Lembra-se de…Tomas Rosicky: O pequeno Mozart

As lesões são a pior parte da carreira de qualquer jogador profissional. Alguns, com mais azar, têm a carreira marcada e limitada por elas. Dentro destes, existem ainda alguns, com mais talento, que deixam qualquer adepto com a pergunta: “O que poderia ter sido?”. Tomas Rosicky é um destes jogadores.

Nascido em Praga, em 1980, Tomas Rosicky herdou genes futebolísticos. O pai, Jiri, jogou durante 11 anos no Sparta de Praga. O irmão três anos mais velho, também Jiri, fez a formação no histórico checo e chegou a fazer parte da primeira equipa.

Como não poderia deixar de ser, o talentoso médio começou a jogar no “clube da família” com oito anos de idade. Dez anos depois, em 1998, estreou-se na primeira equipa do Sparta e logo na primeira época foi campeão nacional. Na segunda época o clube revalidou o título e Rosicky já era uma das grandes promessas do futebol europeu. Foi com 19 anos que se estreou pela seleção checa, chegando a fazer parte dos convocados para o Euro 2000. Até hoje, Rosicky é o mais novo jogador de sempre a jogar pela sua seleção numa grande competição.

Nesta altura já era perceptível que o Sparta de Praga tinha produzido um craque destinado a grandes campeonatos. Com apenas 20 anos, em Janeiro de 2001, o tornou-se o jogador mais caro da história da Bundesliga e o jogador checo mais caro da história: 25 milhões de marcos (perto de 14 milhões de euros) foi o valor desembolsado pelo Borussia Dortmund.

Tudo corria bem a Rosicky. Logo na sua primeira época na Alemanha, o Borussia venceu a Bundesliga e chegou à final da Taça UEFA, com o checo a assumir um papel importante na equipa. Este foi, talvez, o melhor período da sua carreira. Em 2001 e 2002, o “Pequeno Mozart” venceu o prémio de Melhor Jogador checo do ano, contra colegas de seleção como Nedved e Poborsky.

Foi com estes nomes, aos quais se juntam Petr Cech, Milan Baros e Jan Koller (colega de Tomas no Dortmund), que começou a surgir uma das melhores gerações do futebol checo, que viria a atingir o seu esplendor no Euro 2004. Em solo português, a equipa checa foi a sensação do torneio, apresentando um futebol de grande nível e vencendo a Holanda, a Alemanha e a Dinamarca, com Rosicky a titular em quatro dos cinco jogos. A equipa só viria a cair nas meias-finais frente à Grécia.

A nível de clubes, no entanto, a carreira de Rosicky começou a piorar por esta altura. O Dortmund baixou bastante o nível e acabou em sexto e sétimo na Bundesliga entre 2004 e 2006. Foi também neste período que começaram a aparecer algumas lesões ao médio.

Apesar de todos estes problemas no clube, Rosicky ia solidificando o seu estatuto e importância na seleção, sendo peça fundamental na qualificação do seu país para o Mundial 2006. O primeiro jogo da República Checa neste Mundial marcou um dos pontos altos na carreira de Rosicky, que assinou dois grandes golos frente aos Estados Unidos. Apesar da excelente estreia, a seleção checa ficaria pelo caminho na fase de grupos.

O ano de 2006 trouxe uma mudança importante na carreira do craque, que se transferiu para o Arsenal. Rosicky fez parte de uma nova era do Arsenal, chegando na altura em que Arsène Wenger procurava reinventar a equipa dos “Invencíveis”, que na época anterior chegara à final da Liga dos Campeões.

Depois de uma época de estreia muito positiva em Londres, Rosicky lesionou-se com gravidade no joelho em janeiro de 2008. Esta foi a primeira lesão grave do checo e era o início de um longo calvário. O médio não jogou mais durante a época 2007/08 e ficou de fora durante toda a época 2008/09. Esta lesão também o afastou do Euro 2008.

Quando voltou aos relvados, Rosicky nunca conseguiu atingir o seu nível anterior à lesão e não voltou a ter a mesma preponderância na equipa do Arsenal. Daí para a frente, foi mostrando alguns momentos de brilhantismo pelos Gunners, mas apenas a espaços, não se voltando a afirmar como indiscutível para Wenger.

No seu terceiro europeu, em 2012, o azar voltou a bater à porta. Desta vez foi o tendão de aquiles a trair Rosicky, que só voltou a jogar perto do final desse ano. Ainda assim, o checo sempre foi um jogador muito acarinhado pela massa adepta do Arsenal, que sabia o valor de Rosicky sem as lesões.

O Pequeno Mozart era constantemente elogiado por Arsène Wenger, que via nele um jogador perfeito para o estilo de jogo que implementou no Arsenal. Rosicky tinha pormenores de génio. Tecnicamente estava ao nível dos melhores do mundo na sua posição, mas foi deitado abaixo pelas lesões.

Seja como for, nem tudo pode ser azar e Rosicky ainda conseguiu ser muito importante para o Arsenal. Na época 2013/14, marcou um golo ao Tottenham para a FA Cup (troféu que o Arsenal viria a conquistar, acabando a seca de títulos) e ainda outro no North London Derby para o campeonato – este último, um dos melhores da sua carreira. Nesta época, destaque ainda para um genial golo coletivo frente ao Sunderland, que demonstra não só o (muito) que jogava o médio, mas também toda a filosofia de Wenger e do Arsenal.

No ano seguinte, apesar de ter sido menos relevante para a equipa, Rosicky conquistou a Community Shield e a FA Cup com o Arsenal, acrescentando títulos à sua longa passagem pelo clube. No verão de 2015, uma nova operação ao joelho afastou-o da equipa até janeiro de 2016. Nesse verão acabava a ligação com o clube londrino e, com 35 anos, o craque despediu-se de Inglaterra, sendo homenageado no seu último jogo no Emirates Stadium. Ainda em 2016, Rosicky representou a seleção checa no Europeu, o quarto da sua carreira. Foi a sua despedida do futebol internacional.

Para terminar uma difícil (mas bonita) carreira, nada como voltar a casa. Foi o que fez o “Pequeno Mozart”, que tentou voltar a ser feliz, no clube que o viu crescer e onde é adorado. Mas nem aí as lesões o deixaram ter o final que merecia: na segunda passagem pelo Sparta, Tomas Rosicky jogou apenas 13 partidas em duas épocas. Retirou-se do futebol em 2017, com 37 anos. Depois de terminar a carreira, o craque manteve-se ligado à estrutura do Sparta de Praga, assumindo as funções de diretor desportivo.

Um jogador enorme que poderia ter sido ainda maior, não fosse o azar dos problemas físicos. Há carreiras ingratas e injustas, mas, ainda assim, ao ver Rosicky jogar, nenhum amante de futebol consegue ficar indiferente à qualidade e magia do checo, que estava ao nível de poucos. Um jogador que não merece ser esquecido.

Em baixo, alguns dos melhores lances do craque com a “7” do Arsenal:

Francisco Madureira

Nascido em Lisboa, sou louco por futebol desde que me lembro. Tenho mais jeito para ver e escrever do que para jogar. Cedo aprendi que é um jogo cruel, mas é também isso que o torna belo. Atualmente a licenciar-me em Ciências da Comunicação.

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