Rinus Michels, O General do Futebol Total

Rinus Michels, treinador e ex-selecionador nacional holandês, será para muitos um nome desconhecido. Rinus é considerado, pela FIFA e pela revista France Football, como sendo “o melhor treinador de Futebol de todos os tempos”, não só pelos títulos que conquistou mas principalmente pelos contributos que prestou ao desporto, ao futebol em particular, como o criador do “Futebol Total” na Seleção apelidada de “Laranja Mecânica”

Marinus Hendrikus Jacobus Michels, nasceu no dia 9 de fevereiro de 1928. Também conhecido como “O general”, Rinus manifestou interesse pelo mundo do futebol logo desde cedo e dentro das 4 linhas, quando aos 9 anos integrou as camas jovens do Ajax. No entanto, estava longe de imaginar os feitos que iria alcançar com aquela equipa e os contributos que iria trazer ao futebol e ao seu país.

Enquanto jogador disputou, no total, 269 jogos como atacante do Ajax nas décadas de 40 e 50, apontando 121 golos. Além disso, foi internacional pela seleção holandesa por 5 vezes. A carreira de Michels foi relativamente curta, quando comparada com os padrões atuais, tendo abandonado os relvados em 1958, quando tinha apenas 30 anos. A paixão de Michels pelo futebol fez com que se dedica-se à carreira de treinador, iniciada na década de 60, comandando pequenas equipas dos subúrbios de Amesterdão.

A sua personalidade como técnico, as suas ideias inovadoras, bem como o passado no Ajax, chamaram a atenção do clube, que atravessava um período de crise após 5 anos sem ganhar a Eredivisie. Rinus Michels assume assim os comandos do Ajax a meio da época 1964/1965, salvando a equipa da despromoção e quebrando um período de 20 anos em que a equipa tinha tido apenas técnicos estrangeiros.

Demorou pouco tempo para se perceber que Rinus era um prodígio como técnico, conquistando o título de Campeão Holandês logo no primeiro ano completo como treinador do Ajax (1965/1966), com 7 pontos de vantagem face ao rival e anterior campeão, o Feyenoord. Este sucesso deveu-se muito à sua astúcia para potenciar os novos talentos que apareciam então no clube, tais como Johan Cruyff, Barry Hulshoff e Wim Suurbier, que lhe permitiram moldar uma equipa à sua medida.

Michels era elogiado por todos como uma pessoa extremamente inteligente, que sabia as partidas de cor e salteado mesmo antes de serem jogadas e dedicava horas para montar um estratégia para uma partida, pelo que afirmava que o planeamento era a sua obsessão. “É uma arte em si compor uma equipe para uma partida, encontrar o equilíbrio entre os jogadores criativos e aqueles com poderes destrutivos. Entre a defesa, a ligação e o ataque – nunca esquecendo a qualidade dos adversários e das pressões específicas de cada partida”.

O estilo ofensivo do Ajax era mortífero e impetuoso, de tal forma que no ano seguinte conquistou o bicampeonato com uma impressionante marca de 122 golos marcados (uma média de 3,5 golos por jogo). O técnico fez mesmo a conquista inédita do tricampeonato (1967/1968), que consomava em definitivo a hegemonia do Ajax nesse período, que teve como pináculo a final da Champions, em 1969, uma campanha surpreendente onde superou o Nuremberg (com uma goleada por 4-0), o Fenerbahçe, o Benfica e o Spartak Trnava, alcançando a final contra o Milan, em Madrid. Contudo, sofreu uma derrota pesada, sendo goleado por 4-1 pelos italianos.

A amargura por essa derrota tornou-se ainda maior quando no ano seguinte viu o Feyenoord conquistar o título batendo o Celtic, tornando-se assim a primeira equipa Holandesa a ostentar o troféu. Michels tinha assim em mãos uma missão complicada, com o objetivo não só de igualar o feito do rival, mas também superá-lo, de modo a deixar bem claro qual o maior clube do futebol Holandês.

