Estrela CD x Belenenses: Um clássico muito além das distritais

Existem duelos que, independentemente da qualidade das equipas ou do escalão, geram interesse só pela História envolvida. Hoje, no sexto dia de 2019, soprou-se o pó de uma das páginas dos livros de história do futebol português, páginas essas que não eram reescritas desde 2008, data do último encontro entre Estrela da Amadora e Belenenses (acabou num empate a uma bola).

    

Desde aí até à presente época, muita coisa mudou para estes dois clubes históricos, que ainda há trinta anos ganharam duas Taças de Portugal (uma para os pastéis, em 1989, e outra para os tricolores, em 1990). O Estrela pediu insolvência em 2010 e não resistiu à consequente extinção, depois de um ano em que  garantiu a manutenção na Primeira Liga mas a falta de pagamento de salários e outras dívidas levou à despromoção; do outro lado, depois do fim do protocolo assinado entre a Direção e a SAD do Belenenses, as partes cindiram-se e a SAD disputa a Primeira Liga no Jamor, enquanto o clube, liderado por Patrick Morais de Carvalho, conserva o Restelo.

O nulo de hoje entre Estrela CD (assim designado depois de voltar ao futebol nesta época) e Belenenses contou assim para a I Divisão da Associação de Futebol de Lisboa, equivalente ao terceiro escalão Distrital. Mas a moldura humana e o cenário diziam o contrário: um Estádio de 12000 espetadores tinha duas bancadas praticamente cheias, uma com adeptos da casa, outra com os forasteiros. Mais de 5000 pessoas celebraram o futebol no seu estado puro, num dérbi histórico que tornou-se ainda mais histórico.

O jogo, esse que ainda mal referi na crónica e por tal peço desculpa, teve dois lados muito contrastantes, com o Estrela a jogar de forma mais cínica (começou a segunda parte com uma linha de cinco na defesa) e um Belenenses que mostrava vontade de impor as suas dinâmicas ofensivas com futebol apoiado. Mas o futebol apoiado é difícil de ser praticado nas condições em que estava o relvado do Estádio José Gomes. Desleixo, ou trunfo, só a equipa da Reboleira o saberá dizer. O que é certo é que o relvado acabou por ter influência no jogo.

O Belenenses atacou logo de início e mostrava o porquê de estar invicto em onze jogos, com uma diferença de golos de 48 golos. Cantos sucessivos e laterais bem subidos para o Belém, que dispôs das melhores oportunidades na primeira parte: primeiro por João Santos, numa oportunidade um-contra-um com Bernardo, mas o jovem extremo rematou contra a própria face, para gáudio dos adeptos tricolores. O mesmo João Santos, produto da formação do Restelo, teve outro falhanço de primeira depois de um cruzamento largo. Ali pedia-se uma receção em vez dum remate de primeira. Mesmo a fechar a primeira parte, Sénica escorregou no momento de emendar, estando sozinho ao segundo poste. O homem da relva deve ter piscado o olho.

Ao intervalo, homenagem para Virgílio Nascimento, treinador de ténis de mesa do clube da casa, e ex-mentor de Tiago Apolónia e Marco Freitas. Os dois técnicos promoveram alterações nesta fase. Entrou Benny para o meio-campo azul, e do lado do Estrela, o lateral Augustus tinha entrado ainda antes do intervalo. O treinador da casa, Ricardo Monsanto, mudou a formação para um 5-3-2, querendo segurar um bom resultado para o sétimo classificado da tabela. A segunda parte arrancou, e as claques voltaram a entoar incessantemente cânticos; quando uns gritavam “Belém”, os outros respondiam “Estrela”, e no final ambos aplaudiam.

A segunda parte começou morna, e morna ficou durante 15 minutos. Entretanto, Nuno Oliveira mexeu no Belenenses de forma significativa: a entrada do avançado Rúben Braga aqueceu o jogo dentro e fora das quatro linhas. O nove tornou os azuis mais verticais, e com sucesso. As bolas lançadas nas costas da defesa da casa eram ganhas pelo avançado, mas um embate com o guarda-redes Bernardo tomou maiores proporções nas bancadas. Instantes depois dessa disputa, os adeptos forasteiros reclamaram igualmente uma grande penalidade e caldo entornou-se na quina da bancada dos visitantes, com direito a bastonada da polícia. 

Enquanto alguns adeptos preocupavam-se mais com a carga policial do que com o relvado, o Estrela CD teve a sua grande oportunidade de golo: Sérgio Duarte isolou-se na cara de Tomás Foles, mas o jovem guarda-redes bloqueou a euforia dos adeptos do Estrela. Rúben Braga, agressivo na procura da bola, ganhou a frente no outro extremo do campo e não conseguiu desviar a bola da figura do guarda-redes tricolor, desperdiçando uma oportunidade capital. Houve quem dissesse, mais uma vez, que a culpa era do relvado. O boroar no estádio era constante, e o nervosismo dos visitantes ficou visível, contrastando com as perdas de tempo dos jogadores do Estrela.

O último suspiro foi mesmo do Belenenses, e foi bem audível: na sequência de um canto, o central Alex Figueiredo cabeceou a centímetros do poste direito da baliza de Bernardo, que pelas segurança e assertividade nas suas ações, foi o homem do jogo. O “ah” generalizado dos adeptos azuis foi o destaque dos sete minutos de compensação. O jogo acabou com maior satisfação para os adeptos do Estrela, que arrancaram os primeiros pontos ao Belenenses, que segue isolado na primeira posição. O já velhinho Estádio José Gomes teve ingredientes suficientes para, nesta tarde, albergar um clássico que desafiou o tempo e reviveu velhas paixões do futebol nacional. O empate acabou por ser o resultado mais romântico para dois velhos conhecidos que hoje em dia têm ambições diferentes às de velhos confrontos. Os adeptos, esses, vão persistindo.

 

David Silva

Lourinhanense de gema, é estudante de Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Tem como hobby a escrita, e como paixão o futebol.

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