Históricos: “Kaiser” de braço ao peito para a eternidade

“Kaiser” e Beckenbauer. Nunca duas palavras se complementaram tão bem. A palavra “kaiser” vem da Alemanha (tal como Franz Beckenbauer) e significa imperador. Era dessa mesma forma que jogava o alemão. Antecipando-se sempre aos seus adversários, usava a inteligência para, de forma elegante, sair vitorioso dos duelos.

Na tarde solarenga de 17 de Junho de 1970 no México, Beckenbauer deu uma lição ao mundo. No estádio Azteca (México), 102 mil pessoas assistiam ao embate entre a Alemanha Ocidental (RFA) e a Itália num jogo a contar para a meia-final do campeonato do mundo.

Ambas as nações sonhavam com o tão ansiado lugar na final. Com o grande medo de deitar tudo a perder, as duas formações começaram o jogo com o foco na defesa e pouco preocupadas em atacar ou pressionar, até que aos nove minutos do encontro, o camisa 20 da Itália (Boninsegna) inaugura o marcador com um golo “caído do céu”, pois a Itália nada tinha feito por merecer.

Os festejos dos italianos após conseguirem a vantagem no marcador.

Após este golo, a Itália, bem ao seu jeito, fechou-se na defesa para tentar guardar da melhor forma possível as redes de Albertosi, enquanto que a Alemanha arregaçou as mangas e foi em busca do golo que pudesse restabelecer a igualdade. O jogo continuava com poucas ocasiões de perigo pois nem os italianos atacavam nem deixavam atacar, visto que recuaram as linhas e eram exemplares a defender. As equipas foram para o intervalo com a squadra azzurra a vencer por uma bola a zero.

Na segunda parte tudo mudou. Ao minuto 67, Beckenbauer passou por um adversário e quando ia a passar pelo segundo para ficar cara-a-cara com o guarda-redes sofre uma entrada dura. Teve uma queda aparatosa. Os seus colegas de equipa rodeavam o árbitro e esbracejavam com ele pedindo grande penalidade, pois a falta foi mesmo em cima da linha da grande área. O árbitro mexicano apenas assinalou uma falta à entrada da área.  Beckenbauer, por sua vez, não se mexia. Aos poucos foi se levantando. Tentava mexer o braço direito, sem grande sucesso. Na sua cara era possível ver a sua preocupação. Algo não estava bem e ele sentia isso mesmo.

Tinha acabado de deslocar o ombro e a Alemanha já tinha esgotado as substituições. Mas alguma vez passou pela cabeça de Beckenbauer sair de campo e deixar a sua equipa a jogar com 10? Claro que não. Nunca. Ele recusou sair e insistiu que queria ser amarrado e continuar a jogar. Completamente louco. Não louco de com uma doença mental se tratasse. Mas sim, louco pelo jogo e pela sua essência. Futebol é isto. É compromisso, é saber sofrer, é lutar, mesmo que as coisas não estejam como desejamos.

Quantos no lugar de Beckenbauer teriam saído de campo e abandonado a sua equipa porque “só” faltavam 20 e poucos minutos? Muitos, certamente. Mas ele não, simplesmente não estava no seu ADN.

Combalido e ainda meio atordoado, lá voltou o líder da Alemanha para dentro de campo, desta vez, com várias fitas brancas amarrando o braço ao peito. Aos 24 anos de idade, lesionado e ainda dentro das quatro linhas, Beckenbauer dava um exemplo de espírito de sacrifício, vontade e determinação até então nunca antes visto.

Aquele momento, serviu de inspiração para toda a equipa alemã. Todos se aperceberam que tinham ali um colega de equipa disposto a ir até ao fim e a dar tudo por eles. Então, toda a equipa pagou na mesma moeda. Naqueles 20 minutos até ao final da partida, os alemães pareciam ter trocado as pilhas e ter ganho uma nova vida. Inspirados em Beckenbauer, chegaram ao empate. Cruzamento tirado e no centro da área, aos 90+2 minutos, apareceu Schnellinger para finalizar de cabeça e para levar o jogo para prolongamento. Euforia total num momento digno de filme.

Após muita emoção, surgiu o prolongamento; ambas as equipas encontravam-se extremamente fatigadas, de um lado a Itália, por ter corrido quase 80 minutos atrás da bola, e por outro lado a Alemanha, por ter dado o que tinha e o que não tinha para garantir o empate. Com tanto cansaço acumulado, os erros foram sucessivos e os golos surgiram constantemente; em 30 minutos de prolongamento ocorreram 5 golos, fazendo com que o resultado (4-3) acabasse por sorrir para os italianos.

Muitos não queriam acreditar na injustiça pela qual Beckenbauer passava, pois sacrificou-se pela equipa e mesmo assim foi eliminado da prova, mas Deus escreve direito por linhas tortas e 4 quatro anos mais tarde, o “Kaiser”, continuando a ser líder, mas desta vez com a braçadeira de capitão, realizou o seu sonho e ergueu a taça do campeonato do mundo. Já como treinador, voltou a vencer o mundial, desta feita o de 1990, sendo uma das três pessoas do mundo a vencer a competição como jogador e treinador (apenas Beckenbauer, Zagallo e Deschamps conseguiram tal proeza).

Com o braço ao peito, Beckenbauer mostrou ao mundo que era digno de ser apelidado de “Kaiser”, pois foi um autêntico imperador na formação alemã, sabendo como deveria liderar a sua equipa com elegância, apesar de se encontrar em sérias dificuldades físicas. O alemão, por mais títulos que tenha ganho, irá ser para sempre reconhecido por este momento. Assim, com este momento histórico, o “kaiser”, sem caneta e sem um braço, “escreveu” uma das páginas mais bonitas da história do futebol.

 

 

Alexandre Ribeiro

Nascido e criado na ilha Terceira, nascido e criado para o futebol. Desde cedo aprendi, vivi e vibrei com o desporto rei. A licenciar-me em Ciências da Comunicação na FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Com o futebol e a escrita espero proporcionar um espectáculo fora das 4 linhas para todos aqueles que partilhem o gosto pela bola e pelos seus artistas.