OPINIÃO: Para Tottenham e Ajax, menos é mais

Fazer muito com pouco é uma arte só para alguns. Os quartos de final desta edição da Champions ilustram isso mesmo, com duas equipas surpresa a passarem para as meias finais – Ajax e Tottenham. A equipa holandesa não chegava tão longe na competição desde 1997, enquanto que os ingleses irão estrear-se numa fase tão adiantada da competição. Mas, o que quero dizer com “fazer muito com pouco”, a que se refere esse “pouco”? A várias coisas.

Para já, e em especial no caso do Ajax, pouco investimento financeiro. Tornou-se viral uma imagem bem ilustrativa da discrepância de investimento entre Ajax e Juventus, que acabou afastada nos quartos de final. É que o onze do Ajax custou menos de metade da transferência de CR7 para a Juventus (117 M€), fora todas as outras estrelas. O valor de mercado da equipa italiana (782M€) é quase o dobro do valor da equipa holandesa (420M€), segundo o Transfermarkt.

Salta à vista o número de jogadores formados no clube de Amesterdão, sete jogadores titulares mais outros elementos como Dolberg, Sinkgraven ou De Wit. De resto, a política de formação do clube é há muito conhecida. Na última vez que os “De Joden” foram à final da Liga dos Campeões (e ganharam 1-0 ao AC Milan, em 1995) tinham na sua equipa prata da casa como Reiziger, Danny Blind, Rijkaard, os irmãos De Boer, Nwankwo Kanu, ou Kluivert. O Ajax de 1995 é a definição de equipa de antologia, um potencial rótulo que poder-se-á colar a este Ajax em maio, numa altura em que a liga holandesa é 12ª no ranking UEFA.

Menos mexidas, mais estabilidade

Em seguida, penso que outro segredo destes dois emblemas são as poucas mudanças desde alguns anos para cá. Menos é mais. Se olharmos para os onzes tipo e os dois treinadores, há uma palavra que salta à vista – estabilidade.

O Tottenham é o arquétipo desta estabilidade. No verão, os spurs bateram um recorde estranho da Premier League moderna – foram a primeira equipa que não efetuou qualquer contratação. Algo ainda mais estranho se pensarmos que é o mesmo clube que gastou cerca de mil milhões de euros num novo estádio. No sentido inverso, também nenhum jogador relevante foi vendido ou emprestado, pelo que o Tottenham 18/19 é uma versão amadurecida do Tottenham 17/18, que chegou ao oitavos de final.

Mauricio Pochettino é o homem por detrás deste sucesso dos Spurs. Depois de fazer história no Southampton com um oitavo lugar na Premier, juntou-se ao Tottenham em 2014 para substituir Tim Sherwood. Na segunda época em Londres, Pochettino disputou o título que veio a ser ganho pelo Leicester, acabando em terceiro lugar. Esta era a melhor classificação dos Spurs na Premier League, batida na época seguinte por um segundo lugar.

 

As bestas deste Tottenham foram criadas por Pochettino. Son, Alderweireld, Tripier, Dele Alli, Dier, Sissoko ou Lucas Moura só conhecem um treinador desde que ingressaram no clube. Existe ainda o caso de Kane, que só foi aposta depois de Mauricio assumir o cargo.

À semelhança dos Spurs, a equipa do Ajax mantém-se quase intacta desde o verão de 2017. Entretanto, está claro que as entradas de Daley Blind e Dusan Tadic no verão passado vieram aumentar exponencialmente o valor da equipa holandesa. Mas mais do que as contratações, a política de vendas foi preponderante nos holandeses. A capacidade de retenção dos seus melhores jogadores revela-se agora bastante frutífera, quer em termos desportivos, quer em termos financeiros, visto que os 75M€ que o Barcelona deu por Frenkie De Jong parecem ser a ponta do icebergue do próximo defeso.

Mourinho, Keizer, Ten Hag e… Guardiola

De Ligt, Onana, Ziyech, Veltman ou David Neres são jogadores titulares que remontam à época 2016/17 (em que foram vencidos na final da Liga Europa por Mourinho), que com a chegada de Tagliafico no verão de 2017, e a afirmação de Frenkie De Jong, formam um núcleo forte há quase dois anos. A chegada de Erik Ten Hag deu-se ligeiramente mais tarde, em dezembro de 2017, para substituir Marcel Keizer. Este é o primeiro grande cargo de Ten Hag, depois do Bayern II e Utrecht.

A estabilidade da ideia de jogo do ex-defesa holandês também pesa na balança. Há quem lhe chame um Futebol Total 2.0 em referência ao estilo de jogo do Ajax de Rinus Michels mas, na verdade, seria mais correto afirmar que Guardiola é quem teve influência no estilo de Ten Hag, visto que os dois trabalharam em Munique entre 2013-2015. Baseado numa pressão altíssima e no privilégio da posse de bola, o Ajax dominou verdadeiramente o Real Madrid e a Juventus.

É uma pena que só uma destas duas equipas passe à final. Por outro lado, temos a certeza que haverá uma equipa surpresa na final de Madrid, para enfrentar um dos dois colossos que são o Barcelona e o Liverpool. Mas mais do que demérito adversário, Tottenham e Ajax têm feito por merecer, ao longo dos anos, a estadia entre as melhores quatro equipas da europa. São uma vitória da estabilidade e da maturidade.

 

David Silva

Lourinhanense de gema, é estudante de Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Tem como hobby a escrita, e como paixão o futebol.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.