Liga Revelação: potencialidades para jogadores, árbitros, e alguns receios

Este é o ano de estreia para uma nova competição portuguesa, criada para fomentar a formação de jovens valores do futebol luso. O objetivo da Liga Revelação é, segundo a FPF, potenciar um “novo espaço competitivo para a afirmação de jovens futebolistas”, e para além disso, também jovens árbitros. A opinião da semana é dedicada a este tema, depois de o AMBIDESTRO ter entrevistado o treinador da equipa sub-23 do Marítimo.

Como funciona a Liga Sub-23

Antes de explorar esta novidade, convém explicar como irá funcionar a Liga Sub-23: Há uma primeira fase da competição que dura 26 jornadas, dois jogos (fora e em casa) entre cada uma das catorze equipas. Dessas catorze, seis apuram-se para o título de campeão através da mesma política: dois jogos entre cada uma das equipas. Os restantes decidem a despromoção. O campeão é promovido à Segunda Liga, e a última equipa B é despromovida à Liga Revelação. Clubes como Benfica, Sporting, Braga, Belenenses ou Rio Ave embarcaram nesta nova aventura.

De acordo com as regras estipuladas pela Federação, apenas podem competir nesta prova jogadores nascidos a partir de 1996, que tenham a categoria de Sénior, Júnior A ou B. Além disso, os clubes que não tenham tido, na época transata (2017/2018), uma equipa B nas competições profissionais devem inscrever na ficha técnica de cada jogo um mínimo de quatro jogadores com idade compreendida entre os 21 e 23 anos e dois futebolistas com idade superior a 23 anos (esta exigência pode não ser verificada, contudo, durante cinco jogos oficiais). 

Caso um jogador que esteja presente em outras competições profissionais queira participar na Liga Revelação pode fazê-lo mas só se entre os dois compromissos se verificar um interregno de 48 horas. Depois de participar num jogo da Liga Revelação poderá competir sem um hiato de tempo obrigatório.

Sendo esta uma competição a pensar nos mais jovens, a estrutura técnica das Seleções Nacionais de formação vai observar os primeiros sete encontros da liga, com o objetivo de detetar “Potenciais convocados para as seleções nacionais de formação, mediante um trabalho de prospeção e avaliação minucioso em contexto de jogo”, segundo se lê no site da FPF, mas pergunto-me se depois desses sete jogos esse trabalho vai ou não continuar a ser feito.

 

Classificação da Liga Revelação (fonte: zerozero)
Espaço de afirmação também para os árbitros

“A Liga Revelação contará com árbitros jovens do quadro nacional, árbitros que estão ainda numa fase de aprendizagem, que são os potenciais talentos do futuro da arbitragem nacional. É aqui que se vão desenvolver para ganhar ainda mais experiência para poderem ser melhores árbitros no futuro” disse José Fontelas Gomes, presidente do Conselho de Arbitragem (CA) da FPF.

Este é um dos pontos fortes do projeto, a meu ver. O desenvolvimento das terceiras equipas de cada jogo só favorece o futebol português na generalidade, dada a sua importância e elevado escrutínio público. Há muito que um grande certame de seleções não se fazia sem árbitros portugueses, e foi isso que aconteceu na Rússia este ano. Descredibiliza a nossa arbitragem exteriormente, e ainda um pouco mais internamente, se isso for possível. Neste momento, o nosso país conta com nove árbitros internacionais, da categoria C1, mais dez árbitros assistentes com a insígnia da FIFA. Para Fontelas Gomes, a Liga Revelação trará benefícios:

“Esta é uma competição que fazia falta à arbitragem: os árbitros poderão ter mais jogos, desenvolver de uma forma mais assídua a sua atividade para que a primeira categoria (C1) no futuro próximo tenha ainda mais qualidade do que aquela que já tem hoje”.


A liga pode revelar… eternas promessas

Um dos meus medos é que a Liga Revelação se prolongue por demasiado tempo na carreira de um jovem futebolista. Atualmente, um jogador de 23 anos já não é propriamente uma jovem promessa. Com idade semelhante, temos jogadores do calibre de Bernardo Silva, Gelson Martins, André Silva, ou Bruno Fernandes, da colheita de 1995 e 1996. Este tipo de jogadores foi aposta aos 19 e 20 anos, quer num dos grandes, quer num clube estrangeiro. O que quer dizer cada vez mais é imperioso que, para encontrar/desenvolver um belo jogador de seleção, se deva apostar mal ele saia dos juniores, e não três ou quatro épocas depois, que em tempo de futebolista fazem toda a diferença.

Para manter uma equipa sub-23 e uma equipa B, nos casos de Benfica, Braga e Vitória de Guimarães, é preciso que o clube resguarde cerca de 40 jogadores jovens excedentários ao plantel principal, isto se os mesmos futebolistas não rodarem entre as duas equipas (será isso bom?). Jogadores que podiam estar emprestados a clubes da Primeira Divisão ou Segunda ficam “amarrados” à equipa de reservas, ou sub-23 como manda o eufemismo, a jogar contra jovens jogadores do Cova da Piedade ou Académica, com todo o respeito aos dois clubes que me serviram de exemplo. Para os atletas destes clubes sim, a Liga Revelação é proveitosa porque fá-los enfrentar jovens de outro calibre. É não há mal nisso.

Equipas B, um modelo rentável 

Mas no caso das equipas B dos maiores clubes nacionais, equipas essas que formam jogadores desde muito tenra idade com o objetivo de serem craques mundiais, alguns jovens poderão ver-se privados de competição contra seniores de bom nível como aqueles que temos na Liga Ledman Pro, úteis para a aprendizagem de jovens valores que muitas vezes veem a sua idade passar despercebida face ao seu talento. Por decisão superior, podem ficar demasiado tempo na Liga sub-23, ainda para mais se o clube que representam estiver à procura de títulos em vez de desenvolver jogadores.

A Liga Ledman Pro deu nos últimos anos espaço para seis equipas B, com resultados financeiros e desportivos evidentes. Desde 2012 até abril deste ano, as equipas B renderam só em vendas de passes de jogadores uma quantia de 375 milhões de euros, algo inimaginável nas décadas 90′ e 00′. Benfica é o clube com maior fatia do bolo, cerca de 213 milhões de euros, enquanto a transferência mais rentável é de João Mário, que rendeu 40 milhões ao Sporting em 2016. O Vitória de Guimarães é o clube que mais aproveita os jovens da “B”, sendo que em 2016/17, 21% do total de jogadores da Liga NOS passaram numa destas equipas. Talvez a estatística mais importante é que mais de metade dos últimos convocados da seleção principal passaram por equipas B.

Historicamente, os jovens jogadores começaram rodar pelos “clubes satélites”, depois uma primeira versão das equipas B  que competia na antiga 2.ª Divisão B (sem poderem subir), que revelou-se um fracasso, ao contrário das equipas B na Segunda Liga. Este modelo tornou a competição algo sobrelotada e com equipas de diferentes aspirações- uns subir de divisão, outros subir de equipa- mas tornou o jogador português num produto de maior qualidade.

Qualquer conclusão que se tire é, para já, precipitada. Mas na minha opinião, estes cinco anos em que seis equipas B disputaram a Segunda Liga foram positivos não para o futebol português num todo, mas para as estruturas que mais lhe importam- as seleções, e os maiores clubes. Para Pedro Proença, Liga Sub-23 e Segunda Liga devem decorrer em paralelo e serem “complementares”. Esta é para já uma intenção que me tranquiliza pois não implica mudanças radicais, já que a inscrição das cinco equipas B é válida por duas épocas. O Sporting, por outro lado, vai arriscar tudo na Liga Revelação já que extinguiu a equipa B, e a ilação que tiro é que este será o primeiro grande clube a comprovar se a competição revelar-se-á positiva aos interesses do futebol português. Esperemos que sim. 

David Silva

Lourinhanense de gema, é estudante de Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Tem como hobby a escrita, e como paixão o futebol.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.