FC Porto-Bayern Munique: Um calcanhar para a eternidade

A 27 de maio de 1987, em Viena (Áustria), no estádio Prater, o Porto alcançou a sua primeira grande conquista Europeia, a Taça dos Clubes Campeões Europeus (atual Liga dos Campeões). Este foi também o primeiro grande título Europeu com Pinto da Costa à frente do clube, ele que tinha assumido a presidência 5 anos antes.

Os onzes iniciais do Porto e do Bayern

O Bayern, com a conhecida  arrogância alemã, partia para a final com a convicção de que seria um jogo fácil. O FC Porto, sob o comando técnico de Artur Jorge, chegava à grande final assolado por uma onda de lesões, vendo-se privado do central Lima Pereira e Fernando Gomes, o grande goleador da equipa, que foi uma peça essencial para chegar até Viena. O Bayern, treinado pelo mítico Udo Lattek, não podia contar com Augenthaler para aquele jogo, também lesionado.

Com o público e o favoritismo do seu lado foi sem surpresa que o Bayern inaugurou o marcador. Aos 24 minutos, após uma desconcentração da defesa Portista, Ludwig Kögl meteu a bola no fundo das redes.

O Porto chega ao intervalo a perder e com o peso da responsabilidade nos ombros. Ao intervalo, o discurso de Artur Jorge foi no sentido de motivar a equipa, apelando ao sentimento dos jogadores. Segundo os relatos de vários jogadores Artur Jorge perguntou as idades aos jogadores «Quantos anos tens tu, tu, tu e tu?» ao que os jogadores responderam com as suas idades. Aos mais velhos disse que “É a última oportunidade para entrarem na história do Porto e para fazer algo pela vossa carreira”. E aos mais novos disse-lhes que “ É o primeiro passo. Têm de dar tudo nos próximos 45 minutos». Em entrevista ao mais futebol Juary, que entrou na segunda parte para substituir Quim, recorda as palavras motivacionais do técnico: «Aquilo era uma final da Liga dos Campeões. O Artur Jorge conhecia-nos bem e sabia como íamos reagir. Disse que podíamos ganhar o campeonato todos os anos e mesmo assim não ficaríamos na história como se ganhássemos aquela Taça. Voltamos ao relvado só com o pensamento em ganhar. E conseguimos.»

A magia de Madjer

Paulo Futre teve a oportunidade de anular a vantagem dos bávaros. O craque português, que nesse verão acabaria por ser transferido para o Atlético Madrid, protagonizou uma jogada de génio digna de Maradona, mas a bola passou a escassos centímetros da baliza de Pfaff.

O jogo só iria ficar decidido na reta final do segundo tempo, quando Juary deu o passe para Madjer se tornar uma lenda, através do seu bendito calcanhar, marcou um golo que ficou para a história. Nessa altura o relógio marcava ainda 13 minutos até ao final. Era preciso ter fé!

Mas não foi preciso “tanto tempo”, já que apenas 2 minutos depois, o argelino, regressado ao campo depois de ser assistido, aproveitou a descoordenação dos alemães para fintar Pflueger e cruzar, encontrando o pé direito de Juary, que não deu hipóteses ao belga Pfaff e fez o 2-1 final.

No fim do jogo foi a euforia absoluta! A contrastar com o desalento dos alemães que só se podiam culpar a eles mesmos por terem menosprezado um adversário como o Porto. O ‘dragão’ era campeão da Europa de Clubes, feito que só uma equipa portuguesa ainda tinha conseguido, o Benfica, por duas vezes consecutivas, nas épocas 60/61 e 61/62.

Numa entrevista à UEFA Madjer recorda “Se vir o golo, quando Juary cruza da direita, a bola sofre um desvio num defesa e muda de trajectória”. Disse ainda, “Eu já estava a correr para o primeiro poste, deixei a bola passar entre as pernas e acertei-lhe com o calcanhar, pois estava um defesa na baliza. Se tivesse controlado a bola, nunca teria marcado.”

Em 1987, Madjer ganhou o prémio de melhor jogador africano, tendo ajudado o Porto na conquista da Taça Intercontinental, marcando inclusive o golo da vitória sobre o Peñarol (2-1), já no segundo tempo do prolongamento. Na história fica o seu calcanhar, mas Madjer era muito mais que essa parte anatómica, era magia, era talento, era criatividade. Deixa para a história um dos mais belos golos de sempre.

Tiago Domingos

Lourinhanense de gema, estuda gestão no ISCTE-IUL. Tem como hobbie a escrita e como paixão o futebol!

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