A missão tardou pouco em ser cumprida, já que logo em 1971 o Ajax conquistou então a final Europeia frente ao Panathinaikos, em Wembley, dando aos adeptos a merecida conquista que lhes tinha escapado dois anos antes.

O Ajax conquistou depois, já sem Michels no comando da equipa, o bi e o tricampeonato europeus, nos dois anos que se seguiram, com vitórias frente ao Internazionale e à Juventus, respetivamente. Apesar de Michels já não estar à frente da equipa, eram por demais evidentes as características de jogo do Ajax que tinham sido introduzidas por ele, agora numa equipa mais madura e entrosada.

Rinus Michels era claramente um treinador que conseguia meter qualquer equipa a jogar, literalmente,  “o melhor futebol do mundo”. Nesses dois anos após sair do Ajax, Rinus assumiu o comando técnico do Barcelona, que atravessava uma profunda crise de títulos após na última década não ter conquistado uma única liga espanhola. O Barcelona demorou algum tempo até acertar o passo, já que nesses dois anos viu os rivais, Real Madrid e Atlético de Madrid, a conquistar novamente o título de Campeão. Rinus percebeu então a chave para alcançar no Barcelona o sucesso que teve no Ajax, implementando a fundo a sua filosofia de “Futebol Total” e trazendo para o Barça o seu principal artilheiro dos tempos do Ajax: Johan Cruyff, a troco de uma quantia recorde na altura, de 2 milhões de Dólares.

Cruyff e Michels, com a Taça de Campeões Europeus

Com a equipa à sua vontade não foi difícil conquistar o título, na época 1973/1974, com uma vantagem de 10 pontos sobre o segundo colocado, o Atlético de Madrid, registando o melhor ataque (75 golos marcados) e a melhor defesa (24 golos sofridos).

Pode-se perceber então o sucesso do “modelo Michels” quando aplicado nos clubes, mas este foi ainda mais evidente na seleção Holandesa, mais conhecida e celebrizada pelo próprio como a “Laranja mecânica”.

Digamos que Cruyyf era o “corpo” da Seleção Holandesa, que a comandava em campo, e Rinus era a “alma”, era ele quem criava, quem fazia a magia acontecer. Podemos afirmar que Rinus Michels alterou até a forma como se assiste a um jogo de futebol, tornando o jogo mais dinâmico e emocionante.

O futebol da seleção holandesa era de tal forma gracioso, que houve um sentimento quase generalizado de injustiça pela perda do mundial de 1974, numa final frente à Alemanha (2-1), que jogava em casa e era dada desde o início como favorita à conquista. A seleção Holandesa que contava com a presença de Cruyff, um dos melhores jogadores da história do futebol, tinha feito uma campanha soberba, deixando todos estupefactos após humilhar a argentina por 4×0 e derrotar os tricampeões mundiais brasileiros com facilidade (2-0), assim como a Alemanha Oriental (2×0).

Após a desilusão do Mundial de 74, Michels retornou ao Barcelona, perdendo nesse ano o campeonato para o Real Madrid. Depois de mais uma época de passagem pelo Ajax, onde perdeu o campeonato para o PSV e de mais duas épocas na Espanha à frente do Barça, onde foi vice-campeão em ambas, no ano de 1979, Michels aceitou ir para a Liga Norte Americana, para treinar o Los Angeles Aztecs, um projeto que contava com a participação de um jogador que o acompanhou sempre nestas andanças, Johan Cruyff.

A “saga do vice-campeonato” parecia não ter fim, depois de dois anos no LA Aztecs e acumulando mais dois vice-campeonatos, Michels rumou desta vez à Alemanha para treinar FC Köln, mas o enguiço parecia inquebrável e novamente ficou mais uma época com o vice-campeonato na Liga Alemã.

