Quando a posse de bola não conta para nada

É talvez uma das estatísticas mais controversas num jogo de futebol. Porque às vezes explica muita coisa e outras muito pouca. E porque às vezes acabar a ter muita bola, não significa que o desfecho tenha sido positivo.

O CIES Football Observatory publicou um estudo onde apresenta uma análise da performance de equipas de 35 competições europeias. Performance essa que se incide na percentagem de posse de bola. Para cada liga, existe um top ten de jogos em que se registaram os maiores números de posse de bola por parte de uma equipa, desde o inicio de julho até ao fim de setembro.

A partida recorde desta época e de todas as competições trata-se da vitória do Fulham frente ao Millwall por 4-0 num jogo a contar para a Segunda Liga Inglesa. Nesse jogo, o Fulham teve um total de 78,7% de posse de bola. Nenhuma outra equipa teve mais do que isso. Nota também para o Shakhtar de Luís Castro. É a única equipa que está por duas vezes nesta lista de dez jogos, os dois a contar para a liga ucraniana: cerca de 78% frente ao FK Lviv (2-0) e 77,4% contra ao Oleksandriya (3-1).

Mas voltemos à questão inicial. Por vezes, a posse de bola conta muito pouco. O jogo em que a equipa que perdeu contou com mais posse de bola também se passou em Inglaterra. Ainda estávamos em agosto quando o Tottenham recebeu o Newcastle e perdeu pela margem mínima. Os comandados de Pochettino tiveram 74,8% de posse de bola, mas não conseguiram evitar a derrota. É, de resto, o jogo no primeiro posto no ranking da Premier League.

Vamos ao nosso campeonato, onde a questão da posse de bola parece ser ainda mais reveladora. Dos dez jogos classificados com os maiores números, só em três é que a equipa com mais bola venceu. O Porto por duas vezes, frente ao Vitória de Setúbal (67,6%, 4-0) e ao Vitória de Guimarães (65,1%, 3-0), e o líder do campeonato, o Famalicão contra o Rio Ave (65,3%, 1-0). No topo, está o empate entre o Sporting e o Marítimo por 1-1, em que a equipa de Alvalade registou 68,9% de posse de bola. De anotar que o Benfica não aparece nesta lista. Certamente terá o seu significado.

É certo que se trata de uma pequena amostra, mas mesmo assim há um padrão passível de ser analisado. Sporting, Porto e Braga aparecem mais do que uma vez. Estão no pelotão das equipas mais fortes do campeonato e parecem fazer da posse de bola uma das suas armas. Do lado inverso, Marítimo, Vitória de Setúbal e Boavista são os repetentes. As duas primeiras começaram o campeonato em dificuldade e estão na metade inferior da tabela. O caso do Boavista é representativo de como joga a equipa de Lito Vidigal. Jogo assente no contra-ataque, a dar toda a iniciativa de jogo ao adversário. E não se pode dizer que não está a resultar. Está, juntamente com o Famalicão, ainda invencível para o campeonato.

É este o paradoxo da posse de bola.

 

Ricardo Oliveira

Oriundo da mesma terra do melhor jogador do mundo, a paixão pelo futebol não podia ser maior. Licenciado em Ciências da Comunicação na FCSH, gosta de escrever e está sempre de braços abertos a novos projetos.

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