Pinto da Costa: O despertar do Dragão

Pinto da Costa dispensa grandes apresentações. Os números falam por si: Desde que assumiu o cargo de Presidente do Futebol Clube do Porto, em 1982, conta já com 60 títulos (somente no que respeita ao Futebol), sendo “apenas” um dos dirigentes mais titulados de sempre, responsável pelo crescimento do Porto nas modalidades e um dos presidentes com mais tempo na liderança de um Clube. Mais que um presidente, um símbolo!

Jorge Nuno de Lima Pinto da Costa, nasceu na freguesia de Cedofeita, na Cidade do Porto, no dia 28 de dezembro de 1937. Descendente de uma família de alta burguesia e com fortes ligações culturais, logo desde cedo começa a sua relação com o FC Porto, impulsionado pelo seu tio, Armando Pinto, grande entusiasta e adepto do clube da “Cidade Invicta”.

Pinto da Costa não revelava grande interesse pela vida académica, cultivando desde jovem um espírito rebelde e um temperamento bastante caricato que o caracterizam até hoje. Posto isto, Pinto da Costa estudou no conceituado Colégio de Jesuítas das Caldas da Saúde, mas decidiu não prosseguir os estudos, abandonando o meio académico após concluir o sétimo ano colegial (atual 12º ano), dando início à sua atividade profissional, participando nos negócios da família. É também por essa altura que inicia a sua relação profissional com o FC Porto, sendo que é aos 17 anos que se faz sócio dos azuis e brancos.

Falando da carreira como dirigente, esta iniciou-se em 1962, quando foi convidado pelo presidente da altura, Afonso Pinto de Magalhães, para fazer do corpo dirigente da secção de hóquei em patins do FC Porto. Passou pelas secções de hóquei em campo e boxe, onde teve um papel fundamental, impedindo mesmo a modalidade de boxe de ser abandonada pelo clube e promovendo também o dinamismo de outras modalidades. Com argumentos já mostrados ao serviço das modalidades, em 1976, Pinto da Costa é convidado por Américo de Sá, para ser Diretor do Departamento de Futebol.

Na altura em que Pinto da Costa chega ao Departamento viviam-se anos difíceis para o FC Porto, que estava numa crise de títulos depois de 17 anos sem conquistar qualquer campeonato. Estava ali a começar uma época gloriosa de conquistas para os “dragões”. No ano de 1978, após 19 anos sem conquistar o título de Campeão Nacional, o Porto volta a levar o título para a “Invicta” e logo de seguida o Bi Campeonato.

Perdido o tricampeonato em 1980, para o Sporting, o FC Porto renova o balneário, no chamado “Verão quente de 1980”, mas as opções tomadas foram algo duvidosas e rapidamente geraram-se conflitos internamente. As declarações de Pinto da Costa (Diretor do Departamento de Futebol) e José Maria Pedroto (Treinador) em relação ao poder de influência dos clubes de Lisboa são vistas como uma ofensa ao Porto por Américo de Sá, o então presidente, que decide demitir Pinto da Costa, seguindo-se a saída de Pedroto.

O caos imperava assim na “Invicta”, com os jogadores a recusarem-se a treinar, chegando mesmo a emitir um comunicado em solidariedade para com Pinto da Costa. A equipa ficou depois aos comandos do autríaco Hermann Stessl, substituto de Pedroto. Nos dois anos seguintes o Porto entrou em autogestão, num ambiente quase cataclísmico em que os jogadores fazem os testes uns aos outros, conferem os pesos uns dos outros e definem os seus regimes alimentares, chega mesmo a haver histórias de ameaças de rapto dos filhos dos jogadores para dissuadi-los a ficar no clube.

A 17 de abril de 1982, a lista encabeçada por Fernando Sardoeira Pinto (Assembleia Geral), Pinto da Costa (direção) e Manuel Borges (Conselho Geral) é eleita com mais de 95 por cento dos votos, naquele que foi o ato eleitoral mais concorrido até então. Inicia-se um novo ciclo no clube.

