Opinião: O quarto nível de incoerência

Um dos grandes destaques da semana no futebol nacional foi a contratação de Silas como novo treinador do Sporting. Podia ter sido a única, mas surgiu uma espécie de apêndice. José Pereira, presidente da Associação Nacional de Treinadores de Futebol, considerou “ridículo e inaceitável” o facto de Silas ter sido nomeado para o cargo, isto porque o técnico não tem o IV nível UEFA Pro exigido para orientar equipas da Primeira Liga.

Vamos por partes. Jorge Fernandes, mais conhecido por Silas no mundo do futebol, é um ex-jogador bem conhecido do futebol português, passando por clubes como o União de Leiria e o Belenenses. Foi com este último que começou a sua carreira de treinador. Fez 61 jogos por meio de três épocas (a primeira com o Belenenses, as últimas duas com o Belenenses SAD) e logo ficou marcado como um técnico com ideias positivas e refrescantes para o futebol da sua equipa.

Acontece que Silas tem apenas o III Nível UEFA e legalmente não está apto para treinar equipas da Primeira Liga. Assim o era no Belenenses, assim o é no Sporting. De facto, é um entrave. Em pleno jogo, Silas tem a mesma condição que um médico ou massagista, e são raras as vezes que pode dar indicações. Para isso há outro treinador com a habilitação necessária. Para além disso, não pode comparecer em flash-interviews. Mas essa questão abordo mais à frente.

“Custa-me a acreditar que uma pessoa licenciada em medicina, como o presidente do Sporting, admita para exercer funções quem não está devidamente habilitado. São situações tão ridículas como inaceitáveis”, José Pereira, Presidente da ANTF

As declarações de José Pereira são completamente escusadas e de difícil compreensão. Primeiro, estamos a falar de um senhor que está à frente de um associação que existe para defender os treinadores, ainda para mais quando o técnico visado é sócio pagante. Segundo, não me lembro de ouvir declarações deste tipo quando Silas foi nomeado treinador principal do Belenenses. Ou quando Pepa esteve na mesma situação. Mais: é esse nível (ou a falta dele) que faz com que o Silas ou outro qualquer não possa treinar uma equipa? Os treinos são dados por ele, assim como as táticas são feitas por ele, as substituições… O problema está em quem regula estas situações. Se é assim tão ridículo e inacreditável que isto aconteça, porque é que estes treinadores podem ser treinadores, menos dentro de campo? Para não falar das dificuldades, já contadas por Silas, que um ex-jogador tem em tirar os níveis todos da UEFA. Mas isso é um tema para outras conversas.

Isto não é o caso Silas, é um caso de incoerência e hipocrisia. Porque só se fala quando convém e para alguns e porque o problema não está nos treinadores ou dirigentes que prontamente são colocados no olho do furacão. Ou uma coisa ou outra. Silas não é menos treinador que outros por não ter o tal nível e assim como diz o próprio, os seus 30 anos de jogador talvez signifiquem mais que uma semana de um curso. Agora, se, e citando José Pereira, “para exercer funções tem de estar devidamente habilitado”, então não pode ser treinador de todo, e não estar apenas privado de falar durante e após dos jogos. Comparar medicina com futebol, quando diz que “um estudante não pode exercer medicina”, também não me pareceu o exemplo mais indicado.

É um pormenor que será ainda maior nas competições europeias, já que nem nas conferências de imprensa poderá comparecer. Mas o pior nem é isso: os árbitros internacionais serão mais rígidos perante situações em jogo. Mas a escolha foi do Sporting e só o futuro o dirá se foi a mais acertada. Também só no futuro é que Silas ficará com esse IV grau UEFA PRO. Até lá é deixá-lo trabalhar que certamente tem muito que fazer.

Ricardo Oliveira

Oriundo da mesma terra do melhor jogador do mundo, a paixão pelo futebol não podia ser maior. Licenciado em Ciências da Comunicação na FCSH, gosta de escrever e está sempre de braços abertos a novos projetos.

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