OPINIÃO: O 10-0 foi fruto do mérito ou do contexto?

A notável vitória encarnada sobre o Nacional da Madeira, por 10-0, levantou um sem número de justificações para tal desnivelamento. Ora uns afirmaram que o bom momento do Benfica foi o suficiente, ora outros culparam o mau momento do futebol português. Quem disse o quê e a minha opinião.

O Benfica ganhou 10-0 ao Nacional da Madeira na Luz, no passado domingo. Desde 1964 que não havia um resultado assim no campeonato português, numa época bem diferente onde a preparação e a profissionalização dos futebolistas era escassa.

A maioria dos benfiquistas dizem que a histórica vitória é mérito de Bruno Lage e seus jogadores; que a letalidade com que o Benfica atacava, marcava, e voltava a marcar é fruto da nova mentalidade do treinador, em comparação com Rui Vitória. Outros admitem o bom dia do Benfica, mas apontam um demérito da equipa nacionalista, que não ficou isenta de culpas nos golos com toda a certeza.

Como Sofia Vala Rocha, do PSD, há quem entre numa discussão acerca do respeito: quem ganha por 10-0 pode estar a “espezinhar” a equipa adversária, segundo uns. Quem perde por 10-0, está a desrespeitar-se a si próprio, segundo outros. Aqueles noventa minutos na Luz já levam a uma discussão ética, portanto.

Proença, Manuel Serrão e outros comentadores desportivos questionaram até a idoneidade do Nacional da Madeira, levantando suspeitas sobre um resultado “antinatural”, segundo o comentador afeto ao Porto. Declarações como estas já motivaram queixas-crime do Nacional por ofensa à honra e bom-nome da instituição.

 

Finalmente, outros apontam para o contexto como o principal “culpado” de uma vitória tão anacrónica. Este jogo levou a novas discussões sobre o estado do futebol português e um possível fosso, de proporções abissais, entre grandes e pequenos. João Rosado, comentador da SIC Notícias, sugeriu uma profunda reflexão do futebol português depois deste resultado. Até António Simões, glória benfiquista e um senhor do futebol português não acha que este resultado seja motivo de “celebração”, mas sim de reflexão. Simões jogou na última goleada de dois dígitos que o Benfica aplicou, contra o Seixal.

Na minha opinião, o mau estado da Liga Portuguesa não é desculpa suficiente para este volumoso resultado. Em primeiro, a desproporção entre as duas equipas é absolutamente inegável, ainda para mais depois de uma época em que o Nacional da Madeira teve que se reerguer da Segunda Divisão e voltar a competir na Primeira.

Em segundo, todas as equipas têm dias maus e más abordagens durante um jogo ou outro, o que já entra no domínio da responsabilidade do treinador. Ultimamente, o Nacional só ganhou uma vez em oito jogos. Porém, para o campeonato, perdeu contra Porto, Sporting e Braga, respetivamente, por 3-1, 5-2, e 4-2.

Nestes três jogos, sempre fora de casa, perdeu por uma diferença de dois golos excetuando o jogo em Alvalade, onde fez uma primeira parte espetacular. Os problemas defensivos fora de casa são evidentes, e tiveram na Luz o seu expoente máximo.

O Santa Clara, que também subiu de divisão esta época perdeu contra os três grandes. Duas vezes por um golo de diferença, e uma por dois tentos. O resultado típico da liga é o 1-0, obtido em 25 partidas. Com isto quero dizer apenas que é normal haver desnível entre grandes e pequenos, e esse desnível tem sido igualmente normal durante época. Para mim, o 10-0 foi uma infeliz coincidência entre a má abordagem do Nacional, e a inspiração do Benfica.

O jogo em si tornou-se de difícil reação para o Nacional da Madeira. Sofrer um golo aos 47 segundos é um golpe fatal, ainda para mais se a equipa em vantagem continuar na senda do golo. Depois disso, o Benfica ainda demorou a encontrar de novo a baliza de Daniel Guimarães, mas a partir da meia-hora o jogo estava sentenciado e os jogadores do Nacional baixaram os braços. Não é por nada que Bruno Lage não celebrava – ele sabia que a vitória estava consumada. Aliás, ele e os jogadores do Nacional, o que não deve acontecer.

O futebol apaixona devido à sua improbabilidade. E, neste jogo, nada fazia prever um resultado de dois dígitos antes do jogo. Se assim fosse, neste encontro e em todos os encontros entre grandes e recém-promovidos, do género Segunda Liga feminina, aí sim era necessária uma séria reflexão.

O inegável (e inevitável) desequilíbrio entre grandes e pequenos merece ser combatido, mas as armas legais nesta fase poucas diferenças farão. A meu ver, com as competições europeias e seus prémios monetários cada vez maiores (já para não falar de receitas de publicidade), o futebol tenderá a oligarquizar-se a nível europeu, como temos vindo a assistir na última década.

Por mais queiramos, a história de décadas e a estrutura destes clubes “europeus”, onde se inserem Benfica, Porto e Sporting, não é facilmente igualável por clubes que têm orçamentos para o futebol de quatro milhões de euros como o Nacional. O futebol português não é perfeito e os pequenos merecem maior apoio, talvez com maior subsidiação da Liga ou melhor realocação de fundos públicos. O que não é vale a pena é atirar areia para os olhos.

David Silva

Lourinhanense de gema, é estudante de Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Tem como hobby a escrita, e como paixão o futebol.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.