Lembra-se de Maniche?

As origens e a alcunha

Nuno Ricardo de Oliveira Ribeiro sempre foi conhecido, dentro e fora das quatro linhas, por Maniche. A alcunha derivou do dinamarquês Michael Manniche, médio ofensivo que representou o Benfica na década de 80. Foi-lhe atribuída por Arnaldo Teixeira, o seu primeiro treinador, com apenas 9 anos.

Nascido no bairro da Boavista nos subúrbios de Lisboa, a 11 de novembro de 1977, o pequeno rebelde e filho de uma família humilde começou cedo a trabalhar o seu talento com os pés, realizando toda a sua formação nas camadas jovens do Benfica e tendo feito a sua estreia como sénior pelo clube em 95/96, época em que atuou em dois jogos, ambos para a Liga Europa e ambos contra os belgas do Lierse.

FC Alverca: os “primeiros passos”

Com a mudança de treinador na época seguinte veio uma mudança de clube também, ainda que temporária. Manuel José sucede a Artur Jorge no comando dos encarnados e o novo técnico sentiu que faltava ainda algum andamento ao jovem médio de 19 anos, acabando este por rumar ao Ribatejo, onde representaria o Alverca ao longo das 3 épocas seguintes, a título de empréstimo. O que é facto é que, ao serviço dos ribatejanos, começaria a somar minutos e até alguns golos, bem como a ganhar maturidade dentro de campo. Com o Alverca então na segunda liga, participou em grande parte dos jogos. Já no escalão máximo do futebol português, ajudou o Alverca na manutenção, em 98/99, a última época ao serviço do clube.

SL Benfica: o regresso e os atritos

Estávamos, então, em 1999/00, numa temporada em que, apesar do 3º lugar do Benfica, o jogador consagraria os melhores números da sua carreira, apontando 12 golos em 35 jogos. 2001/02, no entanto, não foi de todo uma época feliz, vendo-se envolvido em problemas disciplinares com Luís Filipe Vieira, acabando por não somar qualquer minuto pela equipa principal, excetuando um único jogo ao serviço da equipa B. Tal situação resultaria mesmo na rescisão de contrato com os encarnados, no final da temporada.

FC Porto: o Special One e o sonho europeu

Costuma-se dizer que há males que vêm por bem e neste caso parece que se fez mesmo jus ao ditado. Em 2002 acabaria por se transferir a custo zero para o Porto, a convite de Pinto da Costa, e foi mesmo na Invicta que viveu os seus melhores tempos, no que a títulos diz respeito. Além dos nove golos em 44 jogos realizados com os dragões, conquistou nesse mesmo ano, não um, nem dois, mas sim três títulos. Falamos da liga portuguesa, da Taça de Portugal e da Taça UEFA, conquistada ao Celtic.

Se 2003 foi bom, 2004 então avizinhava-se um autêntico conto de fadas. Foram outros três títulos, mas desta vez, e com José Mourinho de novo, tornar-se-iam mesmo os reis da Europa, ao conquistarem a Liga dos Campeões, levando de vencida a formação do Mónaco por uns expressivos 3-0. A este feito somaram ainda as conquistas do bicampeonato e da Supertaça. Maniche jogou meia centena de partidas esse ano, apontando 10 golos pelos azuis e brancos.

Maniche viria a abandonar o clube e o país em 2006, rumando a Moscovo, onde representaria o Dínamo, num negócio a render 16 milhões de euros aos cofres nortenhos.

Pela Europa fora: a Premier League e o Scudetto

Após uma passagem discreta em terras russas, iria acabar em Inglaterra logo em janeiro de 2006, jogando o resto da temporada emprestado ao Chelsea, num ano em que conquistaria a Premier League pelos Blues. Fez assim parte de uma equipa que contava com vário nomes sonantes, como Arjen Robben, Petr Čech e Frank Lampard, não esquecendo também o reencontro com Mourinho.

Regressado de empréstimo, voltaria a protagonizar mais uma transferência milionária, desta feita para o Atlético de Madrid (nove milhões de euros). Pelos colchoneros, praticou um futebol bastante atrativo, sendo opção mais do que habitual nas escolhas de Javier Aguirre, ainda que tal não se tenha refletido em títulos.

A meio da segunda época no “Atleti”, trocaria Espanha por Itália, num empréstimo em que ajudou o Inter a conquistar a Serie A, acrescentado assim mais um troféu ao seu portfólio, ao lado de craques como Luís Figo, Zlatan Ibrahimović, Marco Materazzi e ainda um muito jovem Mario Balotelli.

De regresso a Madrid e após mais uma época pelo Atlético, com 32 jogos e dois golos, Maniche acaba por abandonar o clube noutra circunstância pouco feliz, voltando a ver-se envolvido numa confusão, desta vez com o treinador, que pretendia dispensá-lo, mas, segundo o médio, sem nunca apresentar justificações concretas.

Independentemente das ocorrências, teve, ao longo de, sensivelmente, três anos, a oportunidade de jogar lado a lado com jogadores como Sergio Agüero, Fernando Torres e o compatriota Simão Sabrosa.

Efetua então nova mudança, sendo a Alemanha o seu destino, desta vez. Assinava, assim, a custo zero pelo Colónia, por um ano. Numa temporada sem grande história, o atleta mantinha a boa forma a que já vinha habituando as equipas por onde passava, com uma visão de jogo acima da média e uma força de remate capaz de fazer “panicar” qualquer guarda redes.

Sporting CP: o sonho cumprido…e o fim da história

Diz outro ditado que o bom filho à casa torna e assim foi. Mais uma vez a custo zero, Maniche regressou em 2010 a Lisboa, desta vez para vestir a listada verde e branca. O Sporting era, assim, a sua nova e última casa antes de pendurar as botas, o que lhe permitiu cumprir um sonho, não seu, mas do seu pai, um adepto entusiasta do clube que sempre ambicionara ver o filho a representar. Em mais uma época sem muito brilho a nível coletivo, o atleta fez o que lhe competia, jogando em 27 partidas e encontrando as redes adversárias por quatro ocasiões.

Jogou o seu último jogo oficial na Madeira, frente ao Nacional. Partida essa que os leões viriam a perder por 1-0. Um final algo triste, tendo em conta a fantástica carreira deste jogador.

Seleção nacional

Nem só de clubes viveu o médio, representando por diversas ocasiões a equipa das quinas, numa época de grandes talentos na nossa seleção. Estreou-se em 2003 pela mão de Luís Felipe Scolari e só parou quando atingiu um total de 53 partidas com a cruz de Cristo ao peito, somando ainda sete tiros certeiros. Teve também a oportunidade de contribuir no Campeonato do Mundo de 2006 e no Campeonato Europeu de 2004.

Um jogador que marcou os relvados, tanto pela sua qualidade, como pelo seu temperamento. Maniche foi, é e continuará certamente a ser um atleta de referência no nosso futebol.

 

Fontes das imagens: Getty Images e RFBMarques

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.