Opinião: Ronaldo, não te esqueças da Seleção

Cristiano Ronaldo é sempre tema de debate mediático e, posteriormente, de conversa de café. Ultimamente, o tema Ronaldo tem extravasado para lá das quatro linhas, para outros assuntos mais sérios. Primeiro, uma evasão fiscal ao Estado espanhol, que resultou num acordo de 18 milhões de euros depois duma arrastada batalha judicial. Após isso, fez as malas e tentou mudar de ares em Itália. Mas sensivelmente três meses depois da mudança, os ares começam outra vez a ficar irrespiráveis, com ventos vindos dos EUA. A acusação de violação por parte de Kathryn Mayorga é grave, e já teve (e sempre terá) repercussões na marca Ronaldo,  e nas ações da Juventus (desceram 10% em 24 horas, na Bolsa de Milão).

Culpado ou não, só a justiça o dirá, mas figuras de relevo de planetário são panos onde as nódoas caem, e ficam para a vida toda. Dentro das quatro linhas, que é onde Ronaldo exerce a sua profissão principal aos 33 anos de idade, a mudança de clube demora a ser assimilada e teve efeitos nas primeiras performances em Itália. Só ao quarto jogo pela Vecchia Signora é que o português marcou. Três golos e quatro assistências em oito jogos, sete deles a contar para o Calcio. No outro jogo que falta, Ronaldo foi expulso no regresso a Espanha, em Valencia, devido a uma decisão duvidosa de Felix Brych, por conselho do seu assistente de baliza. Já cumpriu o respetivo jogo de castigo aplicado pela UEFA, onde a Juve ganhou 3-0 com um hat-trick de Dybala.

Na semana passada, outro ciclo vitorioso do avançado foi quebrado. O ex-colega do Real Madrid Luka Modric foi considerado o melhor do mundo (“The Best”, prémio atribuído pela FIFA) depois de duas vitórias consecutivas para Ronaldo, que ganhou cinco vezes este título, o mesmo número de vezes que Messi. Pela primeira vez em dez anos, nenhum dos dois foi considerado o melhor do ano. Talvez ciente da “derrota”, o futebolista da Juventus não marcou presença na cerimónia de entrega do prémio, para repúdio da FIFA.

Porquê começar este artigo de opinião, cujo título refere unicamente a relação de Ronaldo com a Seleção Nacional, com os processos, a adaptação do astro luso a Itália, e perda da Bola de Ouro para Modric? Porque na minha ótica, são as grandes causas para a decisão de livrar o capitão dos trabalhos da seleção portuguesa, e as causas do seu cansaço (físico e mental). Depois de também não ter sido convocado para a jornada internacional de inícios de setembro, vai ficar de fora da equipa de Fernando Santos até ao final de 2018. E até se compreende a decisão. Estas lides tirar-lhe-iam tempo para responder à acusação de violação, e cansá-lo-iam no regresso à Juventus. Cristiano persegue o sucesso em Itália, para mostrar que realmente pode jogar ao mais alto nível em qualquer lado.

Se alguém merece este tratamento especial por parte da Federação, é Ronaldo, pelo historial de vitórias e compromisso. Porém, é preocupante ver a estrela maior do nosso futebol a relegar para segundo plano a seleção do seu país. Não é que não tenhamos um “plano B” suficientemente bom para encarar os jogos em que Ronaldo faltará (contra Escócia, Polónia e Itália), aliás, o jogo na Luz contra a Itália demonstrou a elevada qualidade da nova fornada de talentos lusos. Mas numa perspetiva a médio prazo, torna-se algo duvidoso como é que a seleção vai reclamar o título do Euro 2020 com um capitão que é, por vezes, ausente. Exemplo disso é a Argentina, que tem em Lionel Messi como capitão mas pouca estabilidade coletiva. O próprio capitão renunciou à seleção do dia para a noite, em 2016, e depois voltou. No seguimento de mais um fracasso no Mundial 2018, o argentino anunciou uma pausa internacional até ao final do ano.

Esta é uma fase difícil para Cristiano Ronaldo, contrariando aquilo que era suposto. Foi pai recentemente e mudou-se presumivelmente para melhores ares, mas outros assuntos afetam a mente do madeirense, que está habituada a ganhar, ganhar, ganhar. Mas para mim, enquanto português e adepto da seleção, acostumado a ver Ronaldo como líder e estrela maior, é assustador pensar que o ciclo de CR7 está a chegar a uma conclusão, ou pelo menos a um estado inconciliável com outros aspetos da sua vida pessoal e profissional. Talvez esteja mal habituado.

 

David Silva

Lourinhanense de gema, é estudante de Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Tem como hobby a escrita, e como paixão o futebol.

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