31 de maio de 1961: A primeira Taça dos Campeões do futebol português

Foi nesta data, em Berna, que o Benfica de Béla Guttmann bateu o Barcelona por 3-2, num jogo que fica para a história do futebol português.

Muito se fala da triste sina portuguesa. Dos azares de todo um povo e do seu fado, que vê o seu reflexo no futebol. Naquele dia, há 58 anos, nada disto se verificou e foi um Benfica feliz que fez com que o futebol português fosse pela primeira vez coroado entre os maiores da Europa.

O adversário dos portugueses era um super Barcelona, que, para chegar à final de Berna, teve de superar o rival Real Madrid, crónico campeão europeu até à data, com cinco troféus em cinco edições disputadas. Nas meias-finais, os catalães eliminaram com dificuldade os alemães do Hamburgo, tendo sido, no entanto, necessário o recurso a um terceiro jogo.

Por todas estas razões, o Barcelona chegava à final de Berna como indiscutível favorito, cabendo aos portugueses o papel de underdog. O Benfica tinha, semanas antes, conquistado o bi-campeonato nacional, confirmando que era a melhor equipa portuguesa. Para chegar a Berna, o Benfica teve de eliminar os escoceses do Hearts, os húngaros do Ujpest e, nas meias-finais, o Rapid Viena, depois de triunfo por 3-0 na Luz e empate a uma bola em casa dos austríacos.

E foi assim que as equipas chegaram ao estádio Wankdorf, em Berna, num jogo apitado pelo suíço Gottfried Dienst. Béla Guttmann fez alinhar Costa Pereira; Mário João, Germano, Ângelo; Neto, Cruz, Coluna, Santana; Cavém, José Augusto, José Águas, utilizando o tradicional sistema táctico do WM. Enrique Orizaola, no mesmo esquema táctico, apresentou Ramallets; Foncho, Gensana, Gràcia; Vergés, Garay, Suárez, Kocsis; Kubala, Czibor, Evaristo.

O jogo começou muito disputado a meio-campo, mas com o Barcelona a dominar e a demonstrar o seu favoritismo. Logo nos primeiros minutos, Mário João vê-se obrigado a cortar uma bola em cima da linha de golo. A defesa encarnada foi testada logo desde os primeiros minutos, com Germano a travar várias investidas dos blaugrana e a mostrar porque era considerado um dos melhores centrais do mundo.

Aos 9’, um lance preocupante para a equipa portuguesa. Mário Coluna, na disputa de um lance, chocou de cabeça com um adversário e ficou vários minutos de fora a ser assistido. Temeu-se o pior para o craque do Benfica, mas Coluna acabaria por voltar ao jogo (e de que maneira!), ainda que claramente limitado. Importante recordar que em 1961 não existiam substituições, como tal, caso Coluna não continuasse, o Benfica não só perderia o seu melhor jogador, como se veria forçado a jogar cerca de 80 minutos reduzido a 10 homens, o que tornaria quase impossível uma missão já difícil.

O Barcelona continuava o seu domínio e Suárez e Kocscis, através de remates de fora da área, obrigavam Costa Pereira a mostrar serviço. Apesar destas tentativas, o Benfica ia-se soltando no jogo e começava a trocar a bola no meio-campo catalão.

O jogo estava equilibrado. Até que ao minuto 21, depois de uma bela jogada de envolvimento, Luis Suárez, cruzou sobre o lado direito, para Sándor Kocsis, um dos três húngaros do Barcelona, que se antecipou a Mário João e cabeceou facilmente para o fundo das redes encarnadas. Estava inaugurado o marcador em Berna.

O jogo continuava combativo e o Barcelona até poderia ter chegado ao segundo golo. No entanto, dez minutos depois do golo blaugrana, o Benfica respondeu na mesma moeda, conseguindo igualar o marcador. Um fantástico passe de Coluna a rasgar a defesa do Barcelona consegue isolar Cavém, que sobre a esquerda do ataque encarnado, consegue cruzar para que José Águas finalize, sozinho à boca da baliza. Grande lance do Benfica, que ainda não tinha criado grandes oportunidades até ao momento.

Escassos instantes depois de ter chegado à igualdade, o Benfica voltou a colocar a bola na área do Barcelona e então, aconteceu um lance inacreditável. Depois do cruzamento de Neto e de um mau alívio de um defesa do Barcelona, a bola foi a pingar na direção da baliza e o guarda-redes Ramallets deixou-a escapar. Os jogadores do Barcelona ainda protestaram, mas foi claro que a bola ultrapassou totalmente a linha de golo. Um lance totalmente fortuito e, em dois minutos, o Benfica passou para a frente do marcador. Era a festa dos milhares de portugueses em Berna!

A festa durou pouco tempo e os nervos voltaram rapidamente. A linha da frente do Barcelona continuava a dar muito trabalho à defesa benfiquista, principalmente o húngaro Kubala e o brasileiro Evaristo que se mostravam muito perigosos para Germano, Ângelo e Mário João. Mário João que, como no início do jogo, voltou a tirar uma bola em cima da linha de golo, já perto do intervalo, desta vez perante um cabeceamento de Kocsis. Chegado o intervalo, o Benfica não se podia queixar da sorte, já que o Barcelona dominou largamente a partida e teve mais oportunidades claras de golo.

Começou então o segundo tempo, com o Barcelona a atacar mais, mas com um Benfica sempre combativo a ganhar duelos no meio-campo. Foi precisamente num destes duelos que a bola sobrou para Mário Coluna, que progrediu vários metros com a bola, abrindo na esquerda para Cavém. Depois de Cavém ter cruzado para o segundo poste, Àguas cabeceou em balão para a entrada da área. Aí, estava novamente ele. Mário Coluna. Sem deixar cair a bola e fazendo um remate à meia-volta, a lenda do Benfica disparou rasteiro e colocado, sem hipóteses para Ramallets. Foi este o momento do jogo e um dos golos mais importantes da história do futebol português. Estava feito o 3-1, aos 55’. Mas havia ainda muito jogo pela frente e muito que sofrer para os comandados de Béla Guttmann…

Pouco depois do golo, o Barcelona mostrou que estava longe de estar derrotado e Kubala obrigou Costa Pereira a (mais uma) defesa apertada. O Barcelona ia em busca do golo o que abria mais espaços aos médios do Benfica. Santana esteve muito perto de ampliar o marcador com um remate fora de área por cima da barra.

O Barcelona ia apertando o cerco. Num mau alívio, Germano traiu Costa Pereira, mas Evaristo sozinho em frente à baliza cabeceou ao poste. Perto dos 70’, mais um lance incrível. Kubala remata sozinho à entrada da área, com a bola a bater nos dois postes, a passar por cima da linha de golo e não entrar. A sorte estava definitivamente com a equipa portuguesa. Aos 75’, e porque a sorte não podia durar para sempre, Kubala rematou com o pé esquerdo de fora da área com a bola a ir ao ângulo superior. 3-2 a 15 minutos do fim.

Sofrimento e sacrifício são as palavras que resumem bem o restante jogo por parte do Benfica. O Barcelona massacrava os encarnados, mas encontrou sempre uma defesa muito segura e concentrada, comandada por um dos heróis da equipa, o imperturbável Costa Pereira. Perto do fim, mais uma bola ao poste da baliza do Benfica, desta feita por Czibor, e mais uma grande defesa de Costa Pereira a Evaristo. Os deuses do futebol estiveram, naquela tarde, com a equipa portuguesa. Santana, isolado, falhou o golo que mataria a partida em definitivo, mas o triunfo já não fugiu!

Terminou assim um jogo mítico, com uma invasão de campo e os heróis portugueses levados em ombros. Um jogo em que o Benfica teve a sorte do seu lado, mas também muito mérito pela bravura, raça e entrega de toda a equipa carregada por um Mário Coluna a um nível fenomenal. A primeira grande conquista do futebol português estava consumada num dos melhores momentos da história do Benfica, representado pela imponente imagem de José Águas a erguer a Taça dos Campeões.

 

Francisco Madureira

Nascido em Lisboa, sou louco por futebol desde que me lembro. Tenho mais jeito para ver e escrever do que para jogar. Cedo aprendi que é um jogo cruel, mas é também isso que o torna belo. Atualmente a licenciar-me em Ciências da Comunicação.

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