Johan Cruyff, o púpilo de Michels, 1974

Rinus Michel voltaria aos títulos, após 9 anos de jejum, na época 1981/1982, com a conquista da Taça da Alemanha à frente do FC Köln, derrotando os rivais do Fortuna Köln. Após isso, voltou à “Laranja Mecânica” para cumprir o seu propósito: Conquistar um título pela seleção.

Nessa altura a Seleção Holandesa iria disputar o Europeu de 1988 e tinha uma sede de títulos enorme, após duas vezes seguidas a ficar com o título de Vice-Campeã Mundial e agora com uma geração que era considerada “de inferior qualidade” à anterior. Seria a última oportunidade para Michels provar o valor da sua tática e agarrar finalmente o titulo que fugia das mãos dos Holandeses.

Após uma fase de qualificação bastante tranquila, Miichels começou a sua jornada para conquistar o título Europeu da pior forma com uma derrota pela diferença mínima frente aos soviéticos. Na segunda partida, um hat-trick e uma exibição notável de Van Basten deram a vitória por 3-1 no embate com a Seleção Inglesa. E a vitória frente à Irlanda valeu depois o apuramento da Holanda para a Semifinal.

Após consumar a vingança contra os Alemães, que jogavam em casa com uma reviravolta nos minutos finais por Van Basten, vingando a derrota de 1974, a Holanda reencontrou a União Soviética no jogo derradeiro. Graças aos esforços da equipa e com destaque para Gullit e Van Basten, a Holanda sagrou-se então Campeã Europeia de Futebol.

14 anos depois, no mesmo estádio, em Munique, Rinus Michels enfim alcançava o triunfo com o seu “Futebol Total”. Na temporada seguinte comandaria o Bayer Leverkusen e, em 1990 voltaria novamente ao cargo de técnico da seleção nacional, onde quase conseguiu repetir o feito alcançando as semifinais da competição e sendo eliminado apenas nos penáltis, pelos futuros campeões dinamarqueses. No fim desse Europeu e com mais uma deceção, abandonou a carreira, aos 64 anos.

O “Futebol Total”

O “Futebol Total” ficou celebrizado como uma nova maneira de jogar Futebol, um estilo revolucionário, que se caracterizava por um jogo extremamente agressivo e dinâmico, que exigia uma extrema versatilidade dos jogadores, com constantes trocas de posição, aliás, não existiam posições fixas, o que confundia os adversários. A tática era simples mas arrojada: O jogador que conduzia a bola era “escoltado” por dois outros, um pelo lado direito e outro pelo lado esquerdo (formava-se um trio em linha, e a bola ficava com o jogador “central”) ao qual cabia decidir se fintava, ou se tocava para a esquerda ou para a direita.

A formação da Holanda numa partida de 1974, totalmente compacta

Para complementar a estratégia, quando se tocava a bola para um dos jogadores do lado, quer da esquerda, quer da direita, esse tornava-se o jogador “central” e o companheiro que lhe tinha passado a bola incumbia-se agora de voltar a montar a formação. Este era um método extremamente eficaz de ataque, dando mais liberdade criativa ao jogador com bola já que no caso do jogador “central” não passar logo os dois outros faziam pressão para recuperar.

O ataque tornava-se assim na melhor defesa, já que mesmo sem bola a equipa mantinha as linhas bastante subidas com uma formação em bloco para conseguir rapidamente recuperar a posse, colocando frequentemente o adversário em situação de fora de jogo.

O “Futebol Total” era além disso um estilo centrado em passes rápidos, habilidade técnica e movimentação constante, que exigia um preparo físico enorme por parte dos jogadores. O onze configurava um 4-3-3 dinâmico onde todos atacavam e todos defendiam, não havia posições fixas já que todos os jogadores circulavam com e sem bola num corrupio mágico que aturdia os adversários e os deixava asfixiados no seu Meio-Campo defensivo.

 

 

Tiago Domingos

Lourinhanense de gema, estuda gestão no ISCTE-IUL. Tem como hobbie a escrita e como paixão o futebol!

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