A nova era do Porto , com Pinto da Costa à frente do clube, fica desde logo marcada pelo retorno de José Maria Pedroto, que começou a criar juntamente com Pinto da Costa a famosa “mística” do Porto, que culminou anos mais tarde na conquita da Taça dos Campeões Europeus, um feito inédito para o clube. O sucesso de Pinto da Costa, como presidente, foi alicerçado pelos treinadores que o acompanharam ao longo destes 37 anos. Feitas as contas, foram 30 os técnicos que se sentaram no banco de suplentes dos “dragões”.

Antigo Brasão de armas da cidade do Porto que originou a ideia do símbolo do dragão

A título de curiosidade, o próprio simbolismo do dragão do Porto foi introduzido por Pinto da Costa, que viu as vantagens de trazer uma figura simbólica para o Clube, à semelhança do Sporting com o leão e do Benfica com a Águia. Uma alcunha que encontra fundamento no brasão de armas original da cidade do Porto, que tinha uma coroa por cima das armas, coroa essa da qual saía um dragão e a palavra «Invicta».

Em 1984, tornou-se no primeiro presidente do clube a estar presente numa final europeia, a Taça das Taças, que o FC Porto perdeu contra a Juventus por 2-1, vendo assim cair por terra o sonho da primeira conquista Europeia.

Apesar da derrota, percebiam-se ali os fortes alicerces que o Porto estava a edificar e que se viriam a confirmar sólidos pelas conquistas que chegariam nos anos seguintes. Passado 3 anos dessa Final, Pinto da Costa e o Porto conquistariam o primeiro título Europeu. Os azuis e brancos treinados por Artur Jorge venceram a Taça dos Campeões Europeus, em 1987, em Viena de Áustria. O FC Porto derrotou o Bayern de Munique por 2-1. Veja aqui o nosso artigo sobre este jogo!

Pinto da Costa, com a Taça de Campeão Europeu

O Porto vivia então uma época aúrea. Pinto da Costa contratou Ivic para substituir Artur Jorge e assistiu novamente à conquista de novos títulos a nível Europeu e Mundial, com a conquista da Supertaça Europeia e da Taça Intercontinental. O apogeu do Porto, com o presidente Pinto da Costa, fazia-se também sentir a nível interno com o Porto a dominar todas as competições a nível nacional, com participações sucessivas e notáveis na Taça dos Campeões Europeus/Liga dos Campeões.

Pinto da Costa esteve ainda temporariamente à frente da Liga dos Clubes, na função de Presidente, desde  13 de Julho de 1995 e até 23 de Dezembro de 1996. Durante a década de 90, Pinto da Costa contratou Bobby Robson, que iniciou um período de cinco títulos consecutivos para o FC Porto. Robson venceu dois, António Oliveira também e Fernando Santos o “pentacampeonato”. Tornou-se assim o primeiro e único presidente penta campeão do futebol português.

Concerteza uma das contratações mais emblemáticas de Pinto da Costa foi José Mourinho, que levou o FC Porto à conquista da Taça UEFA, em 2003, da Liga dos Campeões em 2004, de dois campeonatos (2002/03 e 2003/04), uma Taça de Portugal (2002/03) e de duas Supertaças Cândido Oliveira.

Sob a presidência de Pinto da costa o Porto venceu mais do que nenhum outro neste período da história do futebol nacional, com mais de 1300 títulos em todas as modalidades e um impressionante total de 60 títulos no reduto do futebol: 21 Campeonatos de Portugal, 12 Taças de Portugal. 20 Supertaças de Portugal, 2 Taças intercontinentais, 2 Ligas dos campeões, 2 Ligas Europas e 1 Supertaça UEFA.

Pinto da Costa ficará uma figura tão incontornável na história do Porto, até mesmo pelo legado em termos de infra estruturas que ajudou a contruir, nomeadamente com o rebaixamento das Antas, a construção do Estádio do Dragão, do Dragão Caixa e do Museu, história essa que ainda não se encontra fechada, e com certeza que Pinto da Costa ainda quererá escrever mais uns quantos capítulos…

Tiago Domingos

Lourinhanense de gema, estuda gestão no ISCTE-IUL. Tem como hobbie a escrita e como paixão o futebol!

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