Luka Modric e o conto dos bons rapazes

Era uma vez um rapaz com uma história de vida díficil desde a infância, que cresceu num país recém-formado e com pouco mais que três milhões de habitantes. Esse rapaz tinha um dom nato para jogar futebol, e nas camadas jovens destacava-se pelo talento, mas não pelo físico. Teve a carreira em risco por ser franzino. Esse rapaz cresceu, tornou-se um dos principais médios mundiais, jogava na equipa tricampeã europeia e levou o seu pequeno país a uma inédita final do Mundial. Perdeu. Mas um dia, este rapaz tornou-se o melhor do mundo, aos 33 anos de idade. Vitória, Vitória, acabou-se a história.

É fácil simpatizar com uma história destas. Mas é difícil acreditar que Luka Modric tenha ganho o The Best, o prémio de melhor da UEFA e a Bola de Ouro, sem ninguém estranhar. Especialmente quando existem concorrentes como Cristiano Ronaldo, Lionel Messi, Mo Salah, ou Griezmann. Nem digo isto por causa dos nomes serem mais sonantes; aliás, o mediatismo de Ronaldo ou Messi só dificultou a sua consagração como melhor do mundo este ano. Ao que parece, já estamos fartos destes dois génios. Já cansa vermos 50 golos por ano. Eles deixaram de ser outsiders. Então, que se arranje outro outsider.

Fazer coisas surpreendentes é sempre alvo de muito mérito. E a surpresa acaba por inscrever-se, nalgum dia, no corriqueiro. Isto acontece porque o mérito é consentido pelos pares, e não é objetivo, ou seja, o mérito é político. E todas as votações, eleições, sempre que alguém é chamado a decidir, tem que se basear em certos critérios (políticos) que nem sempre têm que ver com exatamente com aquilo que está a ser julgado. E nesta votação para melhor do mundo foram feitos mais juízos de valor do que juízos de facto.

 

Em anos de Mundial estes juízos de valor tendem a agudizar-se, com a multiplicação dos defensores de que o Mundial é a prova futebolística última, acima de qualquer liga nacional e internacional. E quem ganha um Mundial fica sempre mais perto da Bola de Ouro. É só ter a sorte de jogar no clube campeão europeu e a decisão fica muito mais clara para alguns. Luka Modric nem isto conseguiu, já que perdeu na final do Mundial. Talvez Iniesta tivesse que perder a final do Mundial em 2010 para lhe darem o prémio de melhor do mundo como consolo. Já para não falar de Sneijder.

Meus senhores, um Mundial acaba por ser um mês de contexto competitivo muito diferente de todo o resto, onde se junta os melhores jogadores de cada nação e tenta-se levar de vencida um troféu que está cada vez mais oligarquizado. Dou o mérito à seleção croata de ter desafiado esse oligarquismo, e dou o mérito todos os jogadores dessa equipa. Modric ganhou o prémio de melhor jogador dessa competição depois de boas exibições e dois golos marcados. Quantia de golos igual à que fez pelo clube na época de 2017/18, curiosamente. Esta época tem três assistências em 19 jogos, e nenhum golo. No ano de 2018, Toni Kroos tem mais assistências e golos que Modric, apesar de jogarem no mesmo meio-campo. Se Alemanha tivesse ido à final do Mundial, talvez o ex-Bayern tivesse sido considerado melhor do mundo.

Na minha opinião, o prémio seria melhor entregue a Cristiano Ronaldo, por ter ganho o mesmo número troféus coletivos de Modric no ano de 2018, e por ter tido um peso individual muito mais preponderante que o de Modric nessas conquistas. O papel dos defesas e médios não devem ser desvalorizados, mas ao lado de alguém que marque 45 golos em 50 jogos neste ano civil, com golos da importância do pontapé de bicicleta no Juventus Stadium, é ridículo afirmar que Modric foi o melhor do mundo quando não foi sequer o melhor da sua equipa. Também Messi marcou 45 golos e ganhou a Liga Espanhola. Salah teve registos semelhantes. A sorte que o croata teve de ter uma equipa croata coesa no Mundial, foi o azar de Ronaldo, que teve uma equipa portuguesa inconsistente, e ainda assim marcou quatro golos em tantos jogos.

 

Por último, penso que esta decisão sai influenciada pela transferência de Cristiano Ronaldo para a Juventus, abraçando um novo desafio aos 33 anos, e deixando em litígio o todo-poderoso Real Madrid. Apesar de continuar a decidir encontros e quase uma média de um golo por jogo,  já não associamos Ronaldo à marca Real Madrid,  que tem tido uma grande representatividade na atribuição do melhor do mundo. Como se isso não afetasse suficientemente a imagem do madeirense, um escândalo sexual assola-o como uma nuvem negra. E nas eleições, seja de cargos políticos ou de futebolistas, esta é sempre uma grande desvantagem, que nada tem a ver com as suas funções.

Em jeito de conclusão, relembro as palavras que Sepp Blatter usou para preferir Messi a Ronaldo, em 2013: “Lionel Messi é um bom rapaz, que qualquer pai e mãe gostavam de ter em casa. É isso que o faz ser tão popular, porque é um bom homem e por isso é que tem tantos votos. O outro, é um comandante em campo. (…) Um gasta mais dinheiro que o outro no cabeleireiro”. Nesta altura, a Bola de Ouro tinha mão da FIFA, mas agora é um prémio independente, o que torna ainda mais incompreensível esta decisão. Lição da história: se tens ambições de ser o melhor do mundo na tua profissão, nunca te esqueças de ser um bom rapaz.

 

 

 

David Silva

Lourinhanense de gema, é estudante de Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Tem como hobby a escrita, e como paixão o futebol.

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