Foi preciso um “cego” para o Liverpool ver a (justa) vitória

A última vez que Jürgen Klopp e Thomas Tuchel se defrontaram em Anfield, desfrutámos de um grande espetáculo. Então para a Liga Europa, Klopp e o Liverpool perdiam por 1-3, mas acabaram por conseguir virar o resultado para 4-3. Hoje, a competição era diferente e Tuchel estava ao comando de outra equipa, mas o espetáculo? Esse foi o mesmo.

A verdade é que era difícil não haver. Pelos nomes que pisaram o relvado (e os que nem entraram), pelos treinadores, pelo estádio … por ser simplesmente a Champions League.

Para este encontro, ambos os treinadores apostaram em um 4-3-3.

Na equipa da casa Henderson voltou a ocupar a posição mais recuada do meio campo, o que fez Wijnaldum subir “um degrau” ocupando o lugar de Keita. Na frente, Sturridge assumiu o lugar de Firmino fazendo companhia a Mané e Salah.

Já no PSG, tendo em conta as suspensões de Verratti e Buffon, a única alteração digna de registo foi a colocação de Marquinhos na frente da defesa, juntando-se a ele Di María e Rabiot para completar o trio de meio campo.

“Driblas onde eu deixo”

Qual é a melhor forma de evitar que Mbappe e Neymar tenham impacto no jogo? Evitar que a bola lhes chegue, e se a tiverem que isso aconteça o mais longe da baliza e longe das zonas centrais.

Se compararmos os toques na bola do francês e do brasileiro no jogo de hoje, até aos 80 minutos (momento em que o jogo partiu um pouco), com o último jogo na Ligue 1, observamos uma “ligeira” diferença.

Liverpool conseguiu afastar Neymar e Mbappe das zonas centrais, e a grande maioria das intervenções que tiveram perto da baliza do Liverpool resultaram de recuperações de bola e ataques rápidos depois de erros dos jogadores dos reds, como aconteceu no golo do empate.

No lance em cima, Neymar acaba por ir de um corredor ao outro a fintar, ultrapassando adversários com facilidade, mas essa iniciativa nunca colocou a sua equipa próxima do golo, foi bonito de se ver, mas nenhum valor trouxe à equipa. Mérito para o Liverpool, que “empurrou” Neymar para longe de posição 10.

A teia vermelha

Para que a linha ofensiva do PSG não tivesse bola, tudo começava no inicio de construção da equipa visitante. Kimpembe tentou muitas vezes desequilibrar, ultrapassando a primeira linha de pressão do Liverpool, através da sua qualidade e confiança com bola, para criar superioridade perante a linha média, mas a movimentação dos colegas e o seu comportamento, nunca valorizava estas iniciativas.

Vemos isso acontecer, agora em lance corrido, em outro momento do jogo. Kimpembe tenta causar superioridade, mas acaba por se enrolar, com Rabiot, na teia que o Liverpool montou. A pouca ou nenhuma movimentação atrás da linha média da equipa da casa, acabou por nunca colocar essa teia em causa e o Liverpool este sempre confortável.

Marquinhos 

Como já falei, o PSG fez alinhar Marquinhos na posição mais recuada no meio campo. Essa colocação foi uma clara demonstração de Tuchel, de qual era a sua abordagem para o jogo. Isto porque o brasileiro trouxe pouco ou nenhum valor à equipa em termos ofensivos, em termos de inicio de construção e/ou de circulação.

Veja-se como Marquinhos é um corpo estranho, a tentar interpretar um papel escrito em uma língua que ele não entende bem. DI María recebe a bola e faz a intenção de procurar pelo colega, mas em nenhum momento este se movimentou para receber a bola.

Se compararmos os toques na bola de Henderson (Laranja) e de Marquinhos (Azul) percebemos o diferente impacto de cada um. Raramente o brasileiro arriscou ter bola e assumir a posse para lá do seu meio campo.

Então, qual era a missão de Marquinhos ? A missão era se fixar à zona central, formando um triângulo com os centrais, imediatamente à frente da baliza, onde normalmente aparecem os homens ofensivos do Liverpool. Aí vinha ao de cima a sua capacidade em ler as jogadas e se antecipar para ganhar bolas. Veja-se como ele olha, segundos antes, para onde o passe vai ser feito e cortar acaba por cortar o lance, resultando em uma transição rápida da equipa. Aí o PSG foi bastante competente, na proteção das zonas que considerou as mais valiosas: Mane, Salah e Sturride somaram 15 perdas de bolas, das 24 da equipa.

A partir daí era recuperar e atacar rapidamente a baliza adversária, sempre com os três homens da frente preparados para agredir a defesa adversária.

Para estarem preparados para agredir o Liverpool, nenhum desses jogadores defendia, o que deixou espaço nos corredores para os laterais dos reds conseguirem cruzar. Quem aproveitou a qualidade dos cruzamentos, foi Sturride com um belo movimento, no lado cedo de Kimpembe, a finalizar.

Fácil D+

Com o avançar do tempo, esperava-se um PSG mais dinâmico na procura do golo, mas os franceses nunca perderam a compostura, mantiveram a postura da primeira parte, e o jogo parecia estar perfeitamente controlado pelo Liverpool. Os franceses nunca se deixaram cair na tentação de serem eles a assumir o jogo, o que ia dar espaços para as transições dos reds.

Foram uma equipa muito passiva, procuraram sempre esperar pelo erro do Liverpool e nunca contribuir para o promover. A verdade é que acabaram mesmo por ver a espera recompensada, aproveitando um passe errado de Salah para chegar ao empate.

Neymar acabou por não arriscar procurar bolas em zonas mais centrais, na posição dez, porque o Liverpool é uma equipa muito competente em cair sobre adversários que recebam nessa zona . Também por isso, vimos Neymar a tentar desequilibrar mais pelos corredores, espaço onde não é tão demolidor.

Empate, que era um resultado injusto que penaliza o Liverpool. Ao longo da segunda parte, com a tal postura passiva do PSG e a ausência de trabalho defensivo dos homens da frente, os reds iam chegando cada vez mais à área adversária. O receio dos médios do PSG em avançar, para apoio o ataque, tornava fácil para o Liverpool ganhar segundas bolas o que aliado à falta de pressão na bola, permitia a variação rápida do centro de jogo para o espaço livre.

A lei da decisão trouxe justiça ao resultado

O PSG, que parecia não querer nada com o jogo acabou por chegar ao empate. Contudo, um erro de Mbappe que tentou driblar um adversário à saída da sua área, segundos depois de a equipa ter recuperado a bola em um período de sufoco do Liverpool, deixou os três pontos em Anfield.

Driblar naquele local, muito dificilmente ia aumentar a probabilidade da equipa ter algum tipo de sucesso. Aliás aumentava sempre mais a probabilidade de o adversário chegar ao golo, e não da sua equipa, precisamente o que aconteceu.

Decidir bem ou mal, não têm nada a ver com a equipa que está do outro lado. Agora uma coisa é ter como adversário o Liverpool para capitalizar nessa má decisão, outra será ter a maioria das equipas da Ligue 1.

Grande trabalho de Roberto Firmino, e só com uma vista! 🙂

Welcome back! Champions League.

João Mateus

A probabilidade de o Robben cortar sempre para a esquerda quando vinha para dentro é a mesma de ele estar sempre a pensar em Futebol. Com grandes sonhos na bagagem, está a concluir o Mestrado em Engenharia e Gestão Industrial, pela Uni-Nova e procura partilhar a forma como vê o jogo com todos os que partilham a sua paixão.

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