Opinião – O problema de ser português (e gostar de futebol) na Europa

Nos últimos anos as questões em torno do poder dos clubes portugueses nas competições europeias tem sido cada vez mais relevante, especialmente a partir do momento em que Portugal foi ultrapassado pela Rússia no ranking da UEFA, perdendo uma colocação na Liga dos Campeões.

As performances desastrosas do Benfica na fase de grupos da Liga dos Campeões, as derrotas inacreditáveis do Sporting diante de clubes com nomes quase impossíveis de pronunciar e recentemente, o “grande” que se tem portado melhor na Europa caiu aos pés do Krasnodar no play-off da Liga dos Campeões. O Braga está em via para uma fase de grupos épica este ano, mas desde a final de Dublin em 2011, nunca mais teve um trajeto brilhante nas competições europeias. Do Vitória de Guimarães não se pode esperar muito pelo orçamento que lhes é disponível,  mesmo tendo sinais positivos nesta época apesar do grupo azarado que lhes foi sorteado.

Os dedos podem ser apontados a diferentes indivíduos, causa e conjunturas mediante os casos específicos dos clubes. Culpem o Varandas no Sporting, o Luís Felipe Vieira no Benfica ou o Sérgio Conceição no Porto. A verdade é que nenhum clube está fora do debate. O futebol português é que sofre e os dias de glória europeia ficam cada vez mais no passado.

Sendo o problema estruturante, afetando quase todos os clubes que vão representar o nosso país pelo continente fora, não será hora de olhar para as coisas de forma diferente? Dos adeptos questionarem menos as escolhas de Lage, o dinheiro de Félix, a rotação do Conceição, e começarem a olhar para o nosso campeonato, o nosso nível de futebol e pensar se não estará por aí a raiz do problema?

O desequilíbrio orçamental na primeira divisão do futebol português é uma discussão com barba, bengala e cabelos brancos. No entanto há de continuar por cá enquanto for relevante, como é muito bem agora.

Seria muito mais fácil pôr este assunto de volta “para baixo do tapete” mas a questão torna-se inevitável quando chega aos grandes palcos que os nossos maiores clubes têm a hipótese de os pisar (e cair nos mesmos). Quando os clubes grandes têm milhões sem fim para gastar e “vêm-se gregos” para conquistar pontos diante de equipas que quase contam tostões, algo de errado se passa.

Vendo as dificuldades que o Benfica, Porto e Sporting têm passado a nível exibicional no campeonato, enquanto as três maiores forças do futebol português, com naturalidade que ficamos com expetativas inferiores para os jogos da Liga dos Campeões e da Liga Europa. Não é equiparável o nível de futebol que tens que praticar para vencer um Leipzig e um Santa Clara. Quando ganhas por 1-2 com dificuldades diante da formação açoriana, esperas que consigas o mesmo resultado no confronto com os alemães?

No caso do Benfica pode-se argumentar pelo investimento que os clubes de campeonatos melhor financiados possuem, os adversários do clube da Luz disputam o campeonato francês, russo e alemão, onde há mais dinheiro e este passa por mais gente. Isto não desculpa ficar em último no grupo quando se gastam quase 50 milhões em contratações com a possibilidade de se ter feito ainda mais, mas é um ponto de comparação para com o nosso campeonato.

Agora, olhemos para o caso do Rangers. O campeonato escocês tem uma rica história e uma cultura incrível, mas com algumas semelhanças e uma diferença ainda mais drástica, os dias de glória dos seus clubes europeus são história longínqua. No entanto, em duas partidas diante do Porto, consegue um empate no Dragão e uma vitória em Glasgow. Há um problema maior que o dinheiro aqui. Mas o dinheiro poderia ajudar a resolvê-lo.

O nível competitivo e financeiro do nosso campeonato é muito inferior aos casos do “Top 5”, contudo estamos a perder gás na corrida do futebol que se joga no “resto da Europa”. A Rússia é o nosso grande rival, a vencer-nos neste momento, mas quando olhamos para a qualidade dos clubes holandeses (o exemplo notório do Ajax) e austríacos (RB Salzburg) na Liga dos Campeões, já ficamos desconfortáveis porque claramente estamos longe de podermos considerar-nos os “melhores do resto” (ao menos isso já era decente).

Reflita-se sobre o nosso futebol e o estado em que está. Sobre as condições a que os clubes “inferiores” estão sujeitos e os serviços mínimos que os “grandes” têm apresentado para os vencer. Quando se joga tão pouco de forma regular e soma-se vitórias após vitórias, nem sempre é um sinal de que o clube tem a “fibra de campeões” ou a “consistência que se quer”. Talvez a diferença de qualidade nas equipas devesse resultar em vitórias mais avolumadas e em melhor futebol. Não quero goleadas todas as semanas nem campeões em março. Peço mais futebol a todos, e que haja mérito em vencer, valor no nosso jogo e que isso passe lá para fora.

Há jovens de qualidade nas camadas jovens e a formação portuguesa está a passar por anos dourados, como nos temos habituado nas décadas passadas. Com uma melhor plataforma competitiva e prospeção de sucesso europeu em Portugal, poderíamos ter clubes portugueses em grandes finais europeias outra vez, talvez de uma Champions, se isso não for sonhar muito alto…

José Horta

Não nasci a gostar de futebol, mas quando comecei nunca mais quis outra coisa. Algarvio de nascença mas adepto do futebol para além daquele que se joga na praia. Sempre atento aos contornos e novidades do "Desporto Rei", "Beautifull Game" ou lhe quiserem chamar. Aluno universitário de Ciências da Comunicação na FCSH.

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