Curiosidades: das divisões inferiores para a Europa

A possibilidade de atingir as competições europeias parece, em Portugal, uma realidade restrita aos que apresentam melhor desempenho na primeira liga. No entanto, para aqueles que não ambicionam altos patamares na principal prova doméstica do país, existe sempre a hipótese de lutar por uma destas vagas através da Taça de Portugal.

Com efeito, a prova rainha já se revelou por diversas vezes como um ótimo ingresso europeu para alguns clubes menos prestigiados no campeonato português, mas então e os clubes dos escalões nacionais secundários? Não terão eles, com isto, também a possibilidade de sonhar com aventuras além-fronteiras? Embora altamente improvável, a resposta é “sim”, pelo que, nas curiosidades desta semana, relembraremos os poucos casos em que clubes das divisões inferiores, graças à Taça de Portugal, tiveram a possibilidade de jogar nas competições europeias da época seguinte.

Como referido, embora possíveis, cenários deste tipo são altamente improváveis, de tal maneira que podemos contar pelos dedos de uma mão aqueles que de facto ocorreram até hoje. Falamos, portanto, de dois clubes que, há data da sua qualificação, se encontravam na segunda divisão e na antiga segunda divisão B, respetivamente o Vitória FC e o Leixões SC.

Seguindo por ordem cronológica, recuamos até à época de 1961/62. Militando, na altura, na segunda liga, onde conseguiria, de resto, o primeiro lugar e respetiva subida ao convívio entre os grandes do país, o Vitória de Setúbal completaria uma campanha memorável na prova rainha, atingindo a final e deixando pelo caminho o Belenenses nas meias finais, numa altura em que os homens do Restelo viviam os tempos áureos do clube, pelo que se tratava de um adversário que impunha bastante respeito.

Assim, embora saindo derrotados do Jamor pelo Benfica, por uns expressivos 3-0, num jogo em que a pantera negra Eusébio bisaria, os sadinos tinham bastantes motivos para sorrir no final desse ano, mais que não fosse pela possibilidade de virem a jogar a ronda de qualificação da Taça das Taças na época seguinte. Apesar deste apuramento histórico, os vitorianos acabariam por não ir além desta ronda, sendo eliminados pelos franceses do Saint-Étienne, por um resultado agregado de duas mãos que se estabeleceu em 4-1 (1-1 em França e 0-3 no Bonfim). Uma eliminação precoce e pesada, mas que acabou por não saber tão mal, já que todo o caminho percorrido para chegar tão longe foi soberbo e, até então, um caso ímpar no futebol português.

O segundo caso foi bem mais recente e bem mais inesperado. Estávamos na época 2001/02 quando, após perder a final da taça pela margem mínima (0-1) frente ao então campeão nacional Sporting, numa campanha em que eliminaria clubes como GD Chaves, Varzim SC, Moreirense, Portimonense e SC Braga (todos a militar, então, em escalões superiores), o Leixões conseguia a possibilidade de jogar a ronda de qualificação da Liga Europa, naquela que seria, desde já, a sua estreia na competição. Com isto, além de ser apenas o segundo clube na história do futebol português de escalões inferiores a apurar-se para as competições europeias, a par dos sadinos, a equipa de Matosinhos atuava, à data, não na primeira, nem na segunda, mas sim na segunda divisão B nacional (o equivalente, nos dias de hoje, ao Campeonato de Portugal), onde se iria manter, aliás, na época seguinte, o que só torna este feito ainda mais incrível.

Como se tal não bastasse, os bebés do mar iriam mesmo avançar para a ronda seguinte, eliminando os macedónios do FK Belasica, com um agregado de 4-3 (2-2 no estádio do Mar e 1-2 em Estrúmica). O conto de fadas dos nortenhos apenas chegaria ao fim na ronda seguinte, onde seriam deixados pelo caminho pelos gregos do PAOK por um resultado agregado de 3-5 (2-1 em casa e 4-1 em Salónica). Com uma campanha ainda mais impressionante que a protagonizada pelo Vitória 40 anos antes, a equipa de Matosinhos seria a última até hoje a conseguir este raro feito.

Foram estes, portanto, os dois clubes que conseguiram, num espaço de sensivelmente meio século, deslumbrar tudo e todos, contrariando todas as possibilidades e escrevendo páginas de fazer inveja a muitos na história do nosso futebol. Hoje, em 2020, num ano em que Canelas, Académico de Viseu e Varzim seguem já nos quartos de final da prova rainha, como últimos representantes da Segunda Liga e do Campeonato de Portugal, até onde poderão sonhar estes underdogs…?

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.