Opinião: As novas regras no futebol

O futebol sempre foi alvo de várias críticas relativamente às regras do jogo e, com elas, sempre surgiram diversas propostas para as alterar. Nem dito nem feito, num desporto que, ao longo dos anos, já sofreu diversas e profundas mutações no seu quadro de regulamentos, a FIFA voltou, este ano, a aprovar nova atualização a estes termos.

De facto, com uma lista de 12 novas e renovadas leis de jogo divulgada pelo órgão máximo do futebol, é de louvar a inclusão de algumas com o intuito de combater o denominado “antijogo”, como o facto de o jogador ter que abandonar o relvado pelo ponto mais próximo da linha delimitadora, aquando de uma substituição, para evitar perdas de tempo (Lei 3). Quanto a isto, dou o braço a torcer. Penso que foram decisões acertadas…, mas serão suficientes?

Parece que, independentemente das alterações deste género que se façam, o futebol continua a ser um dos desportos (senão o desporto) em que ocorrem maior número de cenários de “antijogo”. Obviamente que há fatores que, diretamente, pelo menos, acabam por fugir ao controlo das entidades reguladoras, como é o caso de alguns comportamentos lamentáveis de certos jogadores (simular/exagerar faltas ou lesões, por exemplo). Ainda assim, é inegável que, por comparação com outros desportos, o futebol acaba por ser dos mais “liberais” no que toca a comportamentos inadequados dentro e fora das quatro linhas.

Por um lado, há a questão do respeito à autoridade máxima dentro de campo. Quantas vezes não vemos jogadores a dirigirem comentários obscenos ao árbitro, sem que este se imponha sobre os mesmos? Assistimos, com isto, a inúmeros cenários em que atletas de cabeça perdida gesticulam e lançam todo o tipo de injúrias ao juiz da partida, que se limita a ficar ali, “impotente”. Quando procuramos cenários destes em desportos como o basketball, por exemplo…não os encontramos! Ou são muito raros, no mínimo. Isto porque, neste desporto, como se diz na gíria, os jogadores não podem nem “piar” diante do Sr. árbitro, ou arriscam-se a sanções disciplinares possivelmente graves, por vezes mais graves que aquelas que encontramos no futebol em situações piores. Dos poucos juízes a que poucos futebolistas tiveram coragem de fazer frente dentro de campo foi o italiano Pierluigi Collina. Faltam exemplos como o deste senhor, hoje em dia, mas falta também uma mão mais firme da FIFA nesta questão, a meu ver.

Por outro lado, e talvez a questão mais debatida ao nível das regras-base futebolísticas, surge a questão do tempo de jogo que se perde, claro. Um estudo realizado pela CIES (observatório de futebol ligado à FIFA) em 2018 tirou conclusões preocupantes, mas que não são novidade para muitos, infelizmente. A nível europeu, apenas pouco mais de metade dos 90 minutos de jogo são, efetivamente, jogados, sendo o tempo restante preenchido por assistências médicas e demoras na reposição da bola em jogo. Nem a liga Sueca, a grande “vencedora” deste estudo, consegue ir além de 60.4% de tempo efetivo (a Liga NOS, sem grande surpresa, ocupa a última posição, com apenas 50.9%). Para poupar a matemática ao leitor, digamos apenas que, no melhor dos cenários, é possível assistir a cerca de 54 minutos de futebol, para quem se dispuser a viajar para o norte da Europa.

Posto isto, pergunto eu, porque não adotar um método semelhante ao do futsal, ou do hóquei, ou das modalidades de pavilhão em geral, em que o cronómetro só avança enquanto o jogo, efetivamente, decorre? Custaria assim tanto em termos de logística reduzir o tempo, mas com este sistema implementado? Logicamente que esta está bem longe de ser uma ideia original minha, mas não me canso de me questionar o porquê dos órgãos coordenadores do futebol não se pronunciarem mais sobre a mesma. Penso que seria benéfico, não só para quem o vê, mas, acima de tudo, para o desporto em si. Para nós, adeptos, que pagamos exorbitâncias por um ingresso para acabar a assistir a “meio jogo”, porventura deveria ser um assunto que tocasse a mais gente, no mínimo.

Muitos podem argumentar (legitimamente, atenção) que o futebol deixaria de ser o futebol como nós o conhecemos caso medidas destas chegassem mesmo a avançar, ou que, no mínimo, perderia algum brilho que a própria da polémica acaba por lhe conferir. Não nego, pelo contrário até, mas uma coisa é jogar pelo jogo, outra coisa é o “vale-tudo”. Para um desporto contando já séculos de existência, não será tempo de repensar isto?

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.