OPINIÃO: Tudo está bem, quando começa bem

A história de romance entre Bruno Lage e o Benfica começara há cerca de 15 anos, quando este entrou para os quadros de formação do clube encarnado. Uns bons anos depois, o setúbalense vê-se ao leme da equipa principal das águias.

Depois de 11 jogos disputados, depois de ter pegado numa equipa em crise exibicional, depois do “vamos ver no que isto dá”, eis que chega a confirmação da aposta no treinador: a renovação. A duração do vínculo mantém-se a mesma (até 2023), os valores é que mudam. Ainda assim, a mudança de termos no contrato de Bruno Lage significa muito simbolicamente. É uma redobrada confiança do clube no treinador, é a vontade para que este lidere os destinos encarnados durante os próximos anos. E vamos ser sinceros. Certamente que quando Bruno Lage foi chamado para substituir Rui Vitória, a ideia seria “aquecer o lugar” para a vinda de um outro técnico mais talhado. Após uma dezena de jogos, será esta renovação uma precipitação por parte do Benfica? Ou um prémio e uma confiança mais que merecida num técnico que virou a equipa encarnada do avesso (no bom sentido)?

Vamos aos factos. Bruno Lage tem a melhor média de triunfos nos primeiros dez jogos como treinador na história do clube da Luz (90,91 %). E quem diz dez, diz 11. Em 11 partidas, Lage garantiu dez vitórias, só perdendo para a Taça da Liga frente ao Porto. Está 100 % vitorioso na I Liga e é o treinador encarnado com melhor média de golos (4,14 por jogo) no campeonato. São dados relativos, já que foram apenas 11 jogos, mas servem para mostrar o impacto positivo que teve a sua entrada na equipa.

Depois da derrota em Portimão e consequente despedimento de Rui Vitória, as coisas pelos lados da Luz estavam negras. À entrada para 2019, o Benfica era um chamado clube “em crise”. Estava em quarto lugar a sete pontos do líder e as exibições não faziam prever melhorias. O desgaste de um treinador que deu o bicampeonato ao Benfica tinha chegado ao seu expoente máximo. Meses depois, foram surgindo “acontecimentos estranhos” no seio da equipa encarnada. Bruno Lage é chamado, mas, como já referi, sem grande assertividade por parte da direção. Na sua estreia, o Benfica vira um jogo em que perdia 0-2, depois vai a Guimarães ganhar duas vezes, vence (e bem) o seu grande rival leonino também por duas vezes, dá a maior goleada dos últimos 50 anos, triunfa na Turquia com seis jovens formados no Seixal no onze inicial, está a um ponto do líder do campeonato, e ainda chama Adel Taarabt para treinar. Isto em pouco mais de um mês e meio. A direção do clube tem tudo para acreditar que estes “acontecimentos estranhos” se irão repetir ao longo da duração do contrato de Bruno Lage.

O que me intriga são outros fatores. O primeiro está associado à questão da mudança de treinador.

Muitos estudos apontam, como o que é abordado no artigo acima, que o despedimento de um treinador e a vinda de outro, tem normalmente um impacto positivo, ainda que substancial, na equipa e nos jogadores. E isso é fácil de desconstruir. Vêm novas ideias, o desgaste sentido com o antigo treinador deixa de existir e toda a equipa parece começar outra vez a remar para o mesmo lado. Bruno Lage tem todo o mérito, atenção. Conseguiu reconquistar os jogadores e o público. Mas tudo isto insere-se num contexto de mudança e novidade, de “vamos virar isto”, que certamente ajudou a integração do novo técnico. O mesmo aconteceu em Old Trafford, depois do despedimento de Mourinho.

O outro fator também está relacionado. A verdade é que só temos visto o Benfica ganhar. Tirando obviamente a derrota nas meias-finais da Taça da Liga frente ao Porto, mas em que deixou boa impressão. Só temos visto um Benfica confiante. Um Benfica em que está a dar tudo certo, em que a bola não custa a entrar, em que, e recordando os tempos de Jorge Jesus, “não há Matic, joga o Manel”. Mais uma vez, o mérito tem que ser dado à equipa técnica que pegou numa equipa sem brilho. Porém, falta ver uma faceta do Benfica de Bruno Lage. A faceta do quando não der tudo certo. E quando a bola não entrar? E se as vitórias não estiverem a aparecer? É algo que os adeptos encarnados certamente ainda não querem ver.

Continuaremos, então, a assistir, por ventura, a mais um técnico português em ascensão e que poderá, quem sabe, vir a conquistar o futebol europeu.

Ricardo Oliveira

Oriundo da mesma terra do melhor jogador do mundo, a paixão pelo futebol não podia ser maior. Atualmente a tirar a licenciatura em Ciências da Comunicação na FCSH, gosta de escrever e está sempre de braços abertos a novos projetos.

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