OPINIÃO: O futebol português está aVARiado

Engane-se caro leitor, se acha que só vou falar do VAR neste artigo de opinião. Aliás, tem sido esse um dos principais problemas do nosso “futebolzinho”.

O que se tem passado nestes últimos dias, depois das meias-finais da Taça da Liga, é vergonhoso em vários sentidos. Mas vamos por partes. O clássico que tivemos na passada terça-feira foi um dos melhores dos últimos tempos e só pecou por não ter tido uma arbitragem ao mesmo nível. O VAR errou e errou estranhamente. Nã há volta a dar. Não foi o primeiro erro, nem será o último. Agora, o que se passa durante e depois dos jogos, que nada tem a ver com futebol, é que é inconcebível. Primeiro, a meu ver, há demasiada gente nos bancos. Gente que não tem função absolutamente nenhuma durante o jogo. É pra quê? Para poderem ser expulsos e levar multas? É uma situação a rever. Segundo, os discursos inflamados posteriores à partida. Todos têm direito a reclamar, principalmente o Benfica. Mas as declarações no final de jogo quer de Luís Filipe Vieira, quer de António Salvador, não melhoram em nada. Sim, é bom que sejam os presidentes a dizer certas coisas e não os treinadores. Podemos queixar-nos das arbitragens, mas o que não se pode fazer é falar em árbitros ameaçados, ameaçando os mesmos e inflamando o ambiente no futebol português. O caso do Fábio Veríssimo é prova disso.

Estamos piores com o VAR? Eu não acho, muito pelo contrário. O VAR é uma ferramenta muito importante no jogo, é preciso é que seja bem usada. É como a Internet. É claro que se não for bem usada e aproveitada, acaba só por trazer aspetos negativos. O discurso de Bruno Lage e de Marcel Keizer vai muito de encontro a isso. E pareceram-me ser os mais interessados em discutir assertivamente estas questões.  “Ou é ou não é”, disse Lage. Só funciona se for bem utilizada e se for utilizada da mesma maneira para todos. E se for preciso mudar o protocolo, que se mude. Acabar com ele? Seria uma hipocrisia.

Agora, a questão é: alguém vê isto nos outros principais campeonatos europeus? Eu não vejo. Em Inglaterra, isto é impensável. A nossa cultura futebolística é muita fraquinha. E isso reflete-se nas “prateleiras mais altas” do nosso futebol. Porque temos excelentes jogadores e excelentes treinadores, mas quando o nosso campeonato é o que tem menos jogo jogado, fica difícil. No nosso futebol, o futebol parece ser o que menos importa. Carlos Carvalhal deu a sua opinião e eu não podia estar mais de acordo: “Doentio e psiquiátrico. É difícil fazer um comentário ao que se passa (…) quando eu voltar a Portugal, eu vou ripostar, eu vou falar alto, porque é assim que as pessoas são reconhecidas culturalmente enquanto líder (…) eu sou treinador, venho aqui para falar de futebol e isto não é a minha praia”. Não devia ser a de ninguém.

Isto depois tem outro tipo de efeitos. Hoje, o Instituto Português de Administração de Marketing (IPAM) publicou um estudo que revela que “o tom das notícias veiculadas pelos principais meios de comunicação portugueses não são positivas para o futebol nacional e incidem maioritariamente em temas relacionados com a atualidade desportiva” e que “os programas televisivos são os principais influenciadores do tom negativo gerado à volta do futebol nacional”. Mais: “apenas 10% dos media revelaram ter uma abordagem positiva a notícias dedicadas ao futebol nacional”, vinca o estudo. E retorna-se à questão cultural. É preciso que se fale menos em “Brunos Carvalhos” e em “Pedros Proenças”, e mais em “Brahimis” e em “Pizzis”.

Somos cada vez mais periféricos, cada vez menos credíveis. E não deveria ser essa a direção.

Ricardo Oliveira

Oriundo da mesma terra do melhor jogador do mundo, a paixão pelo futebol não podia ser maior. Licenciado em Ciências da Comunicação na FCSH, gosta de escrever e está sempre de braços abertos a novos projetos.

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