Curiosidades: Dinamarca, a campeã europeia que nunca se qualificou

Hoje recordamos a história da vitória dinamarquesa no campeonato da Europa de 1992. Um campeão inédito que, na prática, nunca chegou sequer a qualificar-se para o torneio, nos jogos de apuramento. Nunca ouviu falar? Então mantenha-se connosco.

Estávamos no ano de 1991. A 22 de Dezembro terminava a última partida da fase de qualificação. Estavam então definidas as oito nações que iriam disputar o tão ambicionado troféu, num torneio que se viria a realizar na Suécia. Além da anfitriã, viajariam também para o norte da Europa as seleções de França, da Escócia, da União Soviética (jogando com o nome Commonweatlh of Independent States, pois os diversos países que a constituíam se haveriam separado entretanto, participando então como uma só nação neste europeu), a antiga Jugoslávia, a Alemanha (já unificada), a Holanda e Inglaterra.

A clara favorita a levar o troféu para casa era, sem margem para dúvidas, a Jugoslávia. Com um plantel constituído praticamente na sua totalidade por jogadores do Estrela Vermelha (à data, o campeão em título da Liga dos Campeões), que tinham, inclusive, vencido o campeonato do mundo de juniores pelo país em 1987, o coletivo vinha mostrando uma série de bons indícios, mais ainda depois de uma prestação muito positiva no mundial (apenas foram eliminados pela Argentina de Diego Maradona, nos quartos de final). Havia até quem já os apelidasse de “Brasil da Europa”.

No entanto, sensivelmente cinco meses antes, começara a guerra no país, um conflito que, como se sabe, abalou e muito a Jugoslávia, bem como os seus vizinhos. Posto este cenário, e após diversos apelos frustrados das Nações Unidas a um cessar-fogo, as mesmas viram-se forçadas a tomar medidas. Com isto, embora a solução apenas tenha sido oficializada no dia 30 de maio de 1992, a decisão já era espectável.

Com uma tal “resolução 757” a ser aprovada unanimemente por todos os membros do Conselho de Segurança da ONU, uma das suas inúmeras medidas proibia a participação em eventos desportivos de qualquer um dos países beligerantes. A resposta da FIFA, por sua vez, também não se fez esperar, suspendendo a Federação Jugoslava de Futebol no mesmo dia e impedindo-a, portanto, de participar no Europeu, que iria principiar daí a escassos 10 dias.

A solução encontrada para preencher a vaga que agora abria, embora pouco ortodoxa, não foi, também, de todo inesperada, havendo sido ponderada ao longo de vários meses. Tendo terminado a qualificação no segundo posto, atrás da desqualificada seleção jugoslava, a Dinamarca recebia então o convite para ocupar o lugar do país em guerra, convite esse que, logicamente, aceitou de bom grado.

Assim sendo, os jogadores que haviam partido de férias com o pré-aviso de uma eventual convocatória regressavam mais cedo do descanso, refazendo as malas, mas, desta feita, para rumarem à Suécia.

Numa campanha que se avizinhava dura, tendo calhado num grupo, não só com os anfitriões, como com as seleções de Inglaterra e de França, a modesta equipa nórdica fez pela vida e conseguiu, não só um empate a zeros com os britânicos, como uma vitória por 2-1 sobre os gauleses na derradeira jornada.

Terminava assim o grupo no segundo posto, avançando para as meias-finais da prova, um feito, já de si, bastante plausível. No entanto, os dinamarqueses não ficariam por aqui.

Sem adversários minimamente acessíveis à vista, ditou-lhes a sorte que se embateriam com nem mais nem menos do que a campeã em título: a Holanda. Num jogo que terminaria 2-2 no final do tempo regulamentar (onde estiveram inclusive a vencer por duas vezes), seria a lotaria das grandes penalidades que decidiria um dos futuros finalistas da final do torneio. Foi aqui que o guarda-redes Peter Schmeichel desempenhou o papel de herói, defendendo o penalti marcado por Marco Van Basten e, tendo os restantes castigos máximos sido convertidos, carimbando a passagem da Dinamarca à grande final, a primeira da sua história.

Se nas meias-finais a vida dos nórdicos não foi fácil, muito menos ficou no derradeiro encontro do torneio, onde defrontariam a gigante Alemanha. Com uma equipa recheada de grandes nomes na época, os dinamarqueses eram apenas uns meros desconhecidos diante do plantel alemão. No entanto, o favoritismo não vence jogos e a Dinamarca fez bom jus a esta frase, acabando mesmo por levar a formação germânica de vencida por uns impressionantes 2-0 e, com isto, levando para casa o tão cobiçado troféu pela primeira e, até então, única vez na história do país. Peter Schmeichel viria além disso a ser condecorado como guarda redes da prova, juntando-se ao compatriota Brian Laudrup na equipa ideal do torneio.

A infelicidade de uns foi a mais valia de outros. Embora ainda haja quem conteste a vitória dinamarquesa no europeu de 92, o que é facto é que se tratou de um feito que, até hoje, se mantém ímpar na história do futebol. Vencer um campeonato da europa, já de si, é complicado, mas fazê-lo sem sequer se qualificar é obra.

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.