Opinião: Há que ter coragem na Europa

Depois de uma vitória convincente no fim-de-semana frente ao Rio Ave por 2-o em jogo a contar para o campeonato, o Benfica voltou a perder para a Liga dos Campeões, desta feita frente ao Lyon, em França, por 3-1, complicando as suas contas na Europa. Afinal o que falta às águias nas competições europeias? Na minha ótica a resposta parece simples: coragem.

Nas últimas temporadas as campanhas das águias na principal competição de clubes, a Liga dos Campeões, têm ficado muito aquém daquilo que um clube da plenitude do Benfica – que na sua história venceu inclusive a competição por duas vezes – deveria fazer.

Apesar de internamente os encarnados estarem sem dúvida alguma na melhor fase do século – somando cinco campeonato nos últimos seis anos – ao nível europeu tem sido uma autêntica desilusão, para ser simpático. Hoje em dia é mesmo impensável pensar em Benfica e Liga dos Campeões e não lembrar a vergonhosa campanha em 2017/18, quando as águias não somaram qualquer ponto na fase de grupos da competição e ficando assim de fora das competições europeias.

Com quatro jogos realizados na Liga Milionária esta época, a imagem não está assim tão distante, somando apenas três pontos, após ter perdido com o Zenit, Leipzig e Lyon mais recentemente e tendo vencido os franceses na jornada passada. Pela frente restam ainda uma difícil viagem à casa do líder isolado do grupo, o Leipzig, tal como uma receção que poderá ser decisiva aos russos do Zenit.

Contudo, mais que os resultados, o que se destaca pela negativa dos jogos do Benfica na Europa, é mesmo a sua qualidade exibicional (ou neste caso, a falta dela). Os primeiros 45 minutos do jogo desta terça-feira em Lyon foram, muito provavelmente, os piores da equipa esta época e um bom exemplo daquilo que tem sido a atitude na Europa. Uma equipa que entra a medo, sem atitude, demasiado fechada e com respeito em demasia pelo adversário.

E o que se ganha com essa atitude? A resposta está bem à vista: Absolutamente nada. É verdade que há mais variantes à volta destas derrotas – muitos apontam as escolhas e a rotatividade excessiva de Bruno Lage, por exemplo – mas hoje em dia a atitude é meio caminho andado no futebol e disso há vários exemplos.

Olympiakos 2 – 2 Tottenham; Real Madrid 2 – 2 Club Brugge; Barcelona 0 – 0 Slavia de Praga; Nápoles 1 – 1 Salzburgo. O que é que estes encontro têm todos em comum? Todos eles são resultados onde as equipas teoricamente mais fracas surpreenderam os favoritos e, para além, todos eles nesta edição da Liga dos Campeões.

E nem é preciso ir assim tão longe para o Benfica ver um bom exemplo. No Minho, mais propriamente na Cidade do Berço, mora uma equipa que tem vindo a mostrar não querer saber desses favoritismos.

Após quatro jornadas da fase de grupos da Liga Europa, o Vitória de Guimarães soma apenas um ponto, estando a sua eliminação cada vez mais acertada. Contudo, o que conta aqui não são as derrotas, mas sim como se perde.

Claro que é notável uma diminuição de qualidade entre as duas competições – basta ver as equipas utilizadas por grandes equipas como o Arsenal, que quase não utilizam os seus habituais titulares – mas a verdade é que a imagem deixada conta muito e nisso os vitorianos estão a ser um exemplo.

Uma derrota por 1-o frente ao Eintracht Frankfurt, uma derrota por 3-2 frente ao Arsenal e um empate a uma bola no Emirates. Em todos eles os Vitória SC era apontado como o menos favorito e em todos eles esteve perto de fazer uma surpresa. Porquê? Porque olhou o jogo olhos nos olhos e não quis saber de orçamentos, valores de jogadores ou favoritismos. O David pode vencer o Golias e para isso precisa de 80% coragem, atitude, vontade (os restantes 20% têm que estar ligados a componentes como estratégia, qualidade e até mesmo sorte para se ser sincero).

Atenção, desengane-se quem acha que esta opinião é exclusiva a águias e vitorianos. Todas as equipas portuguesas deveriam ter essa coragem sempre em atenção. Hoje somos cada vez mais um campeonato de exportação, mas para exportarmos, é porque temos qualidade. Se há qualidade, porquê encolhermo-nos?

A isto soma-se o facto de tanto leões como dragões não terem de momento a vida nada fácil na Liga Europa, especialmente quando, à partida, eram favoritos nos respetivos grupos. O Sporting encontra-se atualemnte em 2º lugar, com seis pontos, mas é seguido de perto pelo LASK Linz (que tem quatro) pelo que terá que estar atento para não ser ultrapassado. Por sua vez o FC Porto está em posição mais perigosa, encontrando-se no 3º lugar do grupo, com os mesmos pontos do 2º, o Rangers, e com quem jogará esta jornada, precisando de mostrar o grande FC Porto europeu a que nos habituou nos últimos anos.

Por outro lado surge o Sporting de Braga, que partia para esta competição num grupo muito equilibrado e onde ninguém se surpreenderia caso não passasse à próxima fase. Hoje ainda não garantiu essa qualificação, mas que está bem colocado, isso é inegável. Os bracarenses têm sete pontos neste momento, ocupando o primeiro lugar do grupo à frente do ‘português’ Wolverhampton, do Besiktas e do Slovan Bratislava e demonstrando que o que ganha jogos não são nomes.

Não podem existir duas faces: a face europeia e a face interna. Um clube não pode mudar de identidade só porque ouve um hino diferente no início das partidas. Obviamente pode, e deve, fazer-se alterações táticas que lhe possam ser favoráveis para cada jogo – afinal é para isso que tem uma equipa técnica a preparar jogo a jogo – mas não se deve esquecer quem se é.

Portugal é uma pátria de corajosos e disso reza a história. Resta agora saber se equipas como o Benfica ainda vão a tempo de ter essa coragem e (pelo menos) permanecer nas competições europeias e dignificar o nome do clube.

 

Fonte da Imagem: SAPO Desporto

Francisco Carvalho

Desde tenra idade que duas paixões me cativaram, desporto e a escrita, sendo a sua união o cenário ideal. Cedo percebi que com esforço e dedicação poderia juntar uma paixão a uma profissão, sendo o jornalismo a resposta. Numa geração onde a banalização e a desvalorização da informação são recorrentes, quero mostrar a relevância do mundo jornalístico em toda esta sociedade cativante que nos rodeia.

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