Uma demissão Especial: uma reflexão da saída de Mourinho

3-1 para o Liverpool, nova derrota do Manchester United, luta pelo título a tornar-se cada vez mais uma miragem e… nova demissão de Mourinho. Após muita contestação, o Special One abandonava o comando técnico dos Red Devils com mais uma compensação milionária no bolso, na ordem dos 26 milhões.

Depois de não ter assegurado os reforços que mais desejava, ter registado o pior começo do United na Premier League, ter entrado, supostamente, em conflito com jogadores como Pogba, uma das estrelas da equipa, e ter abandonado uma conferência de imprensa, acabava assim o reinado de Mourinho por Manchester.

Após ter saído, a equipa parece estar revigorada, mais confiante, mais matadora. Parece um Manchester United diferente sob a tutela de Ole Gunnar Solskjær, antiga estrela da equipa e atual treinador interino do clube. Nem duas semanas se passaram e, após duas vitórias consecutivas, parece haver nova esperança red devil.

Apesar de ter voltado a se sagrar campeão inglês pelos blues, Mourinho, acabou por não ser tão feliz no seu regresso a Stamford Bridge

Pogba, estrela relegada por Mourinho, bisou na partida do Boxing Day. De Gea passou a capitão e assinou uma grande exibição. No jogo em Cardiff, a equipa voltou a marcar 5 desde o último jogo no comando de Alex Ferguson, Rashford e Martial marcaram um cada um, eles que vinham a ser criticados por Mourinho.

Tudo isto, originou como que um throwback. Em 2015, após ter-se sagrado campeão inglês, Mourinho era demitido pelo Chelsea com o clube perto dos lugares descida, tendo somado 9 derrotas em 16 jogos. Na altura, falava-se da deterioração da relação com algumas estrelas do clube, entre os quais, Eden Hazard.

Antes disso, no Real Madrid, entrou em conflito com o capitão (e ícone) merengue Iker Casillas, preterido em detrimento de Diego López. Rumores davam conta da relação do técnico português com Sérgio Ramos e Cristiano Ronaldo não ser das melhores e, após um final de época para esquecer, Mourinho acabou por ser demitido por Florentino Pérez.

Mourinho, ao longo da sua carreira, já conquistou praticamente tudo o que estava ao seu alcance para ganhar, o seu palmarés fala por si e é, indiscutivelmente um técnico que entrará nos livros como sendo um dos melhores treinadores do futebol mundial. Ganhar a Champions com FC Porto e Inter, ninguém lho tira, foram feitos impensáveis. Isto para não falar dos restantes títulos que arrecadou ao longo de 18 anos como treinador principal.

Mourinho viveu, em Itália, um dos períodos mais felizes da sua carreira como treinador

O que parece mais difícil para Mourinho conquistar, e manter dentro do mesmo nível, são os balneários dos clubes por onde passa. Na primeira época, tudo parece ocorrer dentro da normalidade, os jogadores parecem estar do seu lado. Depois a partir da segunda ou terceira temporada, parece que começa a perder o controlo e a deteriorar as relações com um dos principais jogadores da equipa.

Foi assim no Real Madrid, foi assim no Chelsea e agora no United. Existiam sempre rumores de que havia mau-estar entre Mourinho e uma das estrelas da equipa. De Special One começam a lhe dar a alcunha de Sacked One e há até quem se questione: “O que aconteceu a Mourinho? Nem parece o mesmo, não tem conseguido resultados de outrora.”

Qualquer fã de futebol sabe que, no final, o mais importante acabam por ser os resultados em campo, não o palmarés nem a fama do técnico. Hoje em dia, não se dá “tempo ao tempo” aos treinadores, ou o técnico consegue acarretar resultados positivos ou é “premiado” com uma compensação, mais ou menos, choruda.

Entrar em conflito com os jogadores não é, de todo, o ideal perante este cenário. Mais depressa é demitido um treinador do que é vendido um jogador cotado como uma das estrelas da equipa, ainda para mais se for considerado um dos melhores do planeta.

Segundo relatos, somente quatro jogadores apoiaram Mourinho até ao fim: Lukaku, Fellaini, Matic e Ashley Young. Outros relatos deram conta da má relação com Luke Shaw, Martial e Pogba.

O internacional francês terá mesmo afirmado que Mourinho “meteu-se com a pessoa errada”. Pogba que voltou a vestir a camisola dos red devils aquando da sua contratação com o português no leme. Relegado para o banco, acabou por manifestar o seu contentamento, via redes sociais, com o afastamento de Mourinho do comando técnico.

Dias após o seu mais recente despedimento, José Mourinho assistiu a um jogo do Vitória de Setúbal

Um treinador pode ser muito bom, pode ser dos melhores do mundo, mas se o plantel (e sobretudo as estrelas) não estão do seu lado, encontra-se certamente condenado. É um dos aspetos fundamentais que tem faltado a Mourinho para voltar a ser tão Special.

Em Itália, ter o plantel do seu lado, contribuiu para que o técnico português conseguisse um impensável triplete com um plantel em que, maioria, já haviam passado o auge da sua carreira. Mourinho a consolar Materazzi acaba por ser como que o resumo da consideração que o plantel tinha pelo Special One.

Com a compensação que recebeu, aquele que é (provavelmente) o melhor treinador português da história, não estará certamente preocupado em embarcar, para já, noutra aventura e a incerteza de qual o próximo passo a ser dado pelo português irá-se manter até decidir que está na hora de se aventurar.

Para o futuro, se quiser ter sucesso, um dos passos passará por sem dúvida gerir de uma outra forma a sua relação com as estrelas da equipa. Pode ter elementos à altura, pode ter diversas soluções que lhe permitam estar na luta por tão desejados títulos mas. um plantel deteriorado, seja de que modo for, acaba por dificultar a missão de ser bem sucedido.

Em Manchester, vemos agora que o plantel poderia ter feito mais, mas o ambiente encontrava-se “estragado” a partir do momento que coincidiu com alguns jogadores. Foi a morte do artista que todas as semanas procurava colocar o melhor onze a dar alegrias aos adeptos, tanto em Old Trafford como fora.

Como adeptos de futebol, no fundo, sentimos que o futebol sem Mourinho, os seus momentos únicos e uma equipa sua a competir por títulos, não parece ser o mesmo. Só o futuro dirá se voltará a ser tão Special e em que formação, após ter passado por Portugal, Itália, Espanha e Inglaterra.

André Fernandes

Licenciado em Ciências da Comunicação pela FCSH/NOVA. Madeirense, adepto de futebol e da escrita, marcar golos na vida e chegar o mais longe possível é um dos meus objetivos.

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