeonato com uns inacreditáveis 55 pontos em 57 possíveis.

E o que está por trás do sucesso desta equipa? Façamos um exercício de memória e recuemos até à chegada de Jurgen Klopp a Anfield: corria a época de 2015/16 e o treinador dos Reds era Brendan Rodgers. A equipa ocupava apenas a décima posição na tabela e, em outubro, o alemão assumiu o comando técnico. Nessa mesma época, conseguiu chegar às finais da Taça da Liga Inglesa e da Liga Europa. Perdeu ambas. Terminou em oitavo na Premier League. Para a época seguinte chegaram Mané, Matip e Wijnaldum a Anfield. O Liverpool ficou em quarto lugar na Premier, com 76 pontos (menos 16 que o campeão Chelsea).  Zero títulos, novamente.

No verão de 2017, chegaram ao clube Salah, Oxlade-Chamberlain e Robertson. O Liverpool continuou irregular no campeonato, bem distante do City do segundo ano de Guardiola. Em janeiro, o clube vendeu Coutinho e comprou Van Djik, o defesa mais caro da história. Os reds terminaram o campeonato na quarta posição, 25 pontos atrás do City, mas chegou à final da Champions League, onde perdeu 3-1 frente ao Real Madrid. Mais uma final perdida e mais um ano sem títulos para Klopp…

Em 2018, os reforços foram Shaqiri, Fabinho, Keita e Alisson. Finalmente, o Liverpool conseguiu ser regular no campeonato, terminando a primeira volta em primeiro lugar. A equipa viria a fazer 97 pontos, apenas menos um que o City. Foi nesta época que Klopp conseguiu vencer uma final com o Liverpool, tendo virado a eliminatória das meias-finais frente ao Barcelona e batido o Tottenham na final. No verão de 2019, o Liverpool não comprou nenhum jogador para a equipa principal, mas também não vendeu ninguém da base que venceu a Champions e lutou pelo campeonato na época anterior. Os resultados estão à vista: o clube já ganhou mais dois títulos internacionais e está bem encaminhado para, mais de trinta anos depois, voltar a ser campeão inglês.

E o que se retira de tudo isto? 1) O Liverpool teve de investir todos os anos em bons jogadores; 2) Klopp (como qualquer treinador) necessitou de tempo para transformar uma equipa à sua maneira; 3) O primeiro troféu só chegou mais de três anos depois de Klopp assumir a equipa.

E isto é o exemplo perfeito do que deve ser um projeto bem estruturado e que, como tal, estará sempre mais próximo do sucesso. Primeiro, ter um treinador, que seja o líder do projeto (e associado a ele, uma identidade, uma ideia de jogo); segundo, investir de forma certeira, em jogadores que se adequem ao sistema do treinador; terceiro (em simultâneo com o segundo), dar tempo para que o treinador possa implementar as suas ideias e trabalhar com os novos jogadores.

E se os responsáveis do Liverpool pensassem como pensam tantos adeptos de futebol? O discurso “é pé frio, perde todas as finais…” foi muitas vezes aplicado a Klopp, assim como a tantos outros… Se o clube não tivesse a confiança de que estava no rumo certo, provavelmente não estaria onde está hoje.

Ter um projeto bem delineado significa sempre estar mais próximo de ganhar. Mas ganhar no futebol está dependente de muitos outros fatores externos, logo, não pode ser a única forma de avaliar o sucesso de um treinador ou de um clube. Um exemplo: quantos títulos ganhou Pochettino no Tottenham? Zero. A sua passagem pelos Spurs foi um fracasso? Totalmente o oposto disso. Pochettino trouxe ao Tottenham a possibilidade de lutar por títulos, algo que não acontecia antes do técnico argentino. O simples facto de um treinador elevar o patamar de um clube pode representar um trabalho tão meritório como ganhar vários títulos.

E agora o reverso desta “moeda”, que tanta gente parece ignorar: é impossível uma equipa ter sucessivamente épocas de sucesso e não há sistemas infalíveis. Veja-se o exemplo do Tottenham de Pochettino nesta época, ou até do City de Guardiola. Excelentes épocas em 2018/19, épocas bastante irregulares em 2019/20. E o que diz isso da qualidade dos treinadores? Muito pouco. O próprio Klopp deixou o Dortmund em sétimo na sua última época. Por uma razão ou por outra, mais cedo ou mais tarde, as fórmulas do sucesso esgotam-se. E a questão é precisamente esta: se na próxima época o Liverpool de Klopp fracassar, muitos dos que “tecem loas” ao treinador alemão, usando como contra-ponto o trabalho de Guardiola, voltarão a deitar abaixo o alemão para elogiar qualquer que seja o treinador da equipa que ganhe mais.

Analisar futebol desta forma é limitativo. E o principal problema surge quando esta visão deixa de ser exclusivamente dos adeptos e passa também a ser dos dirigentes, que ao primeiro mau resultado decidem que o treinador não serve. É cada vez mais importante planear a longo prazo e pensar no futuro, mesmo que isso possa ter alguns custos no presente. E quem o fizer estará sempre, sem exceção, mais próximo do sucesso.

Francisco Madureira

Nascido em Lisboa, sou louco por futebol desde que me lembro. Tenho mais jeito para ver e escrever do que para jogar. Cedo aprendi que é um jogo cruel, mas é também isso que o torna belo. Atualmente a licenciar-me em Ciências da Comunicação.