Como jogam os adversários nacionais na Europa? Nº7: Ajax

O último dos adversários do SL Benfica, na fase de grupos, é o AFC Ajax. A equipa holandesa vem de um resultado muito interessante na Allianz Arena, onde empatou a uma bola com o Bayern de Munique.

Sob o comando de Erik ten Hag, o Ajax teve uma abordagem interessante ao último mercado, e conseguiu juntar experiência a um plantel repleto de juventude e qualidade. Da Premier League, aterraram em Amesterdão, Daley Blind, um regresso a casa, e Dusan Tadic, que se afigura como uma das maiores contratações dos campeonatos europeus.

Marc Overmars, diretor desportivo, deu ao Erik ten Hag todas as condições para a equipa realizar uma época de sucesso. Não só pelos reforços, mas também pela forma surpreendente como conseguiu segurar na Johan Cruijff Arena nomes como Ziyech, de Ligt, Frenkie de Jong e David Neres. A saída de Justin Kluivert está a ter um impacto relativamente pequeno, se compararmos com o salto qualitativo que a equipa teve com o aparecimento de Mazraoui.

Uma coisa é certa, o Benfica vai ter pela frente o plantel mais forte do Ajax dos últimos anos.

Erik ten Hag

Antigo treinador da equipa de reservas do FC Bayern Munique, de 2013 a 2015, trabalhou de perto com Pep Guardiola. Não é necessário dizer que a forma como hoje treina e trabalha, tem uma influência direta do treinador espanhol.

Foi em 2015 que abandonou a Baviera e abraçou o desafio de treinar o FC Utrecht. Uma equipa de meio da tabela na Eredivisie, que Erik ten Hag transformou num candidato europeu (4º e 5º lugar sobre o seu reinado), que esteve perto de eliminar o milionário Zenit (perdeu no prolongamento) no play-off de acesso na última época.

Um confesso devoto de Cruyff e com a mesma paixão pelo jogo que Guardiola, Erik ten Hag afigurava-se como o treinador perfeito para o Ajax.

Um Sistema fluído

Apesar da promessa de um casamento perfeito, o começou não foi fácil. Estas épocas, particularmente pelos resultados, colocaram-se algumas dúvidas sobre se este seria o treinador adequado para comandar o Ajax mais forte dos últimos anos.

Depois do empate em Liège, para a 3ª pré-eliminatória da UCL, e do dececionante empate em casa frente ao Heracles Almelo, a equipa começou a evoluir e os jogadores ligavam-se de forma cada vez mais harmoniosa. A desconfiança abandou a cabeça dos adeptos.

Um 4-2-3-1 extremamente fluído, com um homem nas costas do ponta de lança, que facilmente se transforma em 4-4-2. As características desse papel “gritam” por Donny Van De Beek, mas o jovem de 21 anos não é dono e senhor do lugar (por enquanto), já que Neres e também Tadic, podem desempenhar essa papel.

Todos já ouvimos falar do papel de “Falso 9”, mas nunca o de “Falso Central”, mas é precisamente isso que Frenkie De Jong é, quando joga ao lado de Matthijs De Ligt. Apesar de chegada de Blind e a evolução de Maximilian Wöber terem conduzindo De Jong ao seu papel natural no meio campo, é sempre bom o ver a ultrapassar adversários como se de pinos de tratassem.

Frenkie De Jong a fazer coisas …

Uma formação onde Ziyech e Tadic usam de grande liberdade, são os dois defesas laterais que dão largura à equipa. O comportamento de Tagliafico e Mazraoui é absolutamente fundamental para a equipa, como já vamos ver, particularmente na forma como permitem a Ziyech e Tadic impactar o jogo.

Os melhores amigos de Tadic e Ziyech

Dusan Tadic e Ziyech são o espelho do sistema fluído que Erik tem Hag implementou no Ajax. A forma como Tadic flutua não apenas nos espaços entrelinhas como nos intra-linhas (entre os jogadores que fazem parte da mesma linha) é relevador de uma grande inteligência tática. Apesar de tudo, a qualidade das ações destes dois jogadores, sem e com bola, são em grande medida possíveis pelo papel de outros dois jogadores: os defesas laterais.

Tanto no corredor direito, através Mazraoui, como no esquerdo, com o argentino Tagliafico, a palavra de ordem é largura. Mesmo quando é Neres a ocupar a posição sobre a esquerda, a indicação é para o Brasileiro vir para dentro de forma a receber entre a linha média e defensiva do adversário.

Fonte: Eleven Sports

Em cima, vemos como os laterais garantem a largura. Mesmo com a bola do lado esquerdo, Mazraoui dá largura pelo corredor direito, com o objetivo de esticar horizontalmente o adversário ao máximo. É uma posição muito incómoda para o Defesa lateral do adversário, já que não pode se afastar do seu defesa central, mas também não pode ignorar a posição do lateral (pelo perigo de uma bola nas suas costas por exemplo). Este posicionamento, permite aos dois homens médios ofensivos (precisamente Ziyech e Tadic) flutuar para posições interiores, espaços onde são tremendamente efetivos, já que as suas ações (pela proximidade à baliza adversária) deixam a equipa sempre mais perto do golo.

A meia distância de Ziyech é uma arma poderosa. Vejam como ele procura conscientemente o espaço entre as linhas do adversário, no corredor oposto ao seu, para usar a sua meia distância. É o tal sistema fluido.

Fonte: Eleven Sports Via:GIPHY

Ziyechelfishness

Aproveitar o “embalo” para apresentar um dos aspetos que o SL Benfica, no meu ponto de vista, pode explorar/beneficiar. Como disse Ziyech é um jogador extremamente talentoso, mas muitas vezes coloca a equipa em segundo plano (para não dizer a palavra egoísta). Entendo a razão de o fazer, porque tem inegavelmente muita qualidade com a bola nos pés (Drible, passe, a referida meia distância), mas muitas vezes deixa-se levar em ações individuais que prejudicam a equipa.

Desde de chamar vários adversários até si, e com isso libertando colegas, mas depois não soltar a bola até querer transformar a meia distância em meia “impossível marcar dali” distância. Em baixo, vemos uma dessas situações, na eliminatória frente ao Dínamo de Kiev, onde o marroquino optou por não jogar de frente em Donny e tentou ficar 2 adversários (de costas para a baliza).

Fonte: Eleven Sports

Da construção desde trás ao jogo entre linhas

Como referi, Erik ten Hag é um devoto de Cruyff. Assim, “tratar mal a bola” é algo que não existe, e essa valorização pela bola começa logo na construção desde trás. Aliás, nem poderia ser de outra forma, com jogadores como Matthijs De Ligt, Blind e de Jong que têm sobre si a responsabilidade de iniciar essa mesma construção.

Fonte: BT Sport Via:GIPHY

A confiança e o conforto dos centrais com bola é impressionante, mesmo sobre pressão.

Depois o posicionamento dos laterais abre linhas de passe pelo corredor central, espaço onde o Ajax procura progredir preferencialmente, sempre com a ameaça das corridas dos laterais nas costas da linha defensiva. O posicionamento adiantado dos médios centro, chama a linha média do adversário o que abre espaços nas suas costas para os jogadores mais adiantados da formação de Amesterdão.

Momento da perda

Podemos, na imagem em cima, observar o espaço que existe entre a linha média do Ajax (contando com os laterais) e a defensiva. Nessa imagem, visualizamos 8 dos 10 jogadores de campo, ou seja, apenas os dois centrais ficam atrás.

No confronto frente ao PSV, onde De Ligt não esteve, o Ajax foi atropelado pela forma com que o adversário explorou esse espaço e a reação, particularmente nas costas dos laterais. Assim o momento de perda da bola, apresenta-se como fundamental para o sucesso da equipa de Ten Hag.

Ainda nesse jogo, o PSV pressionou a saída de bola do Ajax, forçando a equipa de Amesterdão a baixar os laterais para dar mais segurança à construção. Com os laterais mais baixos, o PSV pode defender de forma mais coesa, dominado o corredor central, e raramente permitiu aos jogadores do Ajax receber e rodar nos espaços entre linhas.

Fonte: Eleven Sports

De Ligtodependência

Pela forma como o Ajax joga, De Ligt é absolutamente fundamental. O seu posicionamento, e a forma como cobre a profundidade é vital para o sucesso da equipa. Muitas vezes, muitas mesmo, cobre a sua zona e a do lateral, onde a sua velocidade e noção do espaço e das distâncias é verdadeiramente notável para alguém tão jovem.

Dentro de área, a forma como coloca os apoios, quando está perante um duelo defensivo, garante-lhe sucesso na maioria das intervenções.

Veja-se este exemplo, recente, frente à Alemanha para a Liga das Nações. Perante Sané, em contrapé, a forma como responde ao corte para fora do alemão, sem perder a postura.

Fonte: Sport TV Via:GIPHY

Já escrevi mais de 1400 palavras sobre esta talentosa equipa e ainda nem falei da importância de De Jong … nem de Tadic, na definição … nem da forma como Mazraoui coloca a equipa em outro patamar a nível ofensivo.

… enfim, será um verdadeiro teste para o Benfica, mas também para o Ajax. Dois jogos que se antecipam bastante interessantes.

João Mateus

A probabilidade de o Robben cortar sempre para a esquerda quando vinha para dentro é a mesma de ele estar sempre a pensar em Futebol. Com grandes sonhos na bagagem, está a concluir o Mestrado em Engenharia e Gestão Industrial, pela Uni-Nova e procura partilhar a forma como vê o jogo com todos os que partilham a sua paixão